2 de maio de 2010

Segredo




Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas terras do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento
a música da chuva nas janelas
sob o frio de Fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração

Fernando Pinto do Amaral
Às Cegas, 1997



Fernando Pinto do Amaral, poeta e crítico literário, nasceu em Lisboa a 12 de Maio de 1960.
Frequentou a Faculdade de Medicina, da Universidade de Lisboa, desistindo a meio do curso para optar mais tarde pelas Letras.
É, desde 1987, professor da Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa. Colaborou em revistas como Ler, A Phala, Colóquio/Letras e o jornal Público.
Pela tradução de As Flores do Mal, de Baudelaire, foi-lhe atribuído o Prémio Pen Club e o Prémio da Associação Portuguesa de Tradutores e Poemas Saturnianos de Verlaine. A ele se deve também a tradução de toda a obra do argentino Jorge Luis Borges.
Entre outras obras, publicou Acédia (1990, Poesia), A Escada de Jacob (1993, Poesia), Às Cegas (1997, Poesia), Mosaico Fluido — Modernidade e Pós-Modernidade na Poesia Portuguesa Mais Recente (1991, Prémio de Ensaio Pen Club), Na Órbita de Saturno (1992, Ensaio) e Obra Poética (2000).
Editou ainda o livro de poemas Pena Suspensa (2004) e o conjunto de contos Área de Serviço e Outras Histórias de Amor (2006).


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17 comentários:

Mirse Maria disse...

Belíssimo, Fernando!

Morrer à espera de um sonho, é quase uma prece.


Parabéns, poeta!

Abraços

Mirse

padeirinha disse...

Sem amor e sonho, estamos mortos.
Já conhece a revista Inútil? Saiu o Nº 2, dê uma vista de olhos. Esta segunda é sobre o Tempo. A terceira será sobre a pele.

vbm disse...

Excelente, o Pinto Amaral!

São disse...

Foi bom ter conhecido este belo poema e to agradeço.

Uma seman bem feliz, linda.

Bipede Implume disse...

Querida Meg
Grande lirismo. Gosto muito quando um poema de amor se torna uma obra de arte. E saber escolhe-los, como o fizeste.
Beijinhos
Isabel

O Guardião disse...

Já conhecia o autor, mais oelas traduções.
Boa escolha.
Cumps

São disse...

Tudo bem, amiga?

Abraço.

JPD disse...

Conheço muito mal a poesia do FPA.
Mas gostei deste poema.

Há uma antologia em curso neste blogue que muito prezo.

Li o Verão passado um romance dele.

Bjs

Meg disse...

Mirse,

Bem vinda, amiga!

Uma prece, sim! De um grande poeta.

Beijos

Meg disse...

Padeirinha,

Enquanto sonharmos...

Já consultei a Inútil, (tenho-a no Facebook) mas gostava de saber onde a posso comprar cá no Algarve... ou se posso assinar.

Um abraço

Meg disse...

Vasco,

Sou da mesma opinião.
Obrigada pela tua presença aqui, meu amigo.

Um abraço

Meg disse...

São,

Não é muito divulgado nos blogs. Aqui terá sempre um lugar especial.

Beijos, amiga

Meg disse...

Bipede Implume

Com poetas como FPA a escolha é fácil, Isabel.
Gosto de tudo o que escreve...

Beijinho

Meg disse...

Guardião,

Acredito, não anda muito por aqui o poeta.

Um abraço

Meg disse...

São,

Só muito trabalho, minha amiga.
O meu carinho pelo teu cuidado.

Beijinhos para ti, São

Meg disse...

Caro JPD,

Muito obrigada, mais uma vez, pelas tuas palavras, apesar da minha falta de assiduidade por aqui - o trabalho é muito e o tempo é escasso.
Um grande abraço

Fatima disse...

Seja bem vinda Meg e fique sempre muito a vontade!
Bjs.