18 de março de 2009

Poética

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"Somos duplamente prisioneiros:
de nós mesmos e do tempo em que vivemos."
[Manuel Bandeira]
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Manuel Bandeira, por Portinari

POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente de
protocolo e manifestações de apreço no ar, diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
                   o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretario de amante
         exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneira
                            de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

55 comentários:

O Guardião disse...

Prisioneiros também de todo o controlo que a sociedade exerce sobre o indivíduo, a menos que nos libertemos dos grilhões que tolhem aquilo que reputamos de Liberdade.
Cumps

Amaral disse...

Meg
Bela escolha do poema e acima de tudo do poeta. Manuel Bandeira tem poemas lindíssimos.
Abraço

padeirinha disse...

Ora seja bem vinda! E a nova a casa ficou bem?
Gostei do que li. Penso exactamente o mesmo.Nunca seremos livres, enfim...
Mas há momentos de infinita Liberdade.

Maria Faia disse...

Não conhecia este soneto do Manuel Bandeira mas, oferece-me dizer que, a actualidade das sua palavras é tamanha!
Homens Livres e Bons Costumes precisam-se e, este é seguramente um deles.
Obrigado Amiga pelo belo momento.

Beijo Amigo,
Maria Faia

Pata Negra disse...

Estou farto do lirismo das palavras! Estou farto do povo que só diz palavrões! Já deixei de ler, por este andar qualquer dia ainda deixo de falar! Já tudo foi dito, já disseram tudo em nosso nome! Agora, não nos bastará apenas olharmos uns para os outros?!
Um abraço a ver Meg - desliga a Webcam!

Nydia Bonetti - disse...

Sempre um prazer ler Manuel Bandeira: "Todas as palavras, todas as construções, todos os rítmos..."
Manuel Bandeira e Portinari: bela escolha Meg.
beijos

Anónimo disse...

Sou um “bandeirante” convicto. Juntamente com o nosso Eugénio de Andrade, e alguns poucos mais, Manuel Bandeira foi um dos maiores nomes da poesia que se exprime em lusa língua.
Apraz-me registar a homenagem a que me associo, mau-grado encontrar-me num sítio hostil à minha pessoa… Mas a verdade não escolhe lugar ou ocasião e não teme pedras.
(Caí hoje aqui por via indirecta. Perdão.)
jl

Carminda Pinho disse...

Todos os dias tento libertar-me, é que estou farta de tanta coisa...

Manuel Bandeira aqui, bem recordado.

Beijos

UMA PAGINA PARA DOIS disse...

Parabéns pela escolha de um poema lindo.
Abraços

Meg disse...

Guardião,

E parece que em termos de liberdade, estamos a regredir...
Estamos fartos.

Um abraço

Meg disse...

Amaral,

Plenamente de acordo contigo, e Manuel Bandeira continua actual.

Um abraço

Meg disse...

Padeirinha

E são esses momentos de infinita liberdade que nos compensam de não sermos totalmente livres.
Nem de nós próprios.
Obrigada pelas palavras.

Um abraço

Meg disse...

Maria Faia,

É preciso tanta coisa, minha amiga!
Mas temos de esperar que o Homem mude... para melhor.

Um abraço

Meg disse...

Pata Negra,
Não, não deixes de falar... nem de escrever, que precisamos de ti.
Já desliguei, ahahahah!

Um abraço

Meg disse...

Nýdia,

Manuel Bandeira é um dos meus poetas de referência.
E Portinari está-lhe associado, infalivelmente.

Um beijo

Meg disse...

jl,

É muito sensibilizada que o vejo neste espaço em que não é de maneira nenhuma hostilizado.
Pelo contrário, e sabe porquê.
Gostava que não tivesse vindo parar aqui "por via indirecta".
E não tem que pedir perdão, a inversa é que é verdadeira, acredite.
Gostaria de voltar a vê-lo por cá... sempre e por via directa.

Aceita um abraço?

Meg disse...

Carminda,

Nós tentamos libertar-nos mas os grilhões ainda são muitos, é verdade.
Mas tentar, tentamos!

Beijo

Meg disse...

Uma Página Para Dois,

É preciso lembrar Manuel Bandeira e as suas palavras tão actuais.

Um abraço

Compulsão Diária disse...

Esse é um dos mais belos sonetos que conheço. Uma ode a liberdade na poesia. Generoso, poeta. E maravilhosa vc por citar o poema

utopia das palavras disse...

Como eu gosto deste homem!!!!

Lirismo...não só de poetas!

Beijinho

tinta permanente disse...

Lirismo é, por definição, calor, entusiasmo, afago, ternura, sentimento, poesia.
Não. Que Manuel Bandeira queira desculpar-me, definitivamente, não!

abraços!

zef disse...

Meg, sorte a minha! Em voo para terras do sul, encontro a net em casa amiga, visito quem recalcitra e...vejo Bandeira, o que me ensina os caminhos de Pasárgada...
Um abraço(descomedido!)

UMA PAGINA PARA DOIS disse...

Hoje só estou passando para desejar um feliz dia do blogueiro,
com um final de semana cheio de amor e esperança.
Aproveito para deixar um lindo poema de Mário Quintana


Amar: Fechei os olhos para não te ver e a
minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados
desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada
nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei....
O amor é quando a gente mora um no outro.

(Mário Quintana)

Abraços:Eduardo Poisl

Meg disse...

