29 de julho de 2008

EÇA... AGORA?

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Eça de Queirós morreu em Paris no dia 16 de Agosto de 1900,
Este é um excerto de "As Farpas", publicado em 1871.
137 anos depois...
Eça poderia escrever esta "farpa" e estaria cheio de razão...
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Eça de Queiroz, por António


Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes.

Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: e fizemos muitas revoluções para sair dela.
Ficamos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou.
Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, que o vai buscar alegremente, ao meio dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó. Este caldo é o Estado. Toda a nação vive do Estado.
Logo desde os primeiros exames do liceu a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia do seu futuro
[...]
A vida militar não é carreira; é uma ociosidade organizada por conta do Estado.
Os proprietários procuram viver à custa do Estado, vindo a ser deputados a 2$500 réis por dia.
A própria industria faz-se proteger pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado.
A imprensa até certo ponto vive também do Estado.
A ciência depende do Estado.
O Estado é a esperança das famílias pobres e das casas arruinadas.
Ora como o Estado, pobre, paga pobremente, e ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade.
Resulta uma pobreza geral. Com o seu ordenado ninguém pode acumular, poucos se podem equilibrar. Daí o recurso perpétuo para a agiotagem; e a dívida, a letra protestada, como elementos regulares da vida.
Por outro lado o comércio sofre desta pobreza da burocracia, e fica ele mesmo na alternativa de recorrer também ao Estado ou de cair no proletariado.
A agricultura, sem recursos, sem progresso, não sabendo fazer valer a terra, arqueja à beira da pobreza e termina sempre recorrendo ao Estado.
Tudo é pobre: a preocupação de todos é o pão de cada dia.
Esta pobreza geral produz um aviltamento na dignidade.
Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse.
Serve-se, não quem se respeita, mas quem se vê no poder.
Um governador civil dizia: - «É boa! dizem que sou sucessivamente regenerador, histórico, reformista!... Eu nunca quis ser senão - governador civil!»
Este homem tinha razão, porque mudar do sr. Fontes para o sr. Braamcamp não é mudar de partido; - ambos aqueles cavalheiros são monárquicos e constitucionais e católicos.
A desgraça é que, se em Portugal existissem partidos republicanos, monárquicos, socialistas, aquele homem, assim como fôra sucessivamente reformista, histórico e regenerador, - isto é, as coisas mais iguais, seria republicano, monárquico e socialista, - isto é, as coisas mais contraditórias........
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in As Farpas,

Junho 1871
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39 comentários:

Pata Negra disse...

Existem agora umas deformações congénitas, os xuxalistas!

Um abraço com essa

Marcilio Medeiros disse...

Meg,
passando para deixar-te um abraço.

Maria disse...

Tão actual... até faz impressão, bolas.

Beijo, Meg

Izelda Maia disse...

Meg,
venho cá fazer-te uma visita rápida, pois também estou com o tempo resumido para net por motivos de trabalho.
Como sempre bons posts.
Grande e fraterno abraço.

Marco Ferreira disse...

Até pareçe que andamos aos circulos.

Um grande abraço.

marinheiroaguadoce a navegar

Meg disse...

Querido Pata Negra,

Se fossem só xuxalistas? Mas há muitos mais.
Obrigada pela visitas.
Um abraço

Meg disse...

Marcílio,

Obrigada pela simpatia e retribuo o abraço, com muito carinho

Meg disse...

Maria,

Serão coincidências?
Como vês, mudam as moscas, mas os hábitos e o sistema continua.
Um abraço

Meg disse...

Querida Izelda

Também tu numa aflição de falta de tempo.
Eu já não prometo nada, vamos ver se acontece uma visita.
Um abraço

Meg disse...

Querido Marco,

Andamos aos círculos e mais parecemos uma pescadinha de rabo na boca.

Um agrande abraço

Agulheta disse...

Meg. Será considências?não deve ser algo que nos atormenta para o resto da vida,e já este poeta pensava assim,lá teria a sua razão e opinião.
Beijinho Lisa

Amaral disse...

Meg
"Eça é que é Eça!". Eça de Queirós era um visionário, já sabia que Portugal, como diziam os romanos, é um povo que nem se governa nem se deixa governar.
Abraço

O Guardião disse...

"Portugal não tem fé nos seus princípios"
Se há princípios nesta terra, esses não vêm de cima, nem os exemplos.
As cores com que apresentam são disfarces, os nomes um engano e as promessas uma mentira.
O Eça sabia o que dizia.
Cumps

Menina do Rio disse...

Como se diz por cá, mudam-se os tempos, mas os costumes permanecem...
Ou seja, tudo como antes no Inferno de Dantes.

Querida, sei que estás atulhada em tempos de verão, mas o importante é que vamos nos vendo

Um beijinho pra ti e manda logo esse verão pro hemisfério sul antes que congelemos...

Meg disse...

Lisa,

Pensar que isto foi escrito há mais de 130 anos é que assusta.
Mas só Eça poderia ter escrito um texto que hoje fosse tão actual. Ele sabia do que façava.
Um abraço

Meg disse...

Caro Amaral

Era e somos ainda, que é o mais grave.Não aprendemos nada, pelo contrário... agora até temos os "tais" partidos.

Um abraço

Meg disse...

Caro Guardião,

Nem princípios nem vergonha. Aliás, agora parece que se faz gala da transgressão... o que se passa com os impostos? Só os parvos é que pagam. Queres melhor retrato?
Um grande abraço

Meg disse...

Verónica

É, é o inferno de Dantes, e do Dantas, por aí, não é. Pior que a peste.

Frio? Tens frio? Que inveja! Trocamos, ok?

Um abraço

f@ disse...

