17 de julho de 2008

Cair do Pano


Ruy Knopfli deixou a sua marca na escrita em língua portuguesa, e na vida literária moçambicana.
O seu último livro, "O Monhé das Cobras", é como que uma despedida. Dos lugares, pessoas... recordações

Cair do Pano
As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa da areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.
Rui Knopfli
O Monhé das Cobras - 1997
.
.

50 comentários:

samuel disse...

Muito bonitos, tanto o texto como a imagem.
É preciso ser sábio na utilização do tempo que nos sobra...
Bela escolha!

Abreijos

sol poente disse...

MEG
Este texto, e a sua apresentação, é um conjunto de mensagens fortes que nos abanam com o cair dum pano que, de forma abrupta, nos traz para uma realidade agreste de sentimentos e dores ocultas.
Bem hajas por tanto conhecimento e sabedoria que partilhas generosamente.

Abraço

Filoxera disse...

Não sei o que é mais belo, se o texto ou a foto...
Parabéns!

Isabel-F. disse...

Gosto imenso de Rui Knopfli ... não conhecia este poema ...


é lindo


beijinhos e bom fim de semana

O Guardião disse...

Conheço a obra do Rui, parte dela claro, mas não conhecia este poema.
Bela foto.
Cumps

Amaral disse...

Meg
Este foi um dos autores portugueses que estudei na faculdade. Gostei! Este poema então é lindíssimo.
Bom fim-de-semana
Abraço

meg disse...

Samuel,
Como deve dramático saber o tempo que nos resta!
Obrigada pela visita, meu amigo.
Abreijos

meg disse...

Sol Poente.
L.
É destas realidades que nos esquecemos tantas vezes, só quando nos passam muito perto.
Só quero manter a voz de quem já cá não está.
Abraço

meg disse...

Filoxera!

Obrigada pelas tuas palavras, e pela visita
Abraço

meg disse...

Isabel,
Na verdade não é dos poemas mais conhecidos, mas para mim é muito importante... pela despedida.
Um abraço

meg disse...

Amigo Guardião,

Não resistimos a uma acácia.
As nossas acácias!
Obrigada, meu querido amigo.

Abraço da Meg

meg disse...

Caro amigo,

Pena ter-nos deixado tão prematuramente.

Um abraço

Agulheta disse...

Meg. Lindo o texo e a imagem,como só tu sabes consolidar. Beijinho BFS Lisa

Marcilio Medeiros disse...

Meg,
Tocante esse relato de despedida, feito de paisagens externas e íntimas.
Bjs,

Bill Stein Husenbar disse...

Lindíssimo Post.

Excelente foto, maravilhoso texto.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

padeirinha disse...

Bonito e tocante.

Menina do Rio disse...

É Dezembro a encurtar o tempo...Esse texto me fez ver o verão, onde o sol tinge o céu de vermelho, as cigarras... Eu nasci no verão, no mes de dezembro..

Meg querida, que bom te ver! Eu também vivo numa correria, aliás, todos nós. Sei que estás em rítimo de verão ai.

Deixo-te meu beijo, querida

meg disse...

Lisa,
Consegui ir dar-te um abraço.
Obrigada pelas tuas visitas e palavras lindas que me deixas.
Um abraço

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Retribuo os votos de fim de semana, um grande e sincero abraco.
Namibiano

meg disse...

Marcílio,
Comovente, meu amigo!
Obrigada pela tua visita. É uma honra.
Um grande abraço para ti.

meg disse...

Bill Stein

Obrigada pela visita.
Um abraço

meg disse...

Querida Padeirinha

Uma despedida dramática, minha amiga! Comovente.
Um bom fim de semana e um abraço

meg disse...

Verónica,
Tinha o teu link errado - vírgula em vez de ponto - e não existia o teu blog.
Tudo bem agora.
Como vês, o trabalho é muito e não me deixa sair daqui.
Um bom fim de semana, imaginando o calor na cor quente das acácias.
Um abraço

meg disse...

Querido Namibiano,

Tudo também para a Dinah
... dois em um.
Obrigada
Um beijo

zef disse...

