28 de outubro de 2009

PER AUGUSTO & MACHINA - novo livro de Romério Romulo


eu faço poesia porque a vida não basta e preciso dividir mistérios. incertos, os marimbondos vazios me arrastam pela tarde. o mel da manhã,fel em mim, entope minhas veias. quando os solavancos da palavra vão redimir meu corpo? quanto de mim é fogo e terra? sobram o hiato das pontes,os rios degenerados. minha manhã dura só faz o recomeço das coisas. (para Renata)
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"o estado da manhã é uma ausência a impetrar as cores mais cruéis. a pútrida face do mundo, inexistência, revela estradas, musas e corcéis. tamanhas dores, machucado o corpo, somente nasce das cinzas ao invés. instantes tão medonhos jazem torpes, a revelar o mundo de través. soltos e matas, fuzis enigmáticos apertam balas sobre o santo pátrio e o que sobra é um sertão calado que feito mar, estreita sobre a terra o santo guerrilheiro, conselheiro, berra na forma eterna de um tufão armado." ( guerrilheiro, berra)
~~~ PER AUGUSTO & MACHINA
UMA POÉTICA IMPLACÁVEL Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. Com a coragem dos que querem aquela lucidez, não trapaceia com a realidade. O esforço é para fazê-la emergir com uma contundência de aríete, augusto e máquina. Eis os polos do confronto e a procura deste livro surpreendente em sua dicção poética. Um corpo que sofre e uma alma que sonha um sonho em que nada permanece passivo – o que equivale a dizer sem interpretação e concreção em linguagem, território das transmutações. Como se o inconsciente se insurgisse e, chegando à flor da consciência, tentasse exibir “a matéria de que são feitos os sonhos” (Shakespeare). Desde o título, Per Augusto & Machina, o poeta des-capitaliza os vocábulos, quer rendê-los, observá-los e indagá-los sem mistificação, des-convencionando o arbitrário da língua. Por augusto e sua máquina, em favor de uma realidade mais real, em favor do homem-augusto, que assim grafado, adjetivado, nos remete a um ser humano restaurado à sua dignidade.Ler mais... Maria da Conceição Paranhos
Romério Rômulo nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP.
Prefaciou a primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, “O Elixir do Pajé” (Dubolso, 1988), mais de 100 anos depois da edição original.
Já publicou diversos livros, como “Só pedras no caminho pedras pedras só pedras nada mais” (Lemi, BH, 1979), “Anjo Tardio” (Edição do Autor, Ouro Preto, 1983), “Bené para Flauta e Murilo” (Edições Dubolso, Sabará, 1990), a caixa “Tempo Quando” (contendo 4 livros em 2 volumes, Dubolso, 1996)e Matéria Bruta” (Altana, SP, 2006).
Seu último livro é "Per Augusto e Machina" (Altana, SP, 2009).
Actualmente, prepara um livro de poemas sobre o amor.
ROMÉRIO RÓMULO AGRADECE AOS AMIGOS meg:
deixo aqui o meu grande abraço a todos os que leram os meus poemas e, em especial, deixaram comentários. tenho a maior satisfação em estar neste espaço. um beijo.

19 de outubro de 2009

Palavreado político

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Não, não é nenhum autor português!
Eles, os políticos, são todos iguais ou isto é só uma coincidência...??? .
