30 de abril de 2009

O que é isto???

. . É para isto que pagamos os nossos impostos??? Quantos elementos judiciais estão ocupados com este "terrível" crime??? É um caso para rir ou para chorar???? . . . O "CASO"... FURTO DE GATA, NA JUSTIÇA Encontrou a gata "Maria" abandonada e prestou-lhe cuidados médicos. Em troca, a dona do animal "presenteou-a" com um processo judicial, acusando-a de sequestrar "Maria", pelo qual começou, esta quarta-feira, a ser julgada. Apenas uma falha generalizada no sistema informático dos Juízos Criminais de Lisboa, ontem, evitou que Cláudia Sousa explicasse qual a razão que a levou, em Agosto de 2006, a recolher da rua uma gata ferida, a dar-lhe guarida e assistência médica, mas a não devolve-la à dona, após conhecer a sua identidade. Este foi o segundo adiamento deste insólito julgamento, desencadeado por uma queixa à Polícia de Maria Emília Palhinha, a dona do animal, que ontem acusou a arguida de chantagem. "Quando descobriu pelo 'chip' que era eu a dona, telefonou-me e disse-me que só me a devolvia se lhe conseguisse explicar como é que, morando na Graça, a gata tinha aparecido abandonada em Carnaxide [a 13 quilómetros]. Ameaçou que me levava a tribunal por maus tratos à gata", explicou. Já Cláudia Sousa adiantou que, após o veterinário ter detectado o 'chip' no animal, se comprometeu a devolver a "Maria" logo que estivesse curada dos ferimentos que apresentava. Mas o pior aconteceu: dias depois, numa estadia nas Caldas da Rainha, para onde acompanhou Cláudia e a família, "Maria" fugiu. Ora, como a 'actriz' principal deste enredo nunca mais apareceu, não existe o elemento da subtracção. Daí que o Ministério Público tenha proposto, ontem, a alteração da qualificação da acusação, de crime de furto de uma gata para "o de aquisição de coisa achada". A mudança deverá ser analisada na próxima sessão, ainda sem data marcada. No canto da sala de audiências, inconsolável, Maria Emília lá admitiu ser perseguida pelo azar. Ao JN, acabou por confessar que antes de "Maria" já uma outra gata se tinha escapulido. E talvez pelo mesmo método de fuga encetado pela sua sucessora: um salto da varanda. "Por isso é que pus um 'chip' na "Maria", frisou. Nuno Miguel Ropio JN, hoje, 30 de Abril de 2009 . . .

27 de abril de 2009

Per Augusto & Machina

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Hoje, trago-vos, em antecipação, quatro poemas do amigo e grande poeta,
Romério Rómulo, que constam do livro "Per Augusto & Machina",
a chegar muito em breve às nossas mãos, pela editora Altana
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de quantas nuvens se faz uma loucura? é construída a mão que bate o prego? as estações do corpo só revelam o hábito eloqüente do delírio. que nos corroa a pedra, o visgo louco da agonia! desmonte do tamanho, o extirpado dente, gengiva em sangue são a mesma face do hábito terrível de ser homem. quanta eloqüência travada no meu olho! . (uma bravura regenera a noite) .
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a vaga decisão de ser meu corpo
o elo de teu ventre com a terra.
devo extirpar o gesto adquirido
num, por somenos, ato reticente
de ver distância de mim ser teu intent
eu tenho que arrancar da tua nuca
quando as valas mostrarem nosso rumo
quando as formigas resvalarem atos
de um só ser em nós se validar
vou te mostrar a minha mão candente
meu corpo todo ele enluarado
e o meu dente podre de manhã.
há de sobrar de nós-o quê? –só torpes
rasgos de vento no olho do tufão.
a pura pedra me diz:
quando fui homem?
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(arrancar da tua nuca)
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. . meu corpo traz uma equação de nuvem.
pobres resgatados, desmorados, osso e braço
rezam no ar de penitência suas águas.
proprietários do sobrado, pouco lhes resta.
de tempo, arreganham dentes de uma fome sólida.
ralos de feijão, seus corpos sabem o horizonte da terra.
escaldados, cândidos, um sopro.
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(cândidos, um sopro)
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o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante a noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos.
quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente?
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica.
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares?
sou vil filhote desta dor e medo.
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(todo sertão é um caldo de tortura)
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Romério Rómulo
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. ROMÉRIO RÓMULO...no Café Literário
"O Novidades & Velharias, reintroduzindo o quadro de entrevistas intitulado “café literário[1]”, contará com a presença do poeta mineiro Romério Rômulo para debater questões relacionadas aos seus horizontes de criação, preferências e concepções literárias e alguns elementos perceptíveis em seu novo livro de poesia, intitulado Per Augusto e Machina. (...)"Hercília Fernandes
«««o»»»
A propósito da entrevista acima anunciada, Romério Rómulo, deixou-me um convite que é dirigido também a todos os amigos do Recalcitrante, e que passo a transcrever...
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meg :
uma notícia.
a professora hercília fernandes,da universidade federal do rio grande do norte,brasil
(ela é conterrânea do moacy cirne),fez uma longa entrevista comigo,e disponibilizou

