26 de agosto de 2008

O que vocês não sabem e nem imaginam

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O Sol, a Lua e o Arco Íris, de Noel Langa Vocês não sabem mas todas as manhãs me preparo para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências, as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir, o vinagre para as mágoas e o cansaço que usarei mais para o fim da tarde. À hora do costume, estou no meu respeitoso emprego: o de Secretário de Informação e de Relações Públicas. Aturo pacientemente os colegas, felizes em seus ostentosos cargos, em suas mesas repletas de ofícios, os ares importantes dos chefes meticulosamente empacotados em seus fatos, a lenta e indiferente preguiça do tempo. Todas as manhãs tudo se repete. O poeta Eduardo White se despede de mim à porta de casa, agradece-me o esforço que é mantê-lo, alimentado, vestido e bebido (ele sem mover palha) me lembra o pão que devo trazer, os rebuçados para prendar o Sandro, o sorriso luzidio e feliz para a Olga, e alguma disposição da que me reste para os amigos que, mais logo, possam eventualmente aparecer. Depois, ao fim da tarde, já com as obrigações cumpridas, rumo a casa. À porta me esperam a mulher, o filho e o poeta. A todos cumprimento de igual modo