26 de março de 2009

A Vida Bate

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Cabeça - Amadeu de Souza-Cardoso
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A vida bate
Não se trata do poema e sim do homem e sua vida - a mentida, a ferida, a consentida vida já ganha e já perdida e ganha outra vez. Não se trata do poema e sim da fome de vida,o sôfrego pulsar entre constelações e embrulhos, entre engulhos. Alguns viajam, vão a Nova York, a Santiago do Chile. Outros ficam mesmo na Rua da Alfândega, detrás de balcões e de guichês. Todos te buscam, facho de vida, escuro e claro, que é mais que a água na grama que o banho no mar, que o beijo na boca, mais que a paixão na cama. Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns te acham e te perdem. Outros te acham e não te reconhecem e há os que se perdem por te achar, ó desatino ó verdade, ó fome de vida! O amor é difícil mas pode luzir em qualquer ponto da cidade. E estamos na cidade sob as nuvens e entre as águas azuis. A cidade. Vista do alto ela é fabril e imaginária, se entrega inteira como se estivesse pronta. Vista do alto, com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém. Mas vista de perto,revela o seu túrbido presente, sua carnadura de pânico: as pessoas que vão e vêm que entram e saem, que passam sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro sangue urbano movido a juros. São pessoas que passam sem falar e estão cheias de vozes e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana? Onde escondeste o verde clarão dos dias? Onde escondeste a vida que em teu olhar se apaga mal se acende? E passamos carregados de flores sufocadas. Mas, dentro, no coração, eu sei, a vida bate. Subterraneamente, a vida bate. Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi, sob as penas da lei, em teu pulso, a vida bate. E é essa clandestina esperança misturada ao sal do mar que me sustenta esta tarde debruçado à janela de meu quarto em Ipanema na América Latina. Ferreira Gullar
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Nascido em São Luis do Maranhão, em 1930, Ferreira Gullar, procurou apontar na sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro.
. De uma forma precisa e profundamente poética traçou rumos e participou activamente das mudanças políticas e sociais brasileiras, o que o levou à prisão juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968 e posteriormente ao exílio em 1971 .
. Poeta, crítico, teatrólogo e intelectual, Ferreira Gullar entra para a história da literatura como um dos maiores expoentes e influenciadores de toda uma geração de artistas dos mais diversos segmentos das artes brasileiras.
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44 comentários:

O Guardião disse...

Quando me deparei com Amadeu, logo vi que não sou só eu que perco tempo com a sua pintura e os seus desenhos. Hoje deambulei por obras de Amadeo e de Kandinsky, que pouco terão em comum, mas que me agradam, sei la´porquê...
Cumps

lupussignatus disse...

vibra

em

nós


[que se

des.tecem]

Moacy Cirne disse...

Gullar é um dos nossos grandes poetas. E assim tem sido desde "A luta corporal", de 1954.

Um beijo
Um cheiro

Mar Arável disse...

Boa memória

para todos os amanhãs

Nydia Bonetti disse...

A vida bate... E é preciso sentir com o coração, pois as cabeças, atordoadas já não pensam.
Belo post, Meg.
Um beijo

Maria disse...

Descobri Gullar há relativamente pouco tempo, e conheço pouco dele. Mas o que conheço é suficiente para poder dizer que é um grande poeta. Gosto dele.
Obrigada, Meg.

Beijos

Meg disse...

Guardião

Pelo que dizes, coincidimos nos gostos...
E não é de certeza uma perda de tempo.

Um abraço

Meg disse...

Lupussignatus,

É assim mesmo...

Um abraço

Meg disse...

Moacy,

Calco sob os pés sórdidos o mito
que os céus segura - e sobre um caos me assento.


O Rei Vai Nu também está para breve, meu caro.

Um cheiro

Meg disse...

Mar Arável,

Para sempre, caro amigo.

Um abraço

Meg disse...

Nýdia,

Temos de parar para pensar com o coração, sim. Porque o caos está a instalar-se.

Beijo

Meg disse...

Maria,

Ferreira Gullar é um dos grandes vultos da literatura brasileira.
Tem poemas maravilhosos.

Um beijo deste lado

Bipede Implume disse...

Uma das coisas boas dos blogues é este intercâmbio de boa poesia.
Ficamos, de certeza, mais ricos com este conhecimento.Isto a propósito deste novo poeta(novo para mim) de que gostei muito.
Enquanto "em teu pulso, a vida bate" bate também "a clandestina esperança". Genial.
Bom fim de semana, amiga.
Beiinhos.

Mariazita disse...

Querida Meg
Ontem à noite estive aqui e escrevi dois comentários, quer dizer, duas vezes. Quando cliquei em publicar apareceu uma janela que dizia qq coisa do género: o blogger não está disponível, ou qq coisa parecida...nunca me tinha acontecido. Esperemos que agora consiga comentar.

Gostei muito deste poema de Ferreira Gullar.
Não conhecia nem o poeta nem o poema.
Gosto quando é assim; fica-se com maior conhecimento.
E despertaste-me a curiosidade para conhecer o poeta, pois achei o poema muito bom.
Obrigada pela partilha.

Beijinhos
Mariazita

Agulheta disse...

Meg! Gostei de ler e não conhecia este poeta escritor,obrigada pela partilha,que se enquadra na pintura da foto.
Beijinho tudo de bom bfs

tinta permanente disse...