"Quando me falam em limitação de mandatos, costumo responder que os únicos mandatos que gostaria de limitar aos políticos são os mandados para falar. Têm uma linguagem própria que me irrita. E até compreendo que seja necessário que falem assim porque sei como é importante que, enquanto falam, não se dê a infeliz eventualidade de dizerem mesmo algumacoisa De acordo com os próprios políticos, eles não "dizem coisas", "referem-nas"... Quando não "referem", "sugerem": "o senhor presidente sugeriu-me que, tal como referi ontem..."Às vezes em vez de "referirem" ou "sugerirem, "esclarecem" ou "chamam a atenção". "O senhor presidente esclareceu-me eu relação ao seu projecto e chamou a atenção para o facto de não ter ainda delineado a sua posição." Os políticos não "decidem" nada. Em vez disso, "delineiam posições". Ou então "avaliam". Isto já é mais sério: "logo que esteja concluída a investigação, avaliarei os factos e delinearei a minha posição em conformidade. Ainda não tomei uma decisão. Mas quando tal acontecer, é óbvio que o sr. presidente será informado". Não "dizem", "informam. Não "respondem", "esclarecem". Não "lêem", "consultam". Não "formam opinião", "delineiam posições". E não "aconselham", "fazem recomendações". " ... E assim, depois de terem "avaliado" as "posições" uns dos outros, depois de se terem "consultado" e "esclarecido" mútuamente, começam a aproximar-se da possibilidade aterradora de terem de fazer alguma coisa... Mas em vez de "fazer alguma coisa", preferem "delinear estratégias": Estamos a delinear estratégias e pretendemos em breve tomar medidas". Esta é uma actividade muito importante nos círculos políticos:" tomar medidas". Mas já devem ter reparado que, quando "tomam medidas", também é frequente não se ficarem por aí e "fazerem progressos". Fazer progressos é outra actividade importante. "Estamos a fazer progressos relativamente à situação na Segurança Social". "Relativamente" é um palavrão que faz as coisas soarem mais importantes e complicadas. Não estão a "fazer progressos" na Segurança Social, estão a "fazer progressos relativamente" à Segurança Social. Mas, ao menos, estão a fazer "progressos". ... Por vezes, quando não estão a "fazer progressos", estão a "avançar com o processo". "Estamos a avançar com o processo para que possamos implementar as alíneas desta iniciativa". "Implementar" quer dizer "pôr em prática" e "iniciativa" é mais ou menos o mesmo que "proposta". Não é bem uma "medida mas existem possibilidades de se transformar numa "resolução". Pode haver quem pergunte "porque precisamos nós de tantas iniciativas, propostas, medidas e resoluções"? Bom... a resposta deve ser óbvia. Precisamos disto tudo para enfrentarmos os desafios que nos são colocados". Como já devem ter reparado, o país em que vivemos deixou de ter problemas. Em vez disso, enfrenta "desafios". Estamos sempre a enfrentar "desafios". E é por isso que precisamos de gente que consiga "tomar as medidas necessárias". Medidas necessárias como: "Quanto dinheiro é que consigo recolher em troca da minha integridade para ser reeleito e continuar a ter emprego no governo?" George Carlin in, "Quando é Que Jesus Traz as Costeletas"
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George Carlin, 1937-2008
Vencedor de um Grammy Award, Carlin ficou conhecido pelo seus exageros na vida e no palco. Com um humor contundente onde expunha as contradições da sociedade com uma irreverência avassaladora, Carlin é uma das maiores influências para as novas gerações de comediantes de stand-up. São vários os apontamentos de George Carlin relacionados com a critica religiosa e política. Nestes apontamentos - como em todos os outros - o comediante não se limitava a fazer-nos rir: obrigava-nos a pensar.
Esse, talvez fosse o seu grande mérito.
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14 de outubro de 2009

E não é verdade???

. . . Eu sei, mas não devia...
Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita seus mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e a ver comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colassanti
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8 de outubro de 2009

Que trevas são estas?

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Aos Que Virão a Nascer É verdade, vivo em tempo de trevas! insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa Revela insensibilidade. Os que riem Riem porque ainda não receberam A terrivel notícia. Que tempos são estes, em que Uma conversa sobre árvores é quase um crime Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade? Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua, Não estará já disponivel para os amigos Em apuros? É verdade: ainda ganho o meu sustento. Mas acreditem: é puro acaso. Nada Do que eu faço me dá o direito de comer bem. Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.) Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens! Mas como posso eu comer e beber quando Roubo ao faminto o que como e O meu copo de água falta a quem morre de sede? E apesar disso como e bebo.
Também eu gostava de ter sabedoria. Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio: Retirar-se das querelas do mundo e passar Este breve tempo sem medo. E também viver sem violência Pagar o mal com o bem Não realizar os desejos, mas esquecê-los Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer! É verdade, vivo em tempo de trevas!
Bertolt Brecht
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3 de outubro de 2009

Acontece...

. . Sem mais palavras... .
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Tereza Horta
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