27 de abril de 2008

A Bela Acordada



«Eu levo a minha poesia muito a sério.
Para mim é uma questão de vida ou de morte.»





A Bela Acordada


"Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como bonita,
as pessoas diziam-lhe:-
Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona
e a ouvir coisas feias.
Só os animais gostavam sempre dela,
tanto quando era bonita como quando era feia
como agora que era sempre feia.
Mas o amor dos animais não lhe chegava.
Por isso deitou-se a um poço.
No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.
a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.
cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe.
o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou,
e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher,
e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado,
a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos.
E a mulher ali era tão feia que não era feia.
Por isso, quando as criadas foram chamar o rei
e o rei entrou na cozinha e viu a mulher,
o rei apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ?
perguntaram em coro as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas,
muito tortas, uma mais curta do que a outra ,
respondeu o rei às criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe.
O rei disse à mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher,
e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça.
A mulher apanhou a azeitona e comeu-a.
Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona.
E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar."


Adília Lopes
in Obra, Lisboa, 2001


««««««««««<>»»»»»»»»»»




Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e a mesma pessoa. São eu. Como uma papoila é poppy. E muitos outros nomes que eu não sei.
A Adília Lopes é água no estado gasoso, a Maria José é a mesma água no estado sólido.


Eu sou uma mulher, sou portuguesa, sou lisboeta, sou poetisa, sou linguista (todos somos), dizem que o meu estilo, aparentemente coloquial e naïf ,está repleto de jogos fonéticos, associações livres, rimas infantis e idiomas estrangeiros.



Dizem que trato os temas do quotidiano, principalmente femininos e domésticos, com humor e auto-ironia, candura e crueza, inteligência e intencionalidade.


Sou física, sou bibliotecária, sou documentalista, sou míope, nasci a 20 de Abril de 1960, sou solteira, não tenho filhos, sou católica, tenho os olhos castanhos, meço 1,56 neste momento peso 80 Kg, uso o cabelo curto desde 1981, o cabelo é castanho escuro com muitos cabelos brancos




(…) É claro que o poeta é sempre o idiota da família, o maluquinho.

34 comentários:

Zé Povinho disse...

Depois do descanso, dou com este post que ainda estou a digerir. Acho que ainda não é altura para comentar, pelo que volto depois de de me habituar à ideia.
Abraço do Zé

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
Este post é longo e merece várias reflexões.
Hoje vou-me ficar só na história da mulher que ora era bonita ora era feia e que, quando ficou feia, acabou por ser bonita.
É uma história fascinante e algo perturbadora.Porque todos nós somos bonitos e feios. Umas vezes mais feios e outras mais bonitos. E, por vezes, quando nos achamos mais bonitos é quando os outros nos acham mais feios.
É deste contraste e desta luta que nasce a poesia. Grito de confrontações, mágoas repercurtidas em alegrias efémeras.
Abraço-te

Maria disse...

Esta mulher deve ser incrível.
Gostei do "casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar"... :)))))

Beijos, Meg, do mesmo lado

São disse...

Muito interessante.
O que não é de estranhar.
Semana feliz.

Carminda Pinho disse...

Meg,
a história da Bela Acordada está muito bem contada, estilo Adília Lopes.:)))
Não tenho acompanhado muito a sua obra, mas lembro-me de a ver há uns anos num programa de televisão, creio que do Herman, e achei que era louca. Agora acho que, louca estava eu.

É assim sem tirar nem pôr, que as pessoas se devem assumir...como são...quem gosta, gosta, quem não gosta...paciência.
Por este teu post fiquei a conhecer melhor a Maria José.
Bem hajas!

Beijos

Sebastián disse...

Felicitaciones.

Desde Chile un abrazo.

romério rômulo disse...

meg:
passo aqui e encontro a
adília lopes.gostei.e a
auto-apresentação está ótima.
um abraço.
romério

anamarta disse...

Bom dia Meg
Adilia Lopes, do pouco que conheço gosto muito! Gostei de a conhecer melhor através dete teu post.
obrigada
beijos e boa semana

Maria Faia disse...

Olá Amiga,
Gostei da escritora mas... sobretudo da mensagem.
Infortunados aqueles que vivem à sobra de uma mera imagem física, exterior e, muitas vezes supérflua...
No seu interior encontram-se, não raras vezes, coisas ocas, fúteis e dissimuladas, certo? Por isso, continuo com a minha: "a verdadeira beleza não se vê...sente-se".

Beijo amigo

Maria Faia

Amaral disse...

Meg
Desculpe a sinceridade, mas não gostei do poema, pois não é muito do meu género.
A mulher, bonita ou feia, é mulher e o bonito ou feio são relativos.
Gostei da citação de que "o poeta é o maluquinho da família".
Abraço

AJO disse...

Pois... parece que a qualidade continua a morar contigo... trocas de espaço, mas a qualidade continua a mesma. Parabéns.
BJS e boa semana.

Agulheta disse...

MEG.
Da escritora pouco sei,mas a historia se torna engraçada,pois lá diz o velho ditado "quem feio ama bonito parece"mas os padrões de beleza devem estar dentro e não da parte de fora.
Beijinho Lisa

marta disse...

Uuuaaaauu!
Como é que não conhecia este blog?
Tenho de passar com vagar, logo mais à noitinha.

Beijinho

samuel disse...

Este post é bonito, mas nem por isso deixa de merecer uma ou outra azeitona ternurenta na cabeça e uma risada...

Abreijo

jo disse...

