25 de março de 2010

ATÉ BREVE... espero!

A TODOS os verdadeiros AMIGOS... antigos e recentes, peço um tempo.
Preciso de algum tempo para "lamber umas feridas".
Preciso também de coragem!
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Deixo-vos o meu carinho nas "minhas canções" ... espero que gostem.
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Espero não perder nenhum de vós, até me recuperar.
Um beijo da vossa meg
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23 de março de 2010

O prazo de validade da escola

Alexander Klevan



o prazo de validade da Escola
está fora do Um
entrego-me nas horas a polir as unhas ao Todo

o buraco da fechadura do mundo
está sujo

as empregadas
fecham as portas e marcam faltas
no supermercado onde vivo

escrevo no quadro está calada vânia
sem a metafísica do sujeito além do mais
o teorema de pitágoras foi de certeza roubado
da internet para testar a professora do armazém

deviam todos vestir a mesma bata para não se distinguir
a bélgica da alemanha da espanha e por aí fora
e também o país às terças feiras
quando toda a gente vai fazer compras
ao armazém de george orwell

as refeições continuam a ser repressivas
ninguém sabe o que come "está bem"
mas ficámos uns com os outros por causa da noção do todo

Maria Azenha

17 de março de 2010

Pergunta-me...

Soledades, de Miguel Oscar Menassa

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue


Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos


Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enovoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente


Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Mia Couto
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14 de março de 2010

Foi há 3 anos...

A Recalcitrante comemora hoje o seu 3º aniversário 
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  Foi há 3 anos, assim... com "Alberto Caeiro"
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que teve início esta já longa caminhada...
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Não sei o que dizer, meus AMIGOS!  
nunca me passou pela cabeça estar aqui ao fim destes três anos...
ter tido a companhia de tantos e tão bons amigos...
os que encontrei, os que aparecerem depois...
os que desistiram entretanto...
os que chegararam mais recentemente...
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A TODOS
O MEU GRANDE E CARINHOSO AGRADECIMENTO...
MUAHHHHH!
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...uma fatia de bolo - vá, não sejam gulosos, cuidado com a "linha" -
e uma taça de champanhe...

TCHIM, TCHIM!

meg, a sempre recalcitrante

beijooooossssss
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10 de março de 2010

A FOME, de José Pádua

A Fome, de José Pádua



Em plena mudança de casa - mais uma vez...
entre livros e outras "coisitas" que me vão  acompanhando ao longo da vida...
encontrei umas serigrafias de José Pádua, um pintor moçambicano que conheci nos anos 70 na Beira... em Moçambique, claro!


Não sendo muito divulgado, resolvi deixar-vos aqui (mais uma vez) um brevíssimo, mas caloroso, testemunho da sua obra.


....E este olhar de MIA COUTO sobre a obra de José Pádua



"A pincelada breve, magra, sugerindo apenas a forma e indicando a cor.



Isso eu busco nos quadros de Pádua.


Como procuro na poesia que vive apenas de essência, depurada de excesso, sacudida de artifícios.

Eu leio a pintura de Pádua como quem olha palavras e as vê voláteis, escapando do território da página.






E me pergunto que arte é essa que não será o preencher de formas o vazio, mas o exacto oposto.



Como se houvesse um desenho inicial, uma tela cheia de formas e traços e ele, em lugar de pintar, raspasse, em vez de acrescentar, apagasse, ao invés de rendilhar, simplificasse.


Até a forma ficar assim, leve e fugaz, e
pedisse ao papel não o suporte de
fixação mas um movimento, um impulso de asa.





Nas linhas do pintor moram lugares da minha infância, os subúrbios dessa meninice, a Munhava, os meninos brincando com arcos, os pescadores esguios, as mulheres carregando água como se elas e o cântaro fossem um único desenho.


E um rio que poderia ter o nome de Púngè.
Mas que se chama tempo e vai escrevendo em nós uma caligrafia que é a saudade do tempo em que a vida não doía.


Como se a vida fosse uma tela onde a mão divina do pintor salvasse do branco esse inacabado desenho que nós somos."
 Mia Couto

~~~~o~~~~


O artista plástico José Pádua nasceu na Cidade da Beira, em 1934, e reside em Lisboa desde 1977.
Foi eleito Artista Plástico do Ano em 1966 pelo Jornal A Tribuna, de Moçambique, pelo seu trabalho enquanto pintor, decorador, ilustrador e gravador.
Entre 1974 e 1978 trabalhou exclusivamente para a Galeria de Arte R. Rennie, Harare, Zimbabwe.
De 1979 a 1981 foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, frequentando cursos de gravura em metal e de litografia.
Em 1980 e 1981 foi distinguido com os 2º e 1º prémios, respectivamente, em exposições sobre temas de Lisboa. Em 2002 publicou o livro O Fascínio de Moçambique. Tem também trabalhos nos domínios da
escultura e azulejaria, bem como murais em cimento.Entre 1962 e 2003 realizou mais de trinta exposições individuais em Moçambique, Portugal, Zimbabwe, África do Sul e Suécia.
Além de ter participado em inúmeras exposições colectivas faz parte do grupo A Tertúlia de Artistas de Moçambique que expõe todos os anos, desde 1984, em vários países do mundo.
Está representado em inúmeras colecções particulares em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente na África do Sul, Zimbabwe, Malawi, Moçambique, Angola, Espanha, Suécia, Áustria, Brasil, Venezuela, EUA, Canadá, Israel, Japão e Austrália.

[F.Ferreira Mendes]

5 de março de 2010

Uma voz na pedra...

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Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



António Ramos Rosa
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