25 de abril de 2010

Jorge de Sena - só dois poemas... neste 25 de Abril



1

Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou nem sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.
Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
– podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos (1) –
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de um umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.

2

De cada vez que um governo necessita de segredos,
por segurança do Estado
ou para melhor êxito
nas negociações internacionais,
é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.

Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.

Porque, se há algum segredo na vida pública
que todos não podem saber
é porque alguém, sem saber,
é o preço do negócio feito.
E se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou o fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros
e nem pagam decentemente
senão aos maus actores.

Jorge de Sena




27 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Meg

Apesar de não apreciar por aqui e além Jorge de Sena efectivamente, tu minha amiga, fazes-nos reflectir sobre as coisas e entrar dentro dos autores de forma completa.
Directo, conciso e agreste, este poema diz tudo das pessoas que hoje somos desmunidas dos valores que deviamos ter.

Abraço

Maria disse...

Excelentes e assertivos estes dois poemas de Jorge de Sena, no dia de hoje!

Um beijo e um cravo Vermelho para ti, Meg.

São disse...

De facto, esta escolha foi óptima para o dia de hoje.

Que não se perca por inteiro o espírito de Abril!

Um abraço, Compamheira.

mdsol disse...

Meg

Um abraço es+ecial neste dia de celebração tão comoven!

:)))te

utopia das palavras disse...

Não será farsa a verdade destes poemas...verdade nua! Grande Jorge de Sena!

Um beijo neste dia especial!

Meg disse...

Lídia,

Porque é preciso, mais que nunca, que as palavras sejam ditas... estas foram premonitórias.
Se Jorge de Sena soubesse como viriam a ser actuais!

Um cravo para ti

Meg disse...

Maria,

Jorge de Sena tem sempre uma palavra a dizer sobre a Liberdade... ou antes, a falta dela.
E adoro estes poemas... parece que foram escritos ontem.

Muitos cravos para ti... e não os deixes murchar deste lado.

Beijos

Meg disse...

São,

Esperemos que não, mas olha que anda quase moribundo.

Beijinhos para ti

Meg disse...

Mdsol,
Comovente para nós...
Viste o que se passou na AR esta manhã?
Onde estava a emoção? Era verde, minha amiga.

Beijinhos

Meg disse...

Ausenda,

Não era farsa quando os escrever e não é farsa nos dias de hoje, tantos anos passados.
Porque Jorge de Sena chamava os bois pelos nomes...

Beijos para ti

Agulheta disse...

Querida Meg.Me deixas-te inebriar pelas palavras de Jorge Sena,neste dia muito especial para mim.
Beijinho e cravos vermelhos deixo.
Lisa

JPD disse...

Fantásticos!
Belíssima escolha.
Bjs

jorge manuel brasil mesquita disse...

OS CRAVOS SÃO POEMAS
DE UM ÚNICO ABRIL
QUE NOS ACORDARAM TEOREMAS
SOBRE ACORDES MIL
E NOS LIBERTARAM DAS PENAS
QUE A lONGA nOITE TECEU
ÀS ALMAS NÃO PEQUENAS
A QUEM TUDO ACONTECEU
DESDE O SONHO IRREAL
AO REAL DO APARENTE
DESDE A VIDA CORAL
AO CORO ARDENTE
DE QUEM TUDO NOS CANTOU
O QUE O NADA NOS CONTOU.

nINGUÉM (jORGE mANUEL bRASIL mESQUITA)

26/04/2010 - 13h45 - bIBLIOTECA nACIONAL

ETPLURIBUSEPITAPHIUS.BLOGSPOT.COM

Nydia Bonetti disse...

Meg, sempre certeira. Teus posts nos ajudam a viver. Beijo, boa semana.

Pata Negra disse...

Abril canto e sempre
por demais que novos ventos se alevantem de rumo a falsas índias
Abril é sempre voz
Maior que o pensamento Abril não morre
Virão mais cinco e muitos mais virão
Fazer de Maio cantiga
Fazer de Abril canção
Amiga canto e sempre

Meg disse...

Lisa,

Para tantos de nós, minha amiga!

Beijinho para ti

Meg disse...

Caro JPD,

Sempre presente, sempre estimulantes as tuas palavras e presença.

Muito obrigada

Um abraço

Meg disse...

jorge manuel brasil mesquita,

Bem vindo a este espaço e muito obrigada pelas suas palavras de Abril.

Um abraço

Meg disse...

Nydia,

Mais o Jorge de Sena com as suas premonitórias palavras.

Um beijo, Nydia.

Meg disse...

Querido Pata Negra,

...por demais que novos ventos se alevantem de rumo a falsas índias
...
Outro candidato poeta?
Pois cantemos... e sempre.
Eu acompanho-te com o maior entusiasmo.

Unidos num abraço recalcitrante

Ana Tapadas disse...

Meg:
Jorge de Sena, esse maravilhoso expatriado, é um dos meus Mestres preferidos!
Grandes verdades.
Beijinhos

zef disse...

Viva, Meg.
Chego só agora. Não fará mal: há dias que não acabam.
Um abraço

Zé Povinho disse...

Trabalhei no 25 da Abril, porque a minha actividade assim o exige, mas não me esqueci do dia, do seu significado para os portugueses, e a sua simbologia. Jorge de Sena acertou nas palavras destes dois poemas.
Abraço do Zé

Meg disse...

Ana,

Foram palavras tristemente certas.

Beijinho

Meg disse...

Zef,

Todos os dias são dias para se saber dos amigos de sempre.
Sabes que és muito bem vindo.

Um abraço para ti.

Meg disse...

Zé,

Então trabalhámos os dois. Mas, como tu, também tive bem presente o dia 25 - e o 26, lá onde tu sabes, no Empório - onde, à falta de televisão, a situação começou por ser muito confusa. E depois tudo o que se seguiu... até HOJE!
Triste, Zé!

Um abraço

BAR DO BARDO disse...

"Hei-de ser tudo, não o sendo."

A sociedade da representação desnudou-se com esse primor de verso.

Beijo, Meg!