18 de dezembro de 2010

FESTAS FELIZES!

A TODOS ... 
FESTAS MUITO FELIZES

Chegou forte... e venceu!


ATÉ PARA O ANO!

Recalcitrante... Meg... Myself...
abraça-vos... com o coração.

17 de dezembro de 2010

a casa da minha infância (para luis nassif)

Há já algum tempo que guardava este poema...
para vos oferecer  no Natal.

Para o  Romério, um grande Amigo deste blog, sempre atento nos "bastidores",
vai todo o meu carinho pela amizade ao longo destes anos.

                                            


1.
a casa da minha infância
nunca foi casa qualquer
tem mocinho, tem bandido
uns cantos cheio de medo
uns estados de martírio
medos de deus que se mostram
umas velas choradeiras
da vida que se ilumina
nos seus olhares já mortos
da minha casa vazia.
o pai e a mãe são momentos
de estender as mãos e ver
que certas artes das coisas
se fizeram por inteiro.
quanto de mim vejo agora?
quanto de cada manhã
eu vivi, torridamente.
sem saber, naquela casa
me carrego como um todo.
outros olhos, mais lavrados,
finco no tempo e meu corpo
se perde num tempo oco
quando a mão se esvai, somente
a encontrar cada noite
onde o gosto da lembrança
é um santo protetor
onde um pássaro de fogo
me revelou quem sou eu.

2.
quanto de água ainda bebo
desta casa, destes quartos
se tudo se sabe em mim
em trapos que são do tempo.
a casa sobrou num canto
da memória destilada
do vinho desengonçado
que fala de mim em tudo.

3.
as pedras que me sobraram
os muros que me pariram
todos eles guardei, todos
no meu corpo permanente.

4.
a dicção da paisagem
chega inerte
toda a sonoridade
verte, verte.

romério rômulo

15 de dezembro de 2010

Portugal... por Neruda



Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?

Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
aprenderás de nuevo a ser estrella.

Pablo Neruda


«««o»»»

Porque em  alguns blogs, o endereço remete para posts antigos,
aqui lhes deixo o endereço da Meg...
Myself
http://os-meus-devaneios.blogspot.com/

Só espero que resulte... obrigada a todos
pela paciência!



11 de dezembro de 2010

em branco




...Em mim,

caem-me lágrimas nos dedos

e seca o musgo, no sal

sem vontade de natal!

[Maria João]

*****

Excerto tirado daqui...

7 de dezembro de 2010

...À CORJA





Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado, excelências.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.

Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.


Joaquim Pessoa

6 de dezembro de 2010

Congresso Internacional do Medo















Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte
depois morreremos de medo
e sobre os nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade
( Amar-Amaro)


30 de novembro de 2010

Casino ou... bordel europeu!

"The return of the flame" de Rene Magritte


E no entanto o país, meu Senhor,
é uma beleza! Uma beleza! Encantador!
Trinta portos ideais, um céu azul marinho,
A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho,
Balsâmicos vergéis, serranias frondosas,
Clima primaveril de mandriões e rosas,
Uma beleza! Que lhe falta? Unicamente
Oiro,vida, alegria, outro povo, outra gente.
Raça estúpida e má, que por fortuna agora
Torna habitável este encanto…indo-se embora!
Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar:
Dois boqueirões de esgoto,- o cemitério e o mar.
Que precisamos nós? Libras! Libras, dinheiro!
Libras d’oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro?
Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto;
Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto.
Impérios d’além-mar, alquilam-se, ou então
Sorteados,- em rifa, ou à praça,- em leilão.
E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu,
Para um casino monstro e um bordel europeu,
Fazer desta cloaca, onde a miséria habita,
Um paraíso por acções,
- cosmopolita...

Guerra Junqueiro
Pátria
(1896)


28 de novembro de 2010

Súbita, uma angústia...

Egon Schiele, 191o


Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?


Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...


Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,


Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!


Dêem-me de beber, que não tenho sede!


Álvaro de Campos
(11-4-1928)


22 de novembro de 2010

Ora porra! - Manifesto de Álvaro de Campos


Gustave Courbet

Ora porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do carro abaixo!


E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!

Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.


Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.


Álvaro de Campos
Poesia

Assírio & Alvim

15 de novembro de 2010

Em Abril Dilacerado

A papoila, óleo de Maria Azenha


em abril dilacerado
era uma vez uma voz
que habitava uma casa
e dentro desta casa
habitava uma menina sem voz
e dentro da menina
uma cidade sem janelas
e dentro da cidade
uma guitarra enorme

era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz

e tudo o que nos mata
a palavra cobre
e tudo o que nos move
a palavra ata

e todos os jardins
foram arrancados
por causa da memória
deste país tão pobre

era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz

e as lágrimas da menina
engoliram a cidade
em abril dilacerado
com arames em volta

Maria Azenha
[2003]

8 de novembro de 2010

Democracia

Republicação... porque sim!!!

Ema Berta
 

Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incensoe
haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»


Nuno Júdice
A Matéria do Poemas, Dom Quixote, 2008, p. 45

3 de novembro de 2010

Camões e a tença




Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente
E aqueles que invocaste não te viram

Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto
Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente


Sophia de Mello Breyner Andresen



26 de outubro de 2010

"Esperemos"...