Meg
Este poema copiei-o para o ler em papel(será mania, mas mas há coisas que só no papel e de lápis!).
Ainda estou a pensar: metáfora, de início, violenta, mas terminando em tristeza serena.
Gosto e tenho de conhecer melhor poesia assim.
Um abraço

Paradoxos disse...

Amiga, post profundamente em elevado grau de beleza e realismo! Teu beijo

Carminda Pinho disse...

Meg,
escolhes sempre belas imagens para adornar os poemas que aqui nos ofereces.
Nunca tinha lido nada deste autor.
O poema é muito bonito, e as acácias no parque, Meg...lindas.
Beijos

pin gente disse...

muito bonito, meg
não conheço o autor e gsotei muito de saber mais.

abraço
luísa

Mar Arável disse...

Muito belo.

Cai o pano

Não existe pano

O tempo passa

a casa da mariquinhas disse...

Partiu há mais de dez anos, mas, sorte nossa, deixou-nos a sua obra.
Este poema, embora não seja dos mais conhecidos, não é, por isso, menos belo.
A imagem também é lindíssima.
Boa escolha, Meg. Parabéns!
Beijinhos
Mariazita

jasmimdomeuquintal disse...

Bonito texto meg.
Não conhecia o escritor.
bjs

Papoila disse...

Querida Meg:
Bela acácia incendiada para ilustrar este poema de Rui Knopfli.
O tempo tantas vezes faz cair o pano abruptamente!
Beijos

meg disse...

Querido Zef,

É o nosso vício do papel. E do lápis, e da tinta permanente.
Que tem um outro sabor.
Se soubesses quanto gasto em tinteiros (da impreessora).
Um grande abraço e boa semana

meg disse...

Paradoxos,
Eduardo, parece uma despedida, simplesmente! E foi.
Uma boa semana e
um abraço

meg disse...

Carminda,
Já te imaginaste numa avenida só com acácias?
Nunca mais se esquece na vida.
Um abraço

meg disse...

Mar arável,

É tudo tão simples, cai o pano e acabou. Não para poetas como o Rui, que permanece na memória de muitos.
Uma boa semana
Um abraço

meg disse...

Pin Gente,

Não é dos mais divulgados, por isso muitos o desconhecem. Aconselho-te a leitura do Rui Knopfli.
Um abraço

meg disse...

Mariazita,

És uma das poucas pessoas que o conhecem aqui, e isso deixa-me feliz. Sei que continua connosco.
Um abraço

meg disse...

Jasmim,

Mais um poeta que cedo partiu e que é muito esquecido. É só o que faço... mostrá-los.

Um abraço

meg disse...

Papoila,

Nós e as acácias das nossas memórias. E a memória de uma pessoa marcante nas nossas vidas.
Um abraço

Marco Ferreira disse...

Passei para dar um grande abraço.

Ainda o pior do verão não chegou. Só fico feliz quando vir o Agosto no fim.

Viver no Algarve custa nesta altura do ano.

marinheiroaguadoce a navegar

Carla disse...

que belo texto...África é mais do que terra...é mãe
beijos Meg

luisa disse...

Um belíssimo texto, muito bem escolhido

TINTA PERMANENTE disse...

Uma beleza, este poema!...


abraços!

Bipede Implume disse...

Tens toda a razão, quem viu acácias em flor jamais as esquece.
Como sempre um post muito belo.
Grande abraço.

meg disse...

Marco,

Agosto ainda vem aí, meu querido amigo!
E depois... é isso que nos anima a enfrentar este suplício.
A tua visita é sempre aquele mimo.
Um abraço grande para ti

meg disse...

Carla,
Tu bem o dizes, África é mãe.
Mas só quem por lá passou o sente de verdade.
Um abraço

meg disse...

Tinta Permanente,

Muito obrigada, pela visita e pelas palavras.
Um grande abraço

meg disse...

Bípede

E que saudades que tenho das acácias, rubras ou não, acácias só!
Um abraço

meg disse...

Luisa,

Muito abrigada pela tua visita, é sempre bom ver-te cá em casa. E obrigada pelas palavras.
Um grande abraço