26 de setembro de 2010

"Feios, porcos e maus"... Aí estão para nos governar!

Republicação... porque sim!!!


Compram aos catorze a primeira gravata

com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.

No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva
Movimentos no Escuro,
Relógio d'Água, Lisboa, 2005.

19 comentários:

jrd disse...

Pois é!
São os milagres da "cosmética".

Multiolhares disse...

são todos iguais, parecem escolhidos a dedo
Bj

Luis Eme disse...

é mesmo isso, em todos os partidos, uma verdadeira escola de "actores mediocres"...

abraço Meg

Ana Tapadas disse...

Nem podias ter escolhido melhor republicação: na hora certa! Infelizmente...para nós.
BJ

Pata Negra disse...

É lá! Gostei disto! Vou também divulgar um dia destes! Posso?!
Beijos com casos destes na vizinhança

O Guardião disse...

Um soco abaixo do cinto, como eles bem merecem. Boa!
Cumps

São disse...

Mas a culpa também não será nossa que escolhemos sempre os "dois partidos do arco do poder?!

Boa semana.

Meg disse...

Caro jrd,

Se isto fosse só
um caso de cosmética!
Não é, não, infelizmente.

Um abraço

Meg disse...

Luna,

E o pior é que se multiplcam como os cogumelos... esta raça parece não correr risco de extinção.

Beijo

Meg disse...

Luis,
Que bom te ver por cá!
É isso mesmo, Luis... uns aprendizes de feiticeiro.
Já fui visitar o teu "novo" espaço.
Voltarei.

Beijo

Meg disse...

Ana,

Infelizmente, continua a ser oportuna a republicação de muito do que aqui publico vai para 4 anos.
Nada muda... para melhor.

Um beijo para ti

Meg disse...

Meu querido Pata Negra,

Claro que podes... e deves!
É preciso chamar os bois pelo nome e tu sabes fazê-lo muito melhor que eu!

Um abraço amigo

Meg disse...

Guardião,

E achas que eles ainda sentem alguma coisa? Desconfio... se me entendes...
Nós vamos tentando.

Um abraço

Meg disse...

São,

Se calhar somos masoquistas!
Vais ver dentro de pouco tempo se não tenho razão!
Eles perfilam-se e... são levados ao colo.

Beijinho para ti

O Puma disse...

Com tudo e todos no mesmo saco

a alternativa só pode ser

galos de Barcelos
ao poder

Cid Simões disse...

Não é assim "em todos os partidos"!
É metendo tudo no mesmo saco que branqueamos o PS/PSD/CDS que têm arrastado este país para o caos em que se encontra.Esta linguagem sibilina confunde as pessoas e desvirtua a democracia.

Decio Bettencourt Mateus disse...

Ora, ora...o José Miguel Silva deu em cheio!

JPD disse...

Belíssimo texto.

Boa noite, Meg

Maria João disse...

Querida Meg

À decepção de longa data, soma-se a depressão dos dias e a descrença total em tudo e em todos os que, afinal, nos desgovernam até ao tutano.

Isto parece um país a fingir... parece, mas infelizmente não é!

Um beijinho grande