Já conhecia este teu poema, porque não só gosto de poesia, como gosto da tua forma sarcástica e de "nonsense" de escreveres. Andei agora mesmo à procura dum livro teu para te brindar com um poema, uma frase" tua daquelas que tu deixas cair no papel, mas não sei onde o meti. Já foste citado no ecos porm mim porque acho que tens, de facto, poesia excelente, e que a critica nem sempre te tem tratado bem. Um beijo de admiração à grande MULHER que és, não interessa o nome: Adilia/José

Bipede Implume disse...

Gosto muito da Adíla Lopes.
Parece uma poesia sem poesia. Um completo nonsense. Uma visão lúcida, corrosiva do ser humanao.
Há um poema que diz isto:

Os poemas que escrevo
são moínhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas.

Boa escolha.
Uma semana muito feliz e grande abraço.

marta disse...

Olá Meg


Percebi os problemas, e só tenho pena de só agora ter conhecido este blog.

Toda a minha admiração por ti, porque se me acontecesse uma coisa dessas acho que me retirava para sempre.

Beijinho

O Guardião disse...

Nem sempre o que vemos condiz com o que acabamos por conhecer. O invólucro pode ser um bom cartão de visita mas não dura para sempre e a desilusão pode ser grande.
Os nossos olhos podem enganar-se mas a ilusão não dura para sempre.
Cumps

Ana Luar disse...

Venho comunicar-te que graças ás alterações da blogspot alguns blogs sofreram algumas alterações... a mim calhou-me a alteração de endereço.
O endereço que me deram agora é este...........

http://mysterylovewoman.blogspot.com/

Odele Souza disse...

Querida Meg,
Lamento saber que estás doente. Mas mesmo assim a qualidade de teus posts continua alta. Mas quem sabe fosse melhor ir mais devagar, dar mais tempo entre um post e outro. Pra te preservar.

Teu texto, por ser longo, carece de uma leitura mais cuidadosa antes de qualquer comentário. Espero poder voltar depois.

Te deixo um beijo.

PS. E não te preocupes em visitar e comentar nos meus dois blogs. Cuida-te pois isto é mais importante que tudo. Terei sempre imenso prazer em te receber seja no Oficina, seja no Flavia... mas repito, antes tens que cuidar de ti. Cuida-te!

bettips disse...

Acho-a...uma mulher das Arábias!!! Do que conheço dela e da confusão que faz nas cabeças, gosto de mulheres que fazem "confusão", não gosto de aclimatações.
Trata de ti, menina!
Bjinho

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
Tudo é caso de vida e não de morte. Por isso procura a vida.
Os teus amigos, os que o são, estão sempre onde os procuras e ser amigo é exactamente isso: saber que estão sempre onde os procuramos. Não precisas comentar para que saibamos que estás aqui, criando grandes mensagens para nos receber, procurando o momento certo para nos visitares.
Abraço

Maria Clarinda disse...

Sabes onde paro sempre que abro o teu blog?...sabes, não é? Sim, aí na foto da marginal...
Adorei o post!!!
Tanto para ler nas linhas e nas entrelinhas...Jinhos mil

Maria Clarinda disse...

Tás melhor???Esqueci-me de te perguntar, enquanto olhava a Baía pensava em ti...depois esqqueci-me do principal. Te cuida minina, gosto demais de ti. Jhs

Zé Povinho disse...

Espero que as maleitas passem depressa, e o momento exige que dês uma ajudinha, descansando que só faz bem.
Abraço do Zé

anamarta disse...

Meg
Folgo que te sintas melhor, e desejo que continues a melhorar.
Quanto ao comentário qu deixaste no meu post" Fragata Gago Coutinho"
devo dizer-te que já não sou jovem, tenho 55 anos, quanto às comissões daqueles homens, eles também as fizeram, um deles é meu marido, e esteve na Guiné na pior fase da guerra "sé é que numa guerra existem fases boas". Eu não pretendo fazer "nem eles querem" deles heróis, só gostaria que os factos passados naquele dia fossem conhecidos, pois se tu os conheces há muita gente que não.
beijos

Anabela disse...

He, he e o excêntrico também:)

Mas compensa pelo quão é bom sentir assim as coisas.


Beijos

Marco Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marco Ferreira disse...

Fico feliz de ver que estás de volta. Fico feliz de saber que estás de volta completamente restabelecida de todo o sucedido.

Gostei de ler este trecho.

marinheiroaguadoce a navegar

Isabel-F. disse...

Oi Meg,

Não leves a mal ... mas não gostei mesmo nada deste poema ....

parece escrito de propósito sem pés nem cabeça ... só para chamar a atenção ...

sei lá ... mas quem sou eu para avaliar???

se calhar não percebi é nada ...


beijinhos

Pata Negra disse...

A minha relação com as azeitonas é uma relação de amor ódio, não as posso ver, como-as! Sou incapaz de atirar com um caroço de azeitonas porque, de facto, sou um perdido por azeitonas! O facto de gostar muito de azeitonas veio-me, ao caso, pelo facto de ter gostado muito desta história e do "assumiço" que a legenda!
Trata-se na verdade de uma história sem caroços!
Um abraço de azeitona amarga (por aqui chamam-lhe barrasquentas)com um naco de broa e um pingo de tinto

Bipede Implume disse...

Meg
Vai ao Com Calma, tenho um miminho para ti.
Grande Abraço, amiga.

Belzebu disse...

eheheh!! Tu nem podes imaginar quantas vezes eu tenho vontade de atirar caroços à cabeça de certas pessoas! Umas vezes não o faço porque não há oportunidade e outras por respeito aos caroços!

Aquele abraço infernal!

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Respeito todas as opinioes... conheco pessoalmente Adilia Lopes pois colaborei na mesma revista (Alma Azul) em que ela colaborou e estivemos juntos no lancamento do primeiro numero em Coimbra, ja la vao quase 10 anos. E' uma senhora excentrica... nada contra mas desculpem-me a franqueza nao gosto da sua poesia.
Abracos