Excelente poema (que desconhecia).
Gostei!

abraços!

Papoila disse...

Querida Meg:
Duas escolhad perfeitas. Amadeu e Gullar...
"Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio? És Francisco? És Mariana?"
Beijos

Beijos

Meg disse...

Isabel,

Ferreita Gullar é um dos maiores vultos da literatura brasileira e do nosso idioma.
Não é muito divulgado por cá, realmente.
Por isso o trouxe aqui.

Um beijo

Meg disse...

Mariazita,
Sei que o blogger esteve "fora de serviço" ontem, durante algum tempo, deves ter estado aqui nessa lapso de tempo.
Quanto ao Ferreira Gullar, vais ver que vais gostar... é um grande
Poeta.

Um beijo

Meg disse...

Lisa,

Ainda bem que gostaste... e não és a única a desconhecer o Ferreira Gullar.
Ele virá cá mais vezes, vais ver!

Um beijo

Meg disse...

Tinta Permanente,

É um grande Poeta, o Ferreira Gullar.

Um abraço

Meg disse...

Papoila,

Gullar e Amadeo coincidiram aqui, dois grandes mestres, cada um em sua área.

Beijos

joão disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
paginadora disse...

Outro poeta que não conhecia.
Obrigada querida Meg por trazeres até nós palavras tão belas.
"A vida bate" é certo.
Alguns sentem o seu pulsar vibrante, outros não infelizmente.
Vir visitar-te faz-me bem.
Beijinhos

Marco Ferreira disse...

Bom fim de semana.

marinheiroaguadoce a navegar

Izinha disse...

Linda homenagem, parabéns.

bjos e ótimo fds prá vc!

Filoxera disse...

Não conhecia, mas adorei.
Beijos.

duarte disse...

uma multidão de sensações barulhenta...que por vez ensurdesse, e por fim nos isola.
outra multidão que nos leva...empolga
que nos dita acções, que nos pertençe e onde podemos pertencer.
dilemas?...temos muitos.é uma riqueza.
abraço do vale

Luisa disse...

É um texto lindíssimo sobre a procura da Felicidade pelo homem, seja lá onde estiver.

tulipa disse...

Quero dizer que, estive junto à Tânia nos seus últimos minutos de vida; digo-te que ela partiu em Paz, muito calmamente a alma dela voou para junto de seus Avós e Amigos que já partiram.
Acabou-se o sofrimento.
Disse-lhe isso tudo ao ouvido, além de outras coisas. Dei-lhe muitos beijinhos e fiz-lhe festinhas e, ainda tenho o cheiro dela nas minhas mãos, no meu rosto; aquele cheiro dos cremes que usavam para a massajar diariamente, várias vezes ao dia. Saí de junto dela por volta das 18h 40m, e ela ficou com uma expressão doce no rosto.
Agora, ela precisa que rezemos pela alma dela.
As últimas pessoas que estiveram com ela, foi o namorado que saiu uns 30 minutos antes e eu fiquei junto dela, era algo que já tinha pedido a Deus, que na hora da partida, ela não estivesse só, sem alguém que a amasse e Deus fez-me a vontade.

TÂNIA DESCANSA EM PAZ MEU ANJO.

Meg disse...

Amiga Paginadora,

Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.

É isso mesmo, minha amiga.
Obrigada pelas tuas palavras.

Um beijo

Meg disse...

Marco,

Obrigada. Bom fim de semana para ti também.

Um abraço

Meg disse...

Izinha,

Seja benvinda a este espaço.
Muito obrigada.
E bom fim de semana para si também.

Meg disse...

Filoxera,

Ferreira Gullar é um dos maiores vultos da literatura, no Brasil.
Aqui não é muito divulgado.

Um beijo

Meg disse...

Duarte,

Este poema é realmente como uma viagem atribulada... mas acaba bem.

E sobre a tua net, passei pelo mesmo com a Vodafone...apanhei cada susto!
Agora estou satisfeita com o MEO, com tráfego ilimitado.

Um abraço

Meg disse...

Luísa,

E é mesmo, em qualquer parte do mundo.

Um beijo

Meg disse...

Tulipa,

Depois de ler o que aqui escreveste, resta-me um profundo silêncio perante a tua dor.
Um abraço comovido

Menina do Rio disse...

Grande Ferreira Goulart! Um poema bem realistico.
Meg querida, desjo que tenhas um ótimo final de semana.
Um beijo pra ti

utopia das palavras disse...

Obrigada por me mostrares um grande poema. Não o conhecia!!!!

Um beijo

SILÊNCIO CULPADO disse...

Meg
A vida bate neste poema denso e intenso.
Gullar sabe quanto a vida bate assimetricamente em diferentes espaços, com desigualdade.


Abraço

Meg disse...

Menina do Rio,

E este é apenas um dos muitos e belos poemas de Ferreira Gullar.

Um beijo

Meg disse...

Utopia das Palavras

Ele, o Ferreira Gullar virá aqui mais vezes... e esta não foi a primeira. É um Poeta com letra maiúscula, mesmo.

Um abraço

Meg disse...

Silêncio Culpado,

Lídia,

E se a desigualdade é cada vez mais escandalosa!

Um abraço

romério rômulo disse...

meg:
o gullar,com seu eterno azedume,é um
poetaço,além de artista plástico e outras coisas mais.
um beijo.
romério