10 de janeiro de 2010

Perguntas à Língua Portuguesa - Mia Couto

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Com o Acordo Ortográfico na ordem do dia,
apeteceu-me republicar este saboroso texto de Mia Couto...

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"Venho brincar aqui no Português, a língua.
Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia.
Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.
Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações.
Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão.
Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações.
E é coisa que não se termina.

Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança.
É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente."

Mia Couto

30 comentários:

Fernando Vasconcelos disse...

Este texto do Mia Couto é simplesmente fantástico. Subscrevo a 100%. Na linha do texto abreijos experimentais.

Agulheta disse...

Querida Meg.Palavras para quê sobre Mia Couto,texto fantástico e muito real.
Beijinhos de amizade fica bem Lisa

Zé Povinho disse...

Jogar com as palavras, brincar com a mestiçagem do português é uma arte que o MIa vai revelando com frequência.
Abraço do Zé

Ana Tapadas disse...

Meg:
Fizeste muito bem! Conhecia o texto, mas vale a pena divulgá-lo.
Adorei a foto - também, com livros e gatinho! Tenho um gatão...
Beijinhos e boa semana

Sofá Amarelo disse...

Vindo de Mia Couto só pode ser coisa séria. Fotografei recentemente nalguns lançamentos de livros e se já tinha uma óptima impressão dele multipliquei essa boa impressão por vários números.

Pertinente tema, actualíssimo e que mexe com todos nós!

Muitos beijinhos. Boa semana!!!

Pata Negra disse...

Gosto do Mia porque não trata a mãe língua por senhora, porque trata a mãe, assim, como se trata agora, tu cá tu lá, beijo prá aqui e faz-me já um chá senão vou de férias pelo natal! Se a língua estivesse presa à eloquência frásica dos linguistas ou estaríamos todos mudos ou ainda a falar latim. Apesar de tudo gosto de ouvir falar galego. Saudosista eu? Não! Sou muito mais velho do que o tempo em que aprendi a falar! A língua portuguesa não é a minha pátria, é o meu sexto sentido!
Um abrassador abrasso porque gosto tanto dos çes de cedilha

Meg disse...

Fernando Vasconcelos,

Bem vindo a este espaço.
Espero que a experiência resulte...
Como esta com Mia Couto.

Bem haja!

Meg disse...

Lisa,

Precisamente agora que tanto se fala do acordo ortográfico.
Mas eu sou suspeita a falar de Mia.

Beijinho para ti.

Meg disse...

Zé,

Ler Mia faz-nos gostar ainda mais da nossa língua.

Um abraço

Meg disse...

Ana,

Nunca é demais trazer os textos de Mia Couto.
Ah... o gato da fotografia está bem apanhado, sim.

Beijinho

Meg disse...

Sofá Amarelo,

Não sabes, mas eu, criada nas Áfricas, tenho um fraquinho - que nada tem de fraquinho - por Mia Couto.
Traz-me muitas memórias, até dos sons que ficaram para trás.

Beijinho para ti

Meg disse...

Pata Negra,

E eu gosto do Mia. E eu gosto de ti porque sentes o que eu sinto mas sabes dizê-lo de uma forma muito especial.

Um abraço com c (mas de cedilha!)

Mar Arável disse...

Boa memória

Foi muito oportuno

Bjs

Cadinho RoCo disse...

Tudo porque insistem em criar regras, regras e mais regras.
Cadinho RoCo

Meg disse...

Mar Arável,

É sempre oportuno, mas neste momento impôe-se a divulgação... mais uma vez, meu amigo.

Um abraço

Meg disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
commonsense disse...

Que beleza, Meg. Como eu gostava de me libertar da minha prosa jurídica e escrever assim. De saborear a língua, de lamber as palavras, de lhes ouvir o cantar.
Mas isso também se aprende. No Liceu de Oeiras, onde andei, aprendi a controlar a velocidade da prosa, com vírgulas, pontos e vírgulas, pontos finais, adjectivos, advérbios de modo, rodeados ou não de vírgulas.
Esta língua é de todos os que a falam, não irá morrer nunca.

Maria João disse...

