29 de novembro de 2008

Metamorfose

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Jacarandás
METAMORFOSE
ao poeta José Craveirinha
quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade
os jacarandás explodiam na alegria secreta
de serem vagens e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa
a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e a metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não
e a sete de Março chama-se Junho desde um dia de há muito
com meia dúzia de satanhocos moçambicanos
todos poetas gizando a natureza e o chão no parnaso das
balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa
a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim
percutem outros tendões de memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos
e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
Aos Gritos
Luis Carlos Patraquim (in "Monção", Maputo/Lisboa, 1981)
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Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, em 1953.
Colaborador do jornal A Voz de Moçambique, refugia-se na Suécia em 1973. Regressa ao país em Janeiro de 1975 integrando os quadros do jornal A Tribuna.
Membro do núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e do Instituto Nacional de Cinema (INC) onde se mantém, de 1977 a 1986, como roteirista/argumentista e redator principal do jornal cinematográfico Kuxa Kanema.
Criador e coordenador da Gazeta de Artes e Letras (1984/86) da revista Tempo. Desde 1986 residente em Portugal, colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, em roteiros para cinema e escreve para teatro. Foi consultor para a Lusofonia do programa Acontece, de Carlos Pinto Coelho e é comentarista na RDP-África.
Publicou Monção (1980); A inadiável viagem (1985); Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora (1992); Mariscando luas (1992), em parceria com Chichorro e Ana Mafalda Leite; Lidemburgo Blues (1997) e O osso côncavo, 2005.
Foi distinguido com o Prêmio Nacional de Poesia, Moçambique, em 1995
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25 de novembro de 2008

Mas que sei eu

. . . Porque no meu íntimo irrompeu um Outono, escuro, frio...
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. Porque me sinto como as folhas arrastadas

por um vento particularmente agreste...
. Apetece-me este poema.... .
. Porque estou triste... . .


Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo

21 de novembro de 2008

Fome

 
 
Fome: Agora e Sempre
 
Fome aqui agora e permanente
Continua em muitos continentes
Milhões vão dormir de estômago vazio
Outros tantos de maletas estão contentes
Com o dinheiro da corrupção.
 
Fome em toda a parte e em todas as gentes:
Clamando com fome de justiça
Que os humanos construíram postiça
E que explora o numerário,
As licitações o povo livre e sem salário.
Fome aqui e agora, a mil á hora
Ou a passo de caracol.
 
Há fome de todo o tipo. De mandatos,
Fome de cães e gatos e executivos
A fome de justiça des.engana os incautos,
Priva os justos, e os explora vivos,
Também depois de mortos muitos
Também pagam para ter um lugar no céu.
 
A fome persiste. Quem a pode saciar?
A ciência, ou a história?
 
A ciência por vezes tornou-se fraude
E a história, nos milénios tornou-se inglória!
Fome da verdade, poucos a sentem!
Os humanos sentem a fome que os explora
Embrutece, que perdura e os devora.
 
José Valgode
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José Valgode nasceu na Vila de Santa Cruz da Trapa (S. Pedro do Sul) em 30 de Agosto de 1947. Começou a escrever os primeiros versos aos 9 anos de idade, quando ainda frequentava a Escola Primária. Com dezasseis anos foi para Lisboa. Foi aqui que conheceu muitos dos grandes Poetas Portugueses da época, muitos deles já falecidos. Em Abril de 1969 embarcou para Timor, onde permaneceu até Junho de 1971, período de quase 3 anos durante o qual escreveu muitos dos seus poemas. Em Timor colaborou no jornal “Província de Timor” e declamava Poesia entre seus camaradas de então. Colaborou em diversos outros jornais da época com sua Poesia e com artigos de Opinião. Alguns dos seus poemas estão em vários jornais virtuais, como no “Jornalecos”.
José Valgode reside na Alemanha desde 1972. Colabora actualmente em muitos jornais Portugueses, entre os quais o único jornal português publicado na Alemanha, o “ Portugal Post”. Tem cinco livros publicados, entre os quais quatro com a recolha dos cinquenta anos em que escreveu poesia. . . . .

