14 de outubro de 2009

E não é verdade???

. . . Eu sei, mas não devia...
Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita seus mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e a ver comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colassanti
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35 comentários:

romério rômulo disse...

meg:
sou o primeiro a se apresentar.
um beijo.
romério

O Puma disse...

É verdade

o povo anda distraído

sempre a colocar a raposa

no seu próprio galinheiro

EDUARDO POISL disse...

Vim pedir desculpa pela minha ausência no teu blogger mais como havia um feriado e trabalho com turismo ficou difícil, mais agora com um pouco menos de trabalho volto a normalidade.

"O que diferencia uma pessoa de outra é o seu imaginário, a interpretação que dá aos fatos da vida." (Tisuka Yamasaki)
Abraços com muito carinho

Meg disse...

Romério,

Um amigo sempre, sempre atento!
Obrigada.

Um beijo para ti

Meg disse...

Puma,

Sabes que também tenho a mesma opinião!
Porque a gente se acostuma tudo, como diz o poema.

Quando acordaremos?

Um abraço

Meg disse...

Eduardo,

Desculpa de quê? Também eu trabalho em Turismo e estive quase ausente daqui...
Mas a gente sempre se encontra.

Um abraço

Filoxera disse...

Ainda não cheguei à fase de me acostumar.
Sou muito inventiva e reactiva.
Um beijo.

Nydia Bonetti disse...

Isto é terrível... mas é a pura verdade. beijo, Meg.

commonsense disse...

Meg: A gente não pode continuar a se acostumar.

Meg disse...

Filoxera,

Somos umas felizardas, porque eu também não me acostumo... ou pensas que sou recalcitrante por acaso?

Um beijo para ti

Meg disse...

Nydia,

Por que é que os poetas têm esta capacidade de nos confrontarem com a nossa própria e inconsciente realidade?
E é terrível, a verdade!

Beijinho

Meg disse...

Commonsense,

Meu caro, não só nos acostumámos como nos acomodámos.
E não vejo como remar contra a maré. Francamente.

Um abraço

Menina do Rio disse...

Eu já havia lido esse texto. Ele nos leva a pensar no quanto nos acomodamos ao longo dos anos com as situações e o quanto deixamos de viver.

Beijo pra ti, querida

Paulo Vilmar disse...

Meg!
E, tristemente, assim vamos vivendo, não sei se foi de propósito, mas notastes como o texto da Marina parece complementar o poema de Brecht?
Beijos!

São disse...

Fujamos da habituação. A sete pés, de preferência.

Abraço, amiga.

Peter disse...

Que texto interessante!

«A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.»

Onde o foste buscar? Parabéns por o teres publicado.

PS- Publiquei "resposta à resposta de Maitê Proença" postado em SEDRUL pelo brasileiro Zé Bento.
O "vbm" já deixou de fazer parte do n/blogue, somos só eu e a "bluegift", por isso me demarco dos seus polémicos comentários.

AFRICA EM POESIA disse...

Meg


também vim a correr pois é tarde e amanhã tenho que estar na escola.e...cheia de gripe.
Foi bom termo-nos cruzado.O seu olhar deixou-me fascinada . sei que vamos parar para partilhar Africa e não só.
Para já ...
Um beijinho

Carminda Pinho disse...

Acostumar é proíbido.
Um povo que se acostuma, é um povo triste e sem horizontes...

Olá Meg! Há quanto tempo...:)

Beijos

utopia das palavras disse...

É...é verdade sim!!!!
Temos todos consciência disso...mas eu tento remar contra a maré (um bocadinho)!

Genial o texto!

beijo Meg

Meg disse...

Verónica,

É um belíssimo texto, e que nos faz pensar no que andamos por cá a fazer.
Porque também nos habituámos a acostumámos a não pensar.

Um bom fim de semana para ti.
Um beijo

Meg disse...

Paulo,

Acertaste, a publicação deste texto não foi inocente.
Foi uma sequência e é uma realidade, meu amigo,

Bom fim de semana

Um abraço

Meg disse...

São,

Mas só pode fugir quem estiver desperto, e muitas vezes não estamos, minha amiga.
Continua a ser preciso ler textos como este.

Um bom fim de semana,

Beijinho

Meg disse...

Peter,

Ainda bem que gostaste... dá para fazer uma boa reflexão sobre o que fazemos da vida... de nós.

Fui ver tudo e gostei. Mais uma prova de quem o movimento foi geral.Que não te doam as mãos.

Bom fim de semana

Um abraço

Meg disse...

ÁFRICA EM POESIA,

Lili, assim espero...

Obrigada pela visita e cuidado com a gripe...as tuas melhoras.

Bom fim de semana para ti também,

Um beijo

Meg disse...

Carminda,

Aleluia!
ahahahaha!!!
Quem se está a costumar à boa vida sou eu...
ESTOU DE FÉRIAS, portanto noctívaga, se me entendes.

Um bom fim de semana para ti

Beijinho

Meg disse...

Utopia das Palavras

Ausenda,

Só que a maré às vezes é tão forte, que nos esquecemos de nós.

Um bom fim de semana,

Beijinho

O Guardião disse...

Somos "um bicho" de hábitos, mas por vezes quebrar a rotina, descobrir coisas novas, mudar umas coisas, dá um enorme prazer e faz-nos pensar que com um empurrãozinho as coisas podem melhorar e nós podemos "crescer".
Cumps

Adolfo Payés disse...

Un gusto inmenso conocer tu blog.. es maravilloso..

Te sigo para poder leerte con mas frecuencia..


Un abrazo
Con el saludos fraternos de siempre

Que tengas una buen fin de semana...

Meg disse...

Guardião,

É verdade, somos de hábitos, e muitas vezes, de tal maneira nos acomodamos que nem nos apercebemos que o tempo está a passar.
Seja este texto um pequeno empurrão...

Um abraço

Meg disse...

Adolfo Payés

Bem-vindo a este espaço, onde espero recebê-lo mais vezes.
Muito obrigada pelas tuas palavras.
Retribuirei a visita com todo o prazer.
Um bom fim de semana para ti também.

Um abraço

zef disse...

Meg, ando atrasado...Mas estou a ler isto com muita atenção
Beijos

Vanda Mª Madail Rafeiro disse...

"Acostumar-se" deveria ser proibido...
Leva-nos a perder muita coisa, em qualquer aspecto da vida... por isso tento não me acostumar...
Belo texto!

Meg disse...

Zef,

Atrasado?
Aqui nunca chegas atrasado, meu amigo.
E como me honras com a tua visita!
Tu sabes que sim.

Beijo

Meg disse...

Vanda,

Tens razão em não te quereres acostumar, mar às vezes a vida parece que nos anestesia...e precisamos de ser acordados para ela.

Um beijo

padeirinha disse...

Os hábitos são perigosos mas existem.Podem equilibrar ou asfixiar.