6 de julho de 2008

Manual das mãos... para recordar o passado

 Ilha de Moçambique

(excerto)
Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.
Não tenho dinheiro. Gastei-o a exilar-me em mim mesmo. No álcool, algumas vezes. A pagar rodadas dele aos amigos para não ficar sozinho. Tenho um pavor à solidão. É-me corrosiva e não sei viver com ela.
Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha. Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.
Vejo-a:

Um pássaro revolve as asas por dentro do verde esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas, sobre a espuma amarelecida, dos navios cargueiros que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas.
A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.
As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nessa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg.
Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite.

Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.
Vão longe, a navegar, os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que não dizem os poemas, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem entender, entretanto, o que eles explodem e doem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores.


Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.
Assim, o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado o seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.
Mas era para lá que eu queria partir.



Eduardo White
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«««««o»»»»»
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Escritor moçambicano, Eduardo White nasceu em Quelimane (Moçambique), a 21 de Novembro de 1963.
Integrou um grupo literário que fundou, em 1984, a Revista Charrua.
É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).
Publicou os seguintes livros: “Amar sobre o Índico” (1984); “Homoíne” (1987); “País de Mim” (1990; Prémio Gazeta revista Tempo); “Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1992; Prémio Nacional de Poesia); “Os Materiais de Amor Seguido de O Desafio à Tristeza” (1996); “Janela para Oriente” (1999); “Dormir com Deus e um Navio na Língua” (2001; bilingue português/inglês; Prémio Consagração Rui de Noronha); “As Falas do Escorpião (novela; 2002); “O Homem a Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004), e outros...
A sua poesia está exposta no museu Val-du-Marne em Paris desde 1989.
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30 comentários:

MPS disse...

Cara Meg

Hoje, muito mais do que no texto, a beleza e a poesia encontram-se na terceira fotografia, aquela em que a aragem beija as palmeiras e a sombra delas enfeita de vaidade a alvura da praia.

Um abraço

Agulheta disse...

Querida Meg!A lembrança sempre presente,em palavras e belas fotos,o poeta não conheço,mas de escrita plena e bem interesante por sinal.
Beijinho e tudo de bom para ti desejo.
BFS Lisa

Mariazita disse...

Querida Meg
Voltei! E agora é que vejo que já tinha muitas saudades (de algumas pessoas, pelo menos).
Sinto-me completamente recuperada e com energia para aguentar um período longo de tempo, espero...


Reiniciarei as minhas actividades “bloguísticas” amanhã, domingo, com a publicação de um capítulo de Anita, na “Casa”. Seguir-se-á o “Histórias” e depois o “Lírios”, tão breve quanto possível.
Aos poucos tudo voltará à rotina normal.

Li o teu post e adorei o texto.
Não conhecia o autor, mas fiquei fã. As fotos são belíssimas.
Sabes que quando fui para Moçambique desembarquei na Ilha? Naquela altura não havia ainda cais acostável. Foi uma verdadeira odisseia, com duas crianças pequenas, a chover torrencialmente.
Talvez qualquer dia escreva sobre isso...

Muito obrigada pelo teu cuidado com a minha saude, pelo teu carinho, enfim, por tudo!

Beijinho cheio de carinho
Mariazita

tulipa disse...

CARA MEG

Obrigada por me dares a conhecer um escritor Moçambicano, da minha terra.

Esta noite podemos dormir mais uma hora, com a mudança da hora;
pois aproveito essa hora a mais, para visitar os meus amigos da blogosfera, que ando em falha.

Férias
...de Verão!!!
Não sei o que isso é...
Vou fazendo uns dias aqui
outros por ali,
uns dias em Setembro
outros 4 em Outubro
o resto vem para Novembro!

Beijinhos e miminhos.

BAR DO BARDO disse...

MEG...

sim, luz...

Nydia Bonetti disse...

Queria também ter uma ilha para onde pudesse ir, Meg... Amei este poeta. Quero mais!

Beijo

Ana Tapadas disse...

É talvez uma intrusão...venho do Com Calma..., mas valeu a pena!
Que blogue excelente e que fotografias maravilhosas. Parabéns pela criatividade e bom gosto,
Ana

São disse...

Vim para te agrdecer muito o teu apoio nesta hora triste.
Bem hajas, Amiga!

As fotos transmitem paz e isso é(-me) benéfico neste momento.

Meg disse...

Cara MPS,

É nestas imagens que também encontro, não só a poesia e a beleza de que tão bem fala, como muitas das minhas memórias...
E nelas me afogo também através das palavras dos poetas que beberam da mesma água... uma marca para sempre.