16 de novembro de 2008

Vestia um Vestido de Bailarino

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Paris through the window, 1913-Chagal
Vestia um Vestido de Bailarino
Vestia um vestido de bailarino quando, logo ao segundo dia, trocando cêdês e livros de poesia, me declarou a sua amizade.
Passávamos tardes inteiras a discutir fantasmas, asmas,
histórias da infância e coisas da beleza grega e pós-moderna.
Dou graças por viver em tempos de correio electrónico, arrumo
tudo nas pastas e depois não há provas. Nunca mais se sentirá
o cheiro do fogo queimado, as folhas negras, o prazer do fósforo.
Num rápido gesto tudo para sempre apagado e a minha memória.
dura o tempo de uma tecla, nem de versos se vai lembrar.
Mas quando o amigo, enfim, cansado de eu não lhe ligar, decide
pôr tudo em pratos limpos, eu coro de vergonha porque
amizade para mim não tem de ser ir para a cama. Isto que toda a gente
sabe fora dos poemas faz tremer a minha mão pelo lado do vulgar.
Andaste por beja, braga, bordéus e alexandria a engatar marinheiros
e eu aqui, gostando de ti, com saudades de ti, mandando-te dinheiro.
Uma vez por outra ia também um poema, daqueles ambíguos
que tu nuncas percebias. Toma cuidado, não apanhes sida.
Quando recebi a notícia da tua morte vi-me culpado por não ser
da tua onda, meti-me no avião e, tal como tínhamos combinado,
vesti-te a rigor e pus-te brilhantina, um livro em branco e uma caneta.
Quem sabe se na morte não terei tempo para ser escritor. .
. Helder Moura Pereira
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"Lágrima"
Assírio & Alvim, 2002
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11 de novembro de 2008

Tempo Fluvial

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Tkachev Alexei , Sergey Alexei «Summer», 1991

Tempo Fluvial
Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês


o livro, como se o tempo tivesse parado
. e o rio não corresse pelos teus olhos.
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Nuno Júdice
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[Imagem retirada de "Em gestão corrente ...como o País..."] . . .
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6 de novembro de 2008

Quando te vi ...

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Tomando Chá, de Henrique Medina



Quando te vi senti um puro tremor de primavera

e a voluptuosa brancura de um perfume

No meu sangue vogavam levemente


anémonas estrelas barcarolas

O silêncio que te envolvia era um grande disco branco

e o teu rosto solar tinha a bondade de um barco

e a pureza do trigo e de suaves açucenas

Quando descobri o teu seio de luminosa lua

e vi o teu ventre largamente branco

senti que nunca tinha beijado a claridade da terra

nem acariciara jamais uma guitarra redonda

Quando toquei a trémula andorinha do teu sexo

a adolescência do mundo foi um relâmpago no meu corpo

E quando me deitei a teu lado foi como se todo o universo

se tornasse numa voluptuosa arca de veludo

Tão lentamente pura e suavemente sumptuosa

foi a tua entrega que eu renasci inteiro como um anjo do sol
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.António Ramos Rosa,
in "O teu rosto", 1994
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2 de novembro de 2008

Setembro

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Red vineyards, Vincent van Gogh

Vincent van Gogh, Autumn Landscape with Four Trees
Setembro agora o outono chega, nos seus plácidos meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa um cabaz de maçãs por sobre a vedação: redondas, verdes, o seu perfume vai dentro de quinze dias ser mais forte. a noite cai mais cedo e apetece guardar certos vermelhos da folhagem e amarelos e castanhos nas ladeiras de setembro. a rádio fala no tempo variável que vem aí dentro de dias. talvez caia uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas. aproveita-se o outono no macio enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo. devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele. Vasco Graça Moura
in "Poesia 2001/2005", Quetzal Editores, 2006
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