29 de abril de 2010

A Coisa Pública e a Privada




Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.


Uns queriam privar
da coisa pública
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente
parecesse perfumada.
Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.


Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.


Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?


O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?


— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.


Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.
.

Affonso Romano de Sant'Anna
.
.

16 comentários:

São disse...

rrss rrss

muito bom, o poema!

Obrigada por me dares a conhecer alguém que escreve assim.

Beijinhos, linda.

Bipede Implume disse...

Querida Meg
Adorei a fotografia do Jorge de Sena com o cravo.
Este poema arranha. Era essa a ideia não era?
Beijinhos.
Isabel

BAR DO BARDO disse...

Isso.

Com dor...

O Guardião disse...

É o que eu venho dizendo, ainda que duma forma menos interessante e nada poética. Não conhecia, mas gostei muito de ler.
Cumps

Meg disse...

São,

A brincar ou não, a verdade está aí. Sorrimos mas pensamos também.

Beijos para ti

Meg disse...

Isabel,
Arranha e, se pnsarmos bem, até faz sangrar. Mas é preciso, para ver se acordamos.

Um beijo, Isabel

Meg disse...

Bardo,

Com dor e muitas lágrimas.

Beijo

Meg disse...

Guardião,

É verdade, meu amigo. Há quanto tempo!
Mas parece que "isto" não vai lá, nem com poemas.

Um abraço

mdsol disse...

Boa, Meg!
:)))

Ana Tapadas disse...

Impressionante/verdadeira ironia.
Quanta verdade também!
Beijinhos

JPD disse...

Belíssimo.

Bjs

Pata Negra disse...

Público já só é um nome de jornal! Diz-se que até o governo já é propriedade da Mota-Engil e que outros tubarões tem escrituras de ministérios!
Um público abraço

Meg disse...

Mdsol,

É, não é?
Parece que foi escrito a pensar em nós!

Beijo

Meg disse...

Ana,

Este é um poeta que gosto de ler nos dias de hoje.
Porque o mal parece ser universal.

Beijinho para ti, Ana

Meg disse...

JPD,

Obrigada, amigo.

Um abraço

Meg disse...

Pata Negra,

Sabes que não me admirava nada!!!
Mota-Engil e ... as outras.
Mas vais ver que daqui a nada vamos fazer como a Espanha... fora com ministérios, administradores e gestores de empresas públicas... que mais? Só falta tirarem-nos o sub.natal e de férias como na Grécia.
Prémios? Nem pensar em tirá-los, que quem fez este "serviço" ainda há-de ter uma estátua.
Pronto!

Um abraço conformado.