Vincent Van Gogh



Há outros dias que não têm chegado ainda,
que se estão fazendo
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para nos premiar
com uma laranja
ou nos assassinar de imediato.

Pablo Neruda
(Últimos Poemas)




20 de outubro de 2010

"É grave a situação de Portugal"...Desde quando, afinal?


William Turner: O incêndio no Parlamento, 1835.
Cleveland Museum of Art


"É grave a situação de Portugal.
São grandes as dificuldades que embaraçam a vida política da nação.

Confusão e incoerência nos princípios, grande desordem nas finanças;
enfraquecimento deplorável da autoridade, dentro dos limites da constituição e das leis;
falta de confiança na vitalidade do país e nas suas faculdades políticas e económicas;
um desalento injustificável através do qual se esconde um perigoso indiferentismo;
a violência mais exagerada nas lutas dos partidos, sem que lhes corresponda nem o vigor das convicções nem a ousadia dos cometimentos;
tendência funesta a rebaixar tudo e todos;
paixões em vez de crenças;
preconceitos em vez de ideias;
negações em vez de afirmações, tanto no domínio dos princípios como no dos factos;
desconfianças em vez de esperanças e falta de fé na liberdade;
são cousas de desorganização e ruína para uma nação, por maior que seja o seu poder, por mais gloriosas que sejam as suas tradições.

Em Portugal dão-se muitas dessas circunstâncias que abatem a energia das nações.
É uma dolorosa verdade. Mas é verdade também que o mal, ainda que grave, não é sem remédio.
É mais aparente do que real.
(será???, digo eu!)

Em Portugal há todas as condições de uma verdadeira nacionalidade."


Andrade Corvo
 Perigos (excerto - 1870)
Economista, homem de ciência, militar, parlamentar e político português, João de Andrade Corvo nasceu a 30 de Janeiro de 1824, em Torres Novas, e faleceu a 16 de Fevereiro de 1890, em Lisboa. Frequentou os cursos de Matemática e Ciências Naturais, Engenharia e Medicina. Em 1866, tornou-se ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, tendo desenvolvido leis proteccionistas e construído o caminho-de-ferro do Minho ao Douro. Em 1872, foi-lhe entregue a pasta da Marinha e Ultramar e depois a dos Negócios Estrangeiros. Leccionou na Escola Politécnica de Lisboa e no Instituto Agrícola. Criou a Sociedade Escolástica Filomática com vários amigos, como Latino Coelho, Mendes Leal e Rebelo da Silva.

No entanto, para além de político, foi também dramaturgo e romancista. Colaborou em vários periódicos, entre os quais a Revista Universal Lisbonense, o Mosaico, o Arquivo Universal, a Revista Contemporânea de Portugal e Brasil ou A Época, onde publicou vários textos dramáticos: Nem tudo o que luz é ouro, de 1849, Um conto ao serão, de 1852, O astrólogo e O aliciador, ambos de 1859. Entre 1850 e 1851, publicou o romance histórico em quatro volumes Um ano na corte, que se destaca dos seus congéneres pela acuidade psicológica, elogiado pelo próprio Alexandre Herculano no prefácio das Lendas e narrativas. Publicou ainda o romance Sentimentalismo, de 1871, e a colectânea Contos em viagem, de 1883, de temática actual.


Bibliografia: D. Maria Teles, 1849; Botânica Elementar, 1850; Um ano na corte, 1850-1851; Murmúrios, 1851 (poesias); A Instrução Pública, 1866; Sentimentalismo, 1871; O Livro do Lavrador, 1875; A Agricultura e a Natureza, 1881; Contos em viagem, 1883; Estudos sobre as Províncias Ultramarinas, 4 vols., 1883-1887

18 de outubro de 2010

Imagens de férias


Há férias, que por breves que sejam, me compensam e ajudam a sobreviver à loucura e ao trabalho dos meses de Verão por estes lados


E este ano descobri "isto"...
o som do silêncio... a quietude e afabilidade do ambiente...
o horizonte bravio a perder de vista... a natureza, pura e simples.
 

Ficou-me a vontade e a certeza de lá voltar, mas com mais tempo.


Entretanto, partilho convosco alguns momentos dessas mini-férias...



 


Data... Sophia de Melo Breyner

Sophia, por Eduardo Gageiro


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

2 de outubro de 2010

"Caminhamos para uma ruína!..."

A diferença está nos fraques, nos taquígrafos, no telégrafo e pouco mais... minudências!


[...]
«Caminhamos para uma ruína! - exclama o Presidente do Conselho.
- O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»

Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria!

— Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?

E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! cai o ministério histórico!

E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.

Abre a sessão parlamentar. O novo ministério regenerador vai falar.
Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração daPátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados!
Porque, enfim, o ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança!

- Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho.

- O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado, apoiado! - exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...»

Murmúrios. Vozes: Ouçam! ouçam!

«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)»
E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição.
Todos estão lúgubres.

- «Meus senhores - diz o presidente, com voz cava. - O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça!
- Guerra ao imposto!...»

Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!

Eça de Queiroz,
Uma Campanha Alegre, 1871

1 de outubro de 2010

ELOGIO AO AMOR

Para ti...neste dia, o mais importante da tua vida... sem muitas palavras...
estou triste por estar ausente,
 mas muito feliz por te saber a viver um amor "à antiga"...um amor puro!
E isso é o mais importante.
Que a vossa felicidade seja eterna!




Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado.
Os amantes tornaram-se sócios.
Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.
Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.
O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.
O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.
Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.
O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não dá para perceber.
O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém.
Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso


26 de setembro de 2010

"Feios, porcos e maus"... Aí estão para nos governar!

Republicação... porque sim!!!


Compram aos catorze a primeira gravata

com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.

No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva
Movimentos no Escuro,
Relógio d'Água, Lisboa, 2005.

22 de setembro de 2010

Amigos, nada mudou em essência... PORQUÊ?


Slave Ship (Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying, Typhoon Coming On)1840 - William Turner, 1775–1851

Carta aos Mortos



Amigos, nada mudou em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
As guerras não terminaram
E há vírus novos e terríveis,
Embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
Tomba morto por questões de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
E como sempre, mulheres portentosas
Nos seduzem com suas bocas e pernas,
Mas em matéria de amor
Não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
Seis meses ou mais, testando a engrenagem
E a solidão.
Em olimpíada há recordes previstos
E nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
Com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
Relemos o Quixote, e a primavera
Chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
Se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
Ou toma a fresca da tarde,
Mas temos máquinas velocíssimas
Que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
E a formação das galáxias
Não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
Países se dividem
E as formigas e abelhas continuam
Fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
Discutimos futebol na esquina
Morremos em estúpidos desastres
E volta e meia
Um de nós olha o céu quando estrelado
Com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente,
Continua a achar
Que vive no ápice da história.

Affonso Romano de Sant'Anna

20 de setembro de 2010

As nossas madrugadas



Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Tereza Horta

16 de setembro de 2010

Ai! Se sêsse!... Irresistível...

"Poesia de Cordel", pela mão do amigo Romério Rómulo.



Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!
Ai! Se sêsse!...

Zé da Luz


 Por Manuel  Bandeira (*)

“Se eu falar de Severino de Andrade e Silva, ninguém saberá quem é.
E o que adiantaria saber que se trata de um caboclo franzino e feio, nascido em Itabaiana, na Paraíba, aos 29 de março de 1904, filho de pais pobres, que não lhe puderam dar senão a instrução primária, alfaiate de profissão até 1951, quando foi aposentado por invalidez pelo Instituto dos Comerciários.
Mas Severino tem outro nome e deste todo mundo já ouviu falar: Severino é Zé da Luz, poeta-cantador, já consagrado pelo livro Brasil Caboclo (...)Zé da Luz, depois de publicar Brasil Caboclo, veio de mudança para o Rio e, durante muitos anos, ganhou a vida cortando roupas para O Pavilhão, casa vizinha à Livraria José Olympio, rende-vous de figuras ilustres das letras nacionais.
Todavia, o alfaiate-cortador continuou poeta, e a saudade de sua Paraíba, da ainda mais sua Itabaiana, veio desovando nos versos deste Sertão em Carne e Osso, versos mais tristes do que os do primeiro livro, mais líricos.” (…)

(*) Manuel Bandeira, um dos maiores poetas brasileiros do Século XX.



6 de setembro de 2010

De volta aos amigos, com José Fanha e... Dói-me o Peito

Depois de um período de trabalho intenso, eis-me de volta ao vosso convívio, saudando desde já todos os amigos que por aqui passaram apesar da minha ausência.

Espero que gostem também do novo visual do Recalcitrante...
A todos, para cada um de vós,  deixo estas flores, com o carinho e a amizade da Meg 

Diego Rivera


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Como não tenho -  não temos - razões para nos sentirmos particularmente felizes, aqui vos deixo mais uma vez, um poema de José Fanha que cada vez tem mais actualidade.



Dr.

dói-me o peito
do cigarro
do bagaço
do catarro
do cansaço
dói-me o peito
do caminho
de ida e volta
do meu quarto
à oficina
sem parar
sempre a andar
sempre a dar
dói-me o peito
destes anos
tantos anos
de trabalho
e combustão
dói-me o luxo
dói-me os fatos
dói-me os filhos
dói-me o carro
de quem pode
e eu a pé
sempre a pé
dói-me a esperança
dói-me a espera
pelo aumento
pela reforma
pelo transporte
pela vida e pela morte.

Dr.

já estou farto
de não ser
mais que um braço
para alugar
foi-se a força
e o meu corpo
é como o mosto pisado
como um pássaro insultado
por não poder mais voar.

Dr.

eu não sei ler
os caminhos
por dentro
dos hospitais
mas alguém há-de aprender
entre as rugas do meu rosto
o que não vem nos jornais
e não há nada no mundo
nem discurso
nem cartaz
capaz de gritar mais alto
que as palmas das minhas mãos
que o meu sorriso sem jeito,

Dr.

Dói-me o peito…

José Fanha