deixo o meu convite à leitura da matéria a todos os amigos do blog

um beijo.
romério


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Obrigada, Romério!
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Já li a extensa entrevista e confesso que me surpreendeu... fiquei a conhecer muito melhor o Homem e o Poeta ...o seu trabalho, a sua obra e o novo livro de poesia.
Recomendo-a vivamente... a todos.
Bem haja, Hercília Fernandes!

23 de abril de 2009

Qual a cor da liberdade?


Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Quase, quase cinquenta anos reinaram neste país, e conta de tantos danos, de tantos crimes e enganos, chegava até à raíz.
. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Tantos morreram sem ver o dia do despertar! Tantos sem poder saber com que letras escrever, com que palavras gritar!
. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Essa paz de cemitério toda prisão ou censura. e o poder feito galdério, sem limite e sem cautério, todo embófia e sinecura.
. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Esses ricos sem vergonha, esses pobres sem futuro, essa emigração medonha, e a tristeza uma peçonha envenenando o ar puro.
. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Essas guerra de além-mar gastando as armas e a gente, esse morrer e matar sem sinal de se acabar por política demente.
. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Esse perder-se no mundo o nome de Portugal, essa amargura sem fundo, só miséria sem segundo, só desespero fatal.
. .Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Quase, quase cinquenta anos durou esta eternidade, numa sombra de gusanos e em negócios de ciganos, entre mentira e maldade.
. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
. Saem tanques para a rua, sai o povo logo atrás: estala enfim, altiva e nua, com força que não recua, a verdade mais veraz.
. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.
Jorge de Sena, 1974
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20 de abril de 2009

Perguntas


Gustave Courbet Onde estavas tu quando fiz vinte anos, e tinha uma boca de anjo pálido? Em que sítio estavas quando o Che foi estampado nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América? Em que covil ou gruta esconderam as suas armas para com elas fazer posters cinzentos e emblemas? Onde te encontravas quando lançaram mão a isto? E atrás de quê te ocultavas quando mataram Luther King para justificar sei lá que agressões ao mesmo tempo que víamos Música no Coração mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes? Por onde andavas que não viste os corações brancos retalhados na Coreia e no Vietname nem ouviste nenhuma das canções do Bob Dylan virando também as costas quando arrasaram Wiriamu e enterraram vivas mulheres e crianças em nome de uma pátria una e indivisível? Que caminho escolheram os teus passos no momento em que foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul ou Allende terminou o seu último discurso? Ainda estavas presente quando Victor Jara pronunciou as últimas palavras? E nem uma vez por acaso assististe às chacinas do Esquadrão da Morte? Fugiste de Dachau e Estalinegrado? Não puseste os pés em Auschwitz? Que diabo andaste a fazer o tempo todo Que ninguém te encontrou em lugar algum? Joaquim Pessoa in Os Dias da Serpente .
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16 de abril de 2009

O sexo dos anjos

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E para desanuviar das tristezas da política...
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O SEXO DOS ANJOS

Foi em Bizâncio, antes da queda.
Discutiam o sexo dos anjos, e a discussão ficou interrompida
quando os turcos cortaram o fio à meada,
se é que não cortaram mesmo o sexo aos anjos.
Bizâncio, então, podia ter caído uns dias mais tarde:
talvez, durante esses dias, se pudesse chegar a uma conclusão
sobre qual era, afinal, o sexo dos anjos;
e o assunto interessa-me porque os únicos anjos que conheço são em estátua,
e não é possível espreitar o sexo de uma estátua!
A queda de um império, é verdade, dá-nos estas coisas imprevisíveis:
dá-nos um voo de argumentos teológicos sobre o sexo;
e traz-me, de súbito, o teu rosto,
inquietante na sua fixidez de enigma grego
– esse rosto de perfil, e também gosto dos perfis,
mesmo quando não são de anjos
ou não têm a linha pura dos ícones gregos.
Basta-me, então, saber que é o teu rosto;
ouvir ainda as tuas últimas palavras de despedida,
que me soaram demasiado secas
 

(mas que outro tom se pode usar
numa despedida para não ser patético,
como esses que ainda discutiam o sexo
dos anjos num conflito cercado pelos turcos?)