Meg

Que delicia este texto!
Ler Mia Couto é ouvir as palavras escritas, com os ecos que nelas se escondem, abraçados pelos afectos como caricias.
Uma escrita e obviamente, uma leitura singular!

Um beijinho

Nydia Bonetti disse...

Não conhecia o texto Meg. Simplesmente fascinante. A língua, mais que acarinhada e aninhada - namorada. E viva o senso incomum!

beijos.

São disse...

Mia Couto é verdadeiramente sensível e de uma imaginação estonteante.

Agradeço.te teres dado a conhecer(-me) este bonito texto de alguém que lida brilhantemente com a lígua portuguesa.
Bem hajas, amiga.

Meg disse...

Caro Commonsense,

Quando vejo o que estão a fazer ao nosso idioma, não posso ficar indiferente.
Cresci a aprender a amar as palavras, as nossas palavras, não mudarei sequer um acento.
Lembro-me que um dos meus avós, escreveu pharmácia até morrer.
Em sinal de amor.
Intolerância? Talvez, mas como eu o compreendo agora!

Um abraço

Meg disse...

Maria João,

Mia Couto é um artífice da língua portuguesa.A forma como utiliza e inventa as palavras é uma delícia.
E este texto demonstra-o.

Beijinho

Meg disse...

Nydia,

Mas Mia Couto até é muito divulgado no Brasil, segundo sei.
Se o puderes ler, não percas... porque ele, realmente, namora as palavras.

Um beijinho para ti

Meg disse...

São,

Já é a segunda vez que trago aqui este texto, e agora que tanto se fala do acordo ortográfico, achei oportuno mostrá-lo de novo.
Para sabermos como é bonito o nosso idioma quando o amamos.

Beijinho para ti

Mariazita disse...

Olá, Meg
Já conhecia o texto, o que não invalida que tenha gostado muito de o reler.
Sou fã de Mia Couto - no meu blog já publiquei um excerto dum livro seu.
Admiro o poder que ele tem de jogar com as palavras, brincar, baralhá-las...e no fim dar tudo certo!
Um óptimo post.

Beijinhos
Mariazita

Bipede Implume disse...

Querida Meg
Sabe sempre bem uma dose de bom humor e tratado desta maneira ainda melhor.
E vou continuar a escrever "facto" e "óptimo".
Beijinhos
Isabel

MPS disse...

Cara Meg

Minha mãe escreveu sempre "mãi" e "pae" e eu gostaria de continuar a escrever seqüestro para não ter de ouvir seq(u)estro e gostaria de voltar à acentuação dupla, em que o acento grave assinalava a sílaba subtónica, obrigando à abertura da vogal: assim, nenhum repórter imbecil pronunciaria repórt(e)res.

Se pretendo voltar atrás em termos ortográficos, já deve imaginar o que penso do acordo que nos querem impingir.

Aparentemente, Mia Couto só brinca com o assunto. Mas não! A certa altura escreve esta comparação lindíssima: "veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão". Acontece que, na língua, a ortografia é o manto superior desse chão que não pode ser mexido a eito sem corrermos o risco de mudar completamente a paisagem - e o desenho das sombras das brisas dançadas pelas palmeiras.

Um grande abraço

Meg disse...

Mariazita,

Também é a segunda vez que publico este texto... e é nele que penso quando sei dos atropelos que querem fazer à nossa língua.

Sempre compensa das asneiras que ouvimos todos os dias.

Beijinho para ti

Meg disse...

Isabel,

Eu recuso-me a alinhar numa suposta nova ortografia.
Tão simples como isso.

Beijinho

Meg disse...

Cara MPS,

Estou completamente de acordo consigo, aliás... eu também O assinei!
E o que somos obrigados a ouvir todos os dias nas TVs, da boca dos "mais ilustres" pivots - alguns até professores(?) universitários!
Desde quando, por exemplo, os helicópteros parraram a charmar-se hel(i)cópteros?

Resistiremos... muitos de nós, aqueles para quem, como diz o amigo Pata Negra,
a língua portuguesa é o nosso sexto sentido.
Porque para os outros, e que me desculpem, tanto faz...

Um grande abraço