Pois é eu nem sei o que dizer ainda me ponho aqui a pingar...
o Pata negra é que tem razão mas é pior ....
beijinhos das nuvens

jo disse...

O Eça é um escritor intemporável porque ele conheceu e retratou o nosso Portugal como ninguém e, por outro lado, parece que nas suas metamorfoses Portugal continua igual a si mesmo.Beijão

São disse...

Incrível, parece que o tempo parou no nosso país, não é?
Tudo de bom.

Meg disse...

F@,

É muito pior, simplesmente porque 130 anos depois alguma coisa devia ter melhorado. Naquela altura não havia partidos...

Um grande abraço

Meg disse...

Jo,

Por mais que se tente, torna-se irresistível não transcrever estes textos...
Ou esquecemo-nos do Eça ou... ele faz-se presente.
Um abraço

Meg disse...

São,

O tempo não parou, não. O país é que piorou e de que maneira. É que estamos no séc XXI.

Um abraço

romério rômulo disse...

meg:
passo para ver os amigos,deixar-lhes um abraço.vejo que os brasileiros estão cada vez mais recalcitrantes.
um beijo.
romério

Mar Arável disse...

Afinal a história repete-se

Que viva o EÇA

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
Grande Eça, sempre actual.
Abraço


P.S. Não, não são só os xuxalistas. São todos os políticos em geral. Há uma falta de ética que arrepia.

bettips disse...

Farpas, as certeiras, deles os nossos maiores!
Que estes são os anões mentais que nos saíram na rifa, tipo porta-chaves.
Bem vês que flano e plano alhures.
Bjinho Meggy

tulipa disse...

Mais uma bela partilha.
OBRIGADO.


Ando tensa
grito
fujo de mim
de todos;
ignoro o mundo
fecho os olhos
tento dormir
esquecer...


Convido-te para umas férias na Isla Canela, queres vir?

Beijinhos

MPS disse...

Cara Meg

Folheia-se "Uma Campanha alegre" e de imediato, na primeira frase, vemos o País retratado nos seus vícios. Só para reforçar a sua ideia:

"A Câmara[Parlamento] não tem justiça. Se alguma coisa decide (...) é no [terreno] do interesse político.(...)

A Câmara não tem consciência. O seu critério, a sua moral, é a intriga. (...)

A Câmara não tem patriotismo. É preciso prová-lo? Que lhe importa a ela o País, a sua organização, o seu progresso? Que faz por ele?(...) A Câmara intriga e vocifera! De resto é um baralho de cartas com que chefes hábeis fazem uma partida de voltarete. E o País é quem leva os codilhos.

A Câmara não tem independência. (...)

A Câmara não tem ciência. Nem administração, nem economia, nem direito público, nem direito constitucional, nem história, nem gramática. A Cãmara nada sabe. (...)

A Câmara não tem eloquência. (...)

A Câmara não tem seriedade. Quem nao viu uma sessão? O sussurro, o barulho, a confusão são perpétuos. Vota-se sem saber o que se discutiu, e continua a conversar-se. As questões pessoais estão constantemente na ordem do dia. Voam os desmentidos. Fervilham as injúrias. Nos momentos mais serenos é a graçola e a troça. E das galerias o público assiste, ora indignado ora divertido, ao espectáculo sem igual." (Maio de 1871)

Se avançarmos mais umas páginas encontramos a descrição primorosa da selecção dos candidatos pelos partidos políticos...

Enfim: pelo menos sabemos rir-nos de nós próprios, quiçá a única coisa salutar que podemos fazer e que está ao nosso alcance.

Um abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Meg
Um bom fim de semana.
Eça sempre!


Abraço

Meg disse...

Romério,
Que bom ver-te por aqui. Nossos amigos vão gostar sim de te ver cá por Portugal.
Um beijo grande para ti

Meg disse...

Mar Arável
Infelizmente a nossa História não passa disto mesmo!
Se houvesse um hiato, pelo menos de vez em quando!
Um abraço

Meg disse...

Silêncio Culpado
Lídia,
Eça é recorrente neste nosso país.
Um abraço amigo

Meg disse...

Bettips,

Flanando e planando mas sempre atenta a esta e outras farpas...
Para o ano é que vamos ver.
Será que deitamos fora os porta-chaves?
Mil beijos

Meg disse...

Tulipa,
Pudera eu fugir deste inferno de calor e aceitava o convite. Para qualquer sítio onde reinasse o silêncio e o frio.
Um abraço

Meg disse...

Querida MPS,

Pois é verdade... Uma Campanha Alegre tornou-se para mim uma espécie de livro de cabeceira.
Como é possível?
Ah se ele soubesse como as coisas estão tão pior? Porque mais de 130 anos passados, eis-nos, relendo, umas vezes rindo, outras chorando, de espanto ou de indignação.
Mas sem Eça, não.
Adorei o comentário... aquela Câmara...!!!
Um grande abraço

Meg disse...

Lídia,
Um bom fim de semana para ti também.

E Eça... agora e sempre em Uma Campanha Alegre

Um abralo

Anónimo disse...

GRANDE EÇA !!!

PARECE QUE ESTÁ DE LUNETA ASSESTADA NESTE POBRE RECTÂNGULO LUSO, A ASSISTIR DE CAMAROTE A TODO ESTE ESPECTÁCULO, QUE ELE TÃO BEM CONHECEU NO SEU TEMPO . DEVE ESTAR DE SORRISO ESCARNINHO A RENOMEAR TODAS AS PERSONAGENS QUE POR CÁ EXISTEM ... REALMENTE TÃO POUCAS OU NENHUMAS DIFERENÇAS DO PORTUGAL QUE ELE TÃO BEM RETRATOU.

UM GRANDE BEIJINHO PARA TI AMIGA.

A. (PAGINADORA)