10 de março de 2010

A FOME, de José Pádua

A Fome, de José Pádua



Em plena mudança de casa - mais uma vez...
entre livros e outras "coisitas" que me vão  acompanhando ao longo da vida...
encontrei umas serigrafias de José Pádua, um pintor moçambicano que conheci nos anos 70 na Beira... em Moçambique, claro!


Não sendo muito divulgado, resolvi deixar-vos aqui (mais uma vez) um brevíssimo, mas caloroso, testemunho da sua obra.


....E este olhar de MIA COUTO sobre a obra de José Pádua



"A pincelada breve, magra, sugerindo apenas a forma e indicando a cor.



Isso eu busco nos quadros de Pádua.


Como procuro na poesia que vive apenas de essência, depurada de excesso, sacudida de artifícios.

Eu leio a pintura de Pádua como quem olha palavras e as vê voláteis, escapando do território da página.






E me pergunto que arte é essa que não será o preencher de formas o vazio, mas o exacto oposto.



Como se houvesse um desenho inicial, uma tela cheia de formas e traços e ele, em lugar de pintar, raspasse, em vez de acrescentar, apagasse, ao invés de rendilhar, simplificasse.


Até a forma ficar assim, leve e fugaz, e
pedisse ao papel não o suporte de
fixação mas um movimento, um impulso de asa.





Nas linhas do pintor moram lugares da minha infância, os subúrbios dessa meninice, a Munhava, os meninos brincando com arcos, os pescadores esguios, as mulheres carregando água como se elas e o cântaro fossem um único desenho.


E um rio que poderia ter o nome de Púngè.
Mas que se chama tempo e vai escrevendo em nós uma caligrafia que é a saudade do tempo em que a vida não doía.


Como se a vida fosse uma tela onde a mão divina do pintor salvasse do branco esse inacabado desenho que nós somos."
 Mia Couto

~~~~o~~~~


O artista plástico José Pádua nasceu na Cidade da Beira, em 1934, e reside em Lisboa desde 1977.
Foi eleito Artista Plástico do Ano em 1966 pelo Jornal A Tribuna, de Moçambique, pelo seu trabalho enquanto pintor, decorador, ilustrador e gravador.
Entre 1974 e 1978 trabalhou exclusivamente para a Galeria de Arte R. Rennie, Harare, Zimbabwe.
De 1979 a 1981 foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, frequentando cursos de gravura em metal e de litografia.
Em 1980 e 1981 foi distinguido com os 2º e 1º prémios, respectivamente, em exposições sobre temas de Lisboa. Em 2002 publicou o livro O Fascínio de Moçambique. Tem também trabalhos nos domínios da
escultura e azulejaria, bem como murais em cimento.Entre 1962 e 2003 realizou mais de trinta exposições individuais em Moçambique, Portugal, Zimbabwe, África do Sul e Suécia.
Além de ter participado em inúmeras exposições colectivas faz parte do grupo A Tertúlia de Artistas de Moçambique que expõe todos os anos, desde 1984, em vários países do mundo.
Está representado em inúmeras colecções particulares em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente na África do Sul, Zimbabwe, Malawi, Moçambique, Angola, Espanha, Suécia, Áustria, Brasil, Venezuela, EUA, Canadá, Israel, Japão e Austrália.

[F.Ferreira Mendes]

21 comentários:

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Belíssimo... :)

Maria disse...

Hoje não tenho palavras...

Um beijo, sempre.

São disse...

Que interessante: tenho este desenho para o utilizar num dos meus blogues...

Agradeço-te a informação acerca do pintor.

Bem hajas!

Agulheta disse...

Meg. Belo como sempre,as poesias que aqui colocas,sendo de Mia Couto... melhor e a chamada de atenção para algumas coisas actuais,as sirigrafias lindas. Vais mudar de casa! penso que foi isto que li.
Beijinho e tudo de bom Lisa

Meg disse...

Francisco,

Muito obrigada, pela visita e seja bem vindo a este espaço, sempre aberto para os amigos.

Um abraço

Meg disse...

Maria,

Com ou sem palavras, a tua presença é sempre uma prova de amizade, minha amiga.
O meu carinho para ti.

Beijinho do lado de cá.

Meg disse...

São,

Este desenho do Zé Pádua, é, para mim, uma ignorante destas coisas, um dos mais bonitos.
Sinto-o copmo se tivesse vida.
E se eu gosto dos trabalhos dele!

Beijinho para ti.

Meg disse...

Lisa,

José Padua é muito admirado pelas gentes de Moçambique, e Mia é um dos sérios divulgadores da sua obra.
Por isso não resisti a colocar aqui este comentário à pintura de Pádua.

Beijinho

Pata Negra disse...

Quando dois obreiros juntam as suas obras sai um "obrana".
Um abraço com um grande amigo a viver na Beira desde os 60

Maria João disse...

É sempre um prazer, passar por aqui. Neste espaço, do qual cuidas com tanto carinho, levo sempre conhecimento novo. Algo extraordinário!

Obrigada, pela divulgação. Vou mais enriquecida...

José Augusto Nozes Pires disse...

Não conhecia o José Pádua. Bem hajas por no-lo dar a ver.

JPD disse...

Excelente
EXCELENTE!

Bjs

Meg disse...

Pata Negra,

Quém é que esteve a viver na Beira nos anos 60? Nessa altura estava eu em Lourenço Marques...
E esta, hein?????
Quero saber tudo, tudinho...

Um grande abraço

Meg disse...

Maria João,

Sempre carinhosas as tuas palavras.
Só gosto de partilhar o pouco que sei com as pessoas de quem gosto, minha amiga.
Se eles gostam, fico muito feliz.

Beijinho

Meg disse...

Zé,

Não é muito conhecido por cá, é verdade, mas eu sou uma apreciadora da sua pintura.
É a segunda vez que o trago ao blog.

Um beijo

Meg disse...

Caro JPD,

Fico feliz por ter gostado.

Um abraço

Ana Tapadas disse...

Obrigada, Meg!
As serigrafias são óptimas e o texto de Mia Couto um fascínio de interpretação.
Beijinho

Zé Povinho disse...

Um machangano como eu, que conheci nas bancadas do SLB onde assistia a jogos de hóquei em patins, era eu um muana. O pai era um excelente jogador de damas que teve a paciência de me ensinar.
Abraço do Zé

Mar Arável disse...

Boa memória

tão próxima e gratificante

duarte disse...

belo.
são de pinceladas vadias
buscando movimentos por acontecer.
gostei.
abraço do vale

O Guardião disse...

Dois notáveis nascidos para as bandas do Chiveve, onde também eu nasci, bem como 2 dos meus filhos.
Cumps