– e dizer-te, agora, que não há voltas a dar ao amor
quando o céu muda a cada instante,
e é preciso, apesar de tudo,
que alguma coisa permaneça intacta em tempos de mudança.
Que outros impérios terão de cair para isso?
Em que novo concílio ouvirei discutir o sexo dos anjos?
Ouve, então, de novo:
em Bizâncio, uma tarde, foram todos degolados à beira da conclusão.


Nuno Júdice 


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12 de abril de 2009

Feios, Porcos e Maus . Ettore Scola (1976)

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Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.


José Miguel Silva
Feios, Porcos e Maus . Ettore Scola, 1976Movimentos no Escuro,Relógio d'Água, Lisboa, 2005.




10 de abril de 2009

Tempos de Páscoa

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Aos amigos que me visitam,
a todos os que por aqui passam,
aos que passam e lêem,
aos que lêem e têm a gentileza de comentar,
aos que gostam e aos que gostam menos...
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A todos, sem excepção
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desejo
. UMA PÁSCOA MUITO FELIZ
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Enquanto a falta de tempo, por motivos profissionais relacionados com esta quadra,
não me permite ir visitar-vos e ler-vos,
agradeço a todos os que já aqui deixaram os votos de Boa Páscoa,
e prometo fazê-lo logo que me seja possível.
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Deixo-vos um grande abraço e...
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Eugénio de Andrade
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Urgentemente
. É urgente o Amor, É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros, e a luz impura até doer. É urgente o amor, É urgente permanecer.
. Eugénio de Andrade
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6 de abril de 2009

Ora, Eça...1867?

 Eça de Queiroz, por António

"E assim se passa, defronte de um público enojado e indiferente, esta grande farsa que se chama a intriga constitucional. Os lustres estão acesos. Mas o espectador, o País nada tem de comum com o que se representa no palco; não se interessa pelos personagens e a todos acha impuros e nulos; não se interessa pelas cenas e a todas acha inúteis e imorais. Só às vezes, no meio do seu tédio, se lembra que para poder ver, teve que pagar no bilheteiro. . Pagou – já dissemos que é a única coisa que faz além de rezar. Paga e reza. Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam, soldados que o não defendem, padres que rezam contra ele. Paga àqueles que o espoliam, e àqueles que são seus parasitas. Pagam os que o assassinam, e paga os que o atraiçoam. Paga os seus reis e os seus carcereiros. Paga tudo, paga para tudo. . Em recompensa, dão-lhe uma farsa. . No entanto, cuidado! Aquele pano de fundo não está imóvel: agita-se como impelido por uma respiração invisível. Alguém decerto está do outro lado. Enquanto a farsa se desenrola na cena, alguém, por trás do fundo, espera, agita-se, prepara-se, arma-se talvez...
- Quem é esse alguém?
As vossas consciências que vos respondam./.../"

Eça de Queiroz
Distrito d’Évora, Évora, 6 de Janeiro de 1867, p. 3, col.1. . .


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1 de abril de 2009

O País à Porta

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Paula Rego - Salazar a vomitar a Pátria Se pudesses, O'Neil, ver hoje o teu país, (ou tu, Assis Pacheco, filho pródigo destes quintais floridos) velho de oito séculos e pouco mais velho desde que o deixaste, país que secretamente não vota para não se maçar enquanto furta com arte as gaiolas vizinhas a cantar nas paredes caiadas, país com mais que fazer (futebol para ver e mato para queimar); ----- se pudesses vê-lo agora não levarias a peito, mas confirmarias, estou certo, que tem defeito de nascença ou de fabrico, mais valendo, por isso, como em vida tua valeu, deitar por terra a lança do ódio, fechar a navalha do tédio, sacudir o ombro amigo da solidão e rir sonoramente de tudo, talvez não tanto à porta da pastelaria como hoje em dia, à porta dos chineses, mas rir sonoramente de tudo, dizia, - de ti mesmo, sobretudo. Rui Lage In "Revólver" (Quasi Edições, 2006).