11 de janeiro de 2009

Companheiros

Meus amigos...
Vou estar ausente durante algum tempo...
estou a mudar de casa e enquanto não tiver net no novo apartamento,
não poderei acompanhar-vos.
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Espero que esta pausa seja breve - poucas semanas -
e que não me esqueçam!
Um abraço para todos
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Meg
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Deixo-vos com Mia Couto
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Companheiros
quero escrever-me de homens quero calçar-me de terra quero ser a estrada marinha que prossegue depois do último caminho e quando ficar sem mim não terei escrito senão por vós irmãos de um sonho por vós que não sereis derrotados deixo a paciência dos rios a idade dos livros mas não lego mapa nem bússola porque andei sempre sobre meus pés e doeu-me às vezes viver hei-de inventar um verso que vos faça justiça por ora basta-me o arco-íris em que vos sonho basta-me saber que morreis demasiado por viverdes de menos mas que permaneceis sem preço companheiros .
. Mia Couto . . . «««««o»»»»» . . .

7 de janeiro de 2009

Como uma espada fresca

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Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso. Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda
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«««o»»»
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2 de janeiro de 2009

Elogio da Dialéctica


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Acabamos de entrar num novo ano, mas... apesar dos discursos,
convém que não nos esqueçamos
e que não deixemos de reflectir...
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A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são!
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca!
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga?
De nós.
De quem depende que ela acabe?
Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, como pode calar-se?
E o nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
[Bertold Brecht]