5 de março de 2010

Uma voz na pedra...

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Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



António Ramos Rosa
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32 comentários:

Maria disse...

Belíssimo!
Estes dias cinzentos e de chuva apelam à leitura de poesia, eu acho. E é bom estarmos com uma musiquinha de fundo e ler.TE.

Beijo, Meg, deste lado nosso

Mar Arável disse...

Incendiar o silêncio

Só podia ser do António

Bjs tantos

cid simoes disse...

Sou a génese da Liberdade...

O Guardião disse...

Um autor que admiro e que já tive a oportunidade de ler quando andei a cuscar a Seara Nova.
Cumps

Pata Negra disse...

É possível ter um blogue sem escrever uma palavra.
É possível ser poeta sem escrever um verso.
É possível ser aberto ou fechado por uma palavra.
Este blogue é um poemanário, um poédromo, um poelógico... como se chama aos locais que guardam muitos poemas e com potencial para guardar todos os poemas?
Guarda-me Meg um poema meu
Mesmo que nao tenha métrica, nem ritmo, nem rima, nem poesia.
Guarda-me, por favor, Meg uma poema meu.
Mesmo que eu nunca o tenha escrito.
Guarda-me Meg, todos os poemas que eu senti e sinto.
Chama-me, poetisa de quem não conheço um único poema, chama-me poeta.
Declaro-te que sou capaz de chorar por ver chover e sou capaz de rir só por estar sol.
Guarda-me Meg! Inclina-me um chapéu que me livre da chuva e sopra-me no chapéu que me tira o sol.
Tiro-te o chapéu! Tira-me o chapéu! Tombemos todos os chapéus! Fiquemos nus! Oh meu Deus! Pró que me deu hoje! Este Ramos Rosa é vinho, é droga, não é nada! É homem de palavras e eu nem sequer sou homem de palavra! Prefiro o palavrão! Foda-se que o comentário já vai longo.
Meg ampara-me um poema!
Meg - Tu tás bem ó Pata Negra?!
Pata Negra - Meg, vou para a cama!

Deixava beijos mas os beijos tornam pegajosos os poemas

Ana Tapadas disse...

Por vezes ignorado, oculto, Ramos Rosa é um poeta genial! Este poema, em particular, é extraordinário!
beijinho e bom fim-de-semana

Zélia Maria Matos disse...

Muito bom!

:)))

Filoxera disse...

Uma palavra como chave.
Bonito.
Beijos.

Meg disse...

Maria,

A vida não pode ser feita só de tragédias. E a poesia dá uma ajuda preciosa. A boa música também, claro!
Bom fim de semana.

Beijinho de cá

Meg disse...

Mar arável,

Incendeia e pulveriza o silêncio, acrescento eu.

Outros tantos...

Meg disse...

Meu caro Cid,

Sou a liberdade límpida de um rio silencioso que nasce...

E era.

Um bom fim de semana

Um abraço

Meg disse...

Guardião,

Belas memórias de um dos nossos grandes Poetas, meu amigo.

Um abraço

Meg disse...

Pata Neeeeeegra!

Mas este teu comentário é digno de um post.
Guardo tudo, guardo-te a ti, aos teus poemas, com ou sem palavras, (ou palavrões), com ou sem métrica - para que a quero, se te adoro, poeta dos meus????

Um abraço carregado de poesia.

Meg disse...

Ana,

Ramos Rosa tem sido uma presença regular neste blog... sou sua fã incondicional.
De todos os poemas, de tudo o que escreveu. É um presente meu para os amigos que frequentam este espaço.

Bom fim de semana, Ana!

Beijinhos

Meg disse...

Zélia,

Seja muito bem vinda.
Obrigada pelo seu comentáro... só tenho pena que não tenha deixado "rasto" para eu poder retribuir a visita.

Um abraço

Meg disse...

Filoxera,

É assim com o Ramos Rosa, minha amiga!

Um bom fim de semana.

Beijos

Sofá Amarelo disse...

As palavras - algumas palavras - têm o dom de abrir alguém e só elas podem incendiar o silêncio...

Nydia Bonetti disse...

Ai, ai... Meg. Este poema é demais. E este último verso é de fazer suspirar. :) Boa semana! Beijooos

JPD disse...

Este é um dos poemas magníficos de ARR.
Excelente ilustração.


Parabéns pela excelente edição.

Silvana Nunes .'. disse...

Belo momento. Parabéns !
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa semana para você.
Saudações Florestais !

O Guardião disse...

Neste Dia da Mulher uma saudação especial.
Cumps

Meg disse...

Sofá Amarelo,

Mas nem sempre são fáceis de encontrar. As palavras que incendeiam o silêncio.

Beijo

Meg disse...

Nydia,

É demais o poema, é demais o Poeta, minha amiga!

Um beijo, Nydia!

Meg disse...

Caro JPD,

É só um dos muitoo belos poemas do Ramos Rosa.
Obrigada pela referência à ilustração... é bom sentir que ela "tocou" alguém.

Um abraço

Meg disse...

Silvana,

Bem vinda ao Recalcitrante, e obrigada pelas suas palavras.
Espero que se sinta bem por cá e que volte sempre que gostar.

Beijo para si

Meg disse...

Guardião,

Com uma mudança de casa pelo meio, quase me não apercebi do Dia da Mulher.
Mas fiquei muito feliz com a tua carinhosa saudação. Bem hajas, meu amigo!

Um beijo

São disse...

Não aprecio particularmente Ramos Rosa, mas foi uma boa escolha este poema.

Um abraço.

Anónimo disse...

Azul da presença...etérea.

padeirinha disse...

O anónimo: sou eu.

Meg disse...

São,

Apesar de não seres uma admiradora de Ramos Rosa, aqui deixaste o teu comentário, que agradeço com o mesmo carinho. Não temos de ser
unânimes nas nossas preferências, minha amiga.

Um beijinho para ti

Meg disse...

Padeirinha,

Esclarecido o Anónimo, o meu obrigada pela... "presença".

Um beijo

mar disse...

MAGNIFICO!
O que despertou os meus sentidos foi a Ilustração, no entanto foi o poema que tocou a minha alma.
Quisera eu encontrar as palavras que " abram " ALGUÈM ou as que incendeiam o silêncio...