Compulsão Diária,

Este é um dos muito belos poemas de Manuel Bandeira. E a liberdade uma procura constante. Aqui.

Um abraço

Meg disse...

Tinta Permanente,

E estás no teu direito de discordar de Manuel Bandeira ... a isso se chama liberdade.

Um abraço

Meg disse...

Zef,

A caminho de Pasárgada, aceito o abraço descomedido... com muito carinho.

Outro abraço

Meg disse...

Uma Página para Dois,

Eduardo,

Dia do blogueiro?
Confesso que não sabia.
E agradeço o belo poema de Mário Quintana.
Um bom fim de semana também para si.

Um abraço

Meg disse...

Utopia das Palavras,

Ausenda,

E não é caso para gostar? É um dos maiores poetas da nossa língua.
Bom fim de semana.

Um abraço

NAMIBIANO FERREIRA disse...

E continuam as boas escolhas... agora vindas do outro lado do Grande Mar.
Adoro Bandeira!!!

MPS disse...

Cara Meg

Eu só já peço lirismo. Qualquer um me serve. Mas reconheço o encanto de quem tem garras para a luta.

Um abraço

Meg disse...

Amigo Namibiano,

De lá ou de cá, são grandes os poetas desta língua que falamos.

Um abraço

Meg disse...

Cara MPS

Lirismo... como por vezes, precisamos tanto dele, minha amiga.

Com todo o carinho, desejo que o consiga...
FORÇA, MUITA FORÇA!!!

Um abraço

Zé Povinho disse...

Eu tenho os pés bem assentes no chão, mas continuo a curtir a utopia ou seja - um mundo melhor! Lírico? Que importa...
Bom fim-de-semana
Abraço do Zé

Peter disse...

São gostos do sr Manuel Bandeira, que eu não conheço, nem estou interessado em conhecer.

A pedido: publica algo do Mia Couto.

Bom fds

Bipede Implume disse...

Pode-se dizer que este é um poema recalcitrante.
O tema Liberdade faz-me sempre bater o coração mais forte. E não cansa nunca batalhar por ela.
Beijinhos e um bom fim de semana.

São disse...

Que gosto ter a oportunidade de lar Bandeira: obrigada!
Bom fim de semana.

Mar Arável disse...

Libertação

pois claro

mar adentro

Papoila disse...

Querida Meg:
Adoro Manuel Bandeira! Poema muito bem escolhido... é isso estamos fartos!
Beijos

Meg disse...

Amigo Zé,

Pois se não estás farto de lirismo, acho que és um felizardo!
Se não houver utopia, também não há sonhos.

Um abraço

Meg disse...

Peter,

Ok! Não te zangues com o Manuel Bandeira.
Afinal também tu és um felizardo!
E o MC está na calha para breve.

Um abraço

Meg disse...

Isabel,

E essa é uma batalha que não podemos parar.
E a Primavera... bem, parece que não está muito afoita cá para baixo.
E, como sempre, são lindas as tuas imagens.

Um beijo

Meg disse...

São,

Fico feliz por teres gostado deste poema do Manuel Bandeira. Até porque me parece que tem muito a ver contigo. Estarei certa?
Bom fim de semana para ti também.

Um abraço

Meg disse...

Mar Arável,

E a liberdade é um objectivo a atingir.

Um abraço

Meg disse...

Papoila,

Este é um poema bem actual, além de muito belo.

Um beijo

Mariazita disse...

Conheço um pouco Manuel Bandeira, não tanto como gostaria (o tempo não chega para tudo...), mas o suficiente para ser um poeta de que gosto imenso.

Parabéns pela escolha. É um poeta de muito mérito e vasta obra muito boa.

Bom fim de semana

Beijinhos
Mariazita

duarte disse...

hello Meg.
tenho andado com a net caprichosa.
sim de facto tb quero esse lirismo,
embora me perca de vez em quando...
abraço do vale

paginadora disse...

LINDO!!!

Amiga Meg
deitemos abaixo o lirismo bem comportado,espartilhado, alinhado, formatado e com cheiro a mofo.
Libertemo-nos dos grilhões que nos acorrentam o pensamento e deixemo-lo vaguear solto por aí.
Ousemos.
Queiramos.
E Conseguiremos.
Beijinhos

lupussignatus disse...

bandeira

que

escreve

o vento



[e per
dura


firme


sem lamento]

Meg disse...

Duarte,

A net anda muito caprichosa - talvez tenhas razão...
E não te percas, meu caro.

Um abraço

Meg disse...

Amiga Paginadora,

Como diz Manuel Bandeira...
"Não quero mais saber do lirismo que não é libertação"

Nós também não.

Um abraço

Meg disse...

Lupussignatus,

Bonitas são as tuas palavras...

Um abraço

Marco Ferreira disse...

Bom domingo.

Abraço

marinheiroaguadoce a navegar

Meg disse...

Mariazita,

Saltei inadvertidamente o teu comentário, mas aqui estou...

Eu também não conheço a obra TODA de Manuel Bandeira, mas gosto muito dos poemas que conheço dele.
Um grande poeta da nossa língua.

Um beijo

Meg disse...

Marco, Pai Babado!

Um bom domingo e uma boa semana para ti.
E viva aquele que nós sabemos!

Um abraço

romério rômulo disse...

meg:
este é um dos poemas mais marcantes do bandeira.
um beijo.
romério