11 de maio de 2010

Este cansaço...




O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.


Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...


E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...


Álvaro de Campos, in "Poemas"
[Fernando Pessoa


10 comentários:

Ana Tapadas disse...

Meg:
Responderia bem ao meu estado, o poema de Pessoa, mas não me detenho nele (já me detive vezes sem conta) e fascino-me pela imagem que escolheste: óptima!
Assim, amiga, vençamos o cansaço,até porque não temos outro remédio.
:)
bjs

Mar Arável disse...

Cuidado

ele anda por aí

São disse...

O poema e a imagem estão perfeitamente condizentes entre si e, parece-me, com a maioria dos portugueses.

Beijinhos, linda.

Pata Negra disse...

"Para eles a média entre tudo e nada" - Mas no tempo do Pessoa
já havia a cerveja média? Bebam vinho, porra! Não entre tudo e nada mas só ao almoço!
Eu estava cansado, mas depois deste poema senti um alívio...
Estou cansado mas não penso nisso! Ainda tenho forças para partir os ditos a estes cabrões!
Chega de poesia nos livros, a poesia ao Poder!
Um abraço que nem posso

Maria João disse...

Mas porque nenhum corpo de vida, permanece eternamente inerte... levantemo-nos pois, que ainda nos falta muita caminho para percorrer e, antes fazê-lo cantando e chorando do que não sentindo nada, para além do cansaço.
Que nunca em nenhum dia, fique uma página só por escrever, do livro da nossa vida!

Ele não nos pode vencer, Meg!

Um beijinho muito grande

Zé Povinho disse...

Cansado como o poeta, mas disposto a lutar contra a adversidade.
Abraço do Zé

O Guardião disse...

Uns nada querem, outros querem o impossível...
Uns lutam por um mundo melhor, outros desistiram já de lutar.
Cumps

mdsol disse...

Entendo esta tua escolha. Já uma vez publiquei este poema. Mas, há que seguir...
:)))

padeirinha disse...

lindo!

Marisa Queiroz disse...

Amo o Fernando Pessoa de paixão e ...não me canso dele, rsss. Querida Meg, que lindo seu blog. Parabéns e seja bem vinda aos meus escritos. Um beijo