15 de novembro de 2010

Em Abril Dilacerado

A papoila, óleo de Maria Azenha


em abril dilacerado
era uma vez uma voz
que habitava uma casa
e dentro desta casa
habitava uma menina sem voz
e dentro da menina
uma cidade sem janelas
e dentro da cidade
uma guitarra enorme

era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz

e tudo o que nos mata
a palavra cobre
e tudo o que nos move
a palavra ata

e todos os jardins
foram arrancados
por causa da memória
deste país tão pobre

era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz

e as lágrimas da menina
engoliram a cidade
em abril dilacerado
com arames em volta

Maria Azenha
[2003]

15 comentários:

jrd disse...

Um calendário sem Abril, é um calendário sem asas, sem norte,
sem casas, sem voz, sem tempo...

Zé Povinho disse...

Um país sem voz...
É uma pena que as vozes não se levantem em defesa da Justiça neste pobre país.
Abraço do Zé

São disse...

Parabéns a Maria Azenha e obrigada a ti por a teres colocado nas duas vertentes artísticas.


Portugal sem Abril é , de novo, Portugal perdido na infâmia e na exploração dos mais pobres.

Um abraço grande.

bettips disse...

Belo poema, pungente vermelho-poema.
Abril vive, viveu até clandestino.

Avec le temps...
sabes? temos saudades da esperança. Eu acho, eu tenho.
E já não há espaço para mais nada, só este fogacho que mantemos. Mas temos.
Bjinho

Ana Tapadas disse...

Enorme realidade...começando no título.
Bj

JPD disse...

Acho esta edição magnífica, Meg.

O poema é excepcional.
A ilustração está adequada e perfeita por encher o campo de cor e luz em contraponto à mensagem do poema a encorpar uma certa desilusão.

Bem hajas.
Bjs

Mar Arável disse...

entretanto

há cravos

que resistem

por amor

Meg disse...

Caro JRD

É verdade...
Mas sem tempo ando eu deste lado de cá, e disso me penitencio junto dos amigos.
Um abraço

Meg disse...

Zé Povinho,

Tu bem tentas gritar mas não está a ser fácil... ou a voz não é suficientemente forte... para defender a justiça e "limpar" a Justiça.

Beijo

Meg disse...

São,

A pobreza é um atentado que envergonha a humanidade em pleno séculoXXI... parece que voltámos à Idade Média.

Beijos para ti

Meg disse...

Querida Bettips,

Será que não temos todos (ou quase) saudades do futuro que pressentimos mas não fomos capazes de atingir?
Onde se perdeu esse futuro que nos é negado? Se eu soubesse!

Beijo, beijo, beijo!!!

Meg disse...

Ana,

E nada mais resta realmente que um Abril dilacerado, de que a Maria Azenha tão bem fala.

Beijo

Meg disse...

Caro JPD,
As tuas palavras são um incentivo para continua, numa altura em que o cansaço começa a agarrar-me, e a deixar-me com poucas forças para no pouco tempo que tenho, manter este espaço.
Pelos amigos, continuo a tentar vir aqui, ainda que - por motivos profissionais - mais espaçadamente.
Mas com um carinho redobrado para aqueles que mesmo assim, continuam a dar-me o grato prazer da sua presença, comentando ou não.
Esta é uma mensagem que deixo a TODOS
,
e a si particularmente.

Um beijo

Meg disse...

Mar Arável,

O meu receio é que os cravos se tenham esgotado na memória do tempo.

Um beijo

Anónimo disse...

Sempre que se vir um cravo
se pensará na nossa revolução.
E sem conta se contarão no futuro.
Fica, Meggy - é uma corrente imperdível, a que temos-aprendemos.
Bj da bettips