8 de novembro de 2010

Democracia

Republicação... porque sim!!!

Ema Berta
 

Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incensoe
haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»


Nuno Júdice
A Matéria do Poemas, Dom Quixote, 2008, p. 45

22 comentários:

jrd disse...

A Democracia pode estar em coma vigil à espera de um poema (chamemos-lhe assim)que a desperte...

Ana Tapadas disse...

Nuno Júdice, já te disse que o adoro...
Eu precisava ler este texto para perceber que devo parar de trabalhar agora.
Beijo

Zé Povinho disse...

A pobre democracia que temos, retratada em poema.
Abraço do Zé

São disse...

Fizeste bem e republicar. Primeiro, porque eu desconhecia o poema;segundo, porque , de facto, a Democracia se encontra nas vascas da agonia...o que muito me preocupa.

Um abraço.

Sofá Amarelo disse...

Fotografei Nuno Júdice há poucos dias, foi uma dádiva poder deparar com quem sabe desenhar com palavras os contornos da alma>!

Luisa disse...

Extraordinários este texto e imagem!

Será que a democracia acordará????

Também um grande obrigada pelos parabéns que deixaste no nosso blog.

JPD disse...

Sou um incondicional apreciador da poesia do Nuno Júdice.
Escreve maravilhosamente.

A tua escolha vem muito a propósito dos tempos que correm.
Há uma crise de representação na Europa e em Portugal.
Receio que tudo acabe mal.
Bjs

O Guardião disse...

Democracia embalsamada, mas já com um cheiro pútrido.
Cumps

Mar Arável disse...

Sempre preferível

a morrer saudável

mdsol disse...

Bem escolhido Meg.

Beijinho

:)))

Pata Negra disse...

Só não há democracia porque o povo não a exige. Este facto em si, é perverso mas é a democracia!....
Aceitemos democraticamente que o povo não quer a democracia!
Que a democracia conte apenas para ocupar a poesia!
Um abraço poeta desempregado

Meg disse...

Caro JRD,

O pior é se terá de ser acordada de forma pouco ortodoxa!

Um abraço

Meg disse...

Ana,

Somos duas... um motivo para o trazer aqui com uma certa assiduidade.
Não trabalhes demais!

Um beijo

Meg disse...

Zé,

É uma pena, náo é?
Quando tudo o que quer é... um cigarro!

Um beijo

Meg disse...

São,

Olha o que fizeram - ou fizemos - à democracia!

É não só um poema do Nuno Júdice como um retrato da nossa realidade.

Um beijinho para ti

Meg disse...

Sofá Amarelo,

Deve ser um privilégio privar com uma pessoa como ele!
Considero-o um dos nossos melhores poetas contemporâneos.

Um beijo

Meg disse...

Luisa,

Muito obrigada pela visita e pelas palavras.
Eu também acho esta pintura muito adequada a este poema.

Beijinho

Meg disse...

Caro JPD,

Os teus receios têm cada vez mais razão de ser.
O que estarão a preparar para a democracia?
Alguém, há bem pouco tempo, sugeria que se suspendesse a dita democracia... Será???

Um beijo

ps: li o que me recomendaste, e foi-me muito útil. Thanks!

Meg disse...

Guardião,

Embalsamada mas não seca, por isso o mau cheiro... está cheia de vermes...

Um beijo

Meg disse...

Mar Arável,

Já não tenho tanta certeza.

Um abraço

Meg disse...

Mdsol,

Está difícil... está difícil, minha amiga!

Um beijo

Meg disse...

Meu querido Pata Negra,

De que adianta querer muito uma coisa se não se faz nada para a obter?
Pois é, pelo que antevejo ainda vamos ter grandes surpresas...

Um abraço preocupado