Um abraço

Meg disse...

Lisa,

Eu sei que Eduardo White não é um poeta que ande nas bocas do mundo, mas como o admiro, aqui vo-lo trago, sempre com as minhas saudades de África.

Beijinho para ti

Meg disse...

Mariazita,

Claro que estou feliz com o teu regresso, e com o facto de isso representar que ultrapassaste os problemas que fizeram com que te afastasses temporariamente.
Bem vinda, amiga!
E espera por mim... não demoro.

Beijo grande

Meg disse...

Tulipa,

Sim, sei que estas imagens e este poeta também te dizem muito.
São as saudades dum tempo que já não volta, minha amiga.

Férias, Tulipa, antes não tê-las do que estar sem trabalho...
Essa é que é a verdade.
Penso nisso muitas vezes quando me queixo de excesso de trabalho.

Um beijo para ti

Meg disse...

BAR DO BARDO,

Bem vindo, Henrique.
Já andei a espionar, ahahahah!
Me aguarde.
E obrigada pela visita "luminosa"

Um abraço

Meg disse...

Nydia,

Pois é... se eu pudesse dava-ta, mas ela ainda está lá, mas longe.
E eu aqui cheia de saudades.

Beijinho para ti

Meg disse...

Ana Tapadas

Bem vinda, Ana!
Vem de casa amiga, apesar de já nos termos cruzado por aí em casa de mais amigos comuns.
Obrigada pelas suas palavras simpáticas, e só espero que se sinta bem aqui, onde será sempre recebida com muita honra.

Um abraço

Meg disse...

São,

Nestas horas fico sem palavras... mas fico feliz se te confortam as minhas imagens, minha amiga.
E acompanho-te, solidária.
ÂNIMO!

Beijinho

Amaral disse...

Meg
Parabéns por estas fotos da minha terra.
Boa semana
Abraço

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Já aqui trouxeste este escritor-poeta e gostei mas agora trazes uma fotos... ai as fotos!!! Quanta África a trasnbordar delas...
Bjs
Nami

lua prateada disse...

Querida Meg á quanto tempo e, como se costuma dizer "tão perto e tão longe"....
Só mesmo a Meg para nos oferecer estas coisas maravilhosas.
Obrigada por nos dar algo interessante para meditar sobre tudo isso.
Beijinho Meh..
SOL

Moacy Cirne disse...

Cara Meg,
voltei a visitá-la com regularidade. E, já hoje, reproduzo uma foto de Zeca Ribeiro no Balaio.

Abraços.

Meg disse...

Amaral,

Mas deixas um bocadinho da tua terra para mim? Ahahahah!!!
As fotos estão uma maravilha, não estão?

Um abraço

Meg disse...

Nami,

Quando saio de tua "casa" fico assim... carregada de saudades.
E parto para a África das minhas memórias.

Um abraço

Meg disse...

Lua Prateada,

Tão perto e tão longe... é verdade, mas não por muito tempo.
Ainda bem que vieste, perdi o teu link.
Este é um post feito com as memórias, minha amiga.
Se gostaste, fico feliz.
Tudo bom para ti.

Um beijo

Meg disse...

Moacy,

Mas que feliz que me sinto com a sua visita!
Obrigada pela publicação da fotografia, passei há pouco pelo Balaio, mas voltarei.
Zeca Ribeiro tem imagens fantásticas da "minha" África. meu caro amigo.
Esta é também uma sua casa.

Um cheiro...

Peter disse...

Fotos maravilhosas de uma ilha maravilhosa, por onde também andei.

P.S. - Voltei a Moscovo.

Zé Povinho disse...

Recordar paisagens, quase sentir os cheiros...
Obrigado
Abraço do Zé

Bipede Implume disse...

Querida Meg
Finalmente consegui entrar.
Tantos anos estive em Moçambique e não conheço a ilha de Moçambique. E tenho muita pena.
Mais um jovem escritor que, em boa hora, nos dás a conhecer.
Tudo de bom para ti, amiga.
Beijinhos.
Isabel

Meg disse...

Peter,

Vamos dando de beber à... saudade.
Ah...voltas a para Moscovo, então eu acompanho-te.

Um abraço

Meg disse...

Zé,

É que saudades, meu amigo.
Também eu, como o poeta, queria fugir para esta ilha.

Um abraço

Meg disse...

Isabel,

Pois, muitas vezes estamos tão perto dos sítios... mas a maior parte de nós não sabia o que futuro nos traria, não é?~
Confortam-nos as imagens, porque a natureza está lá, apesar de tudo.

Um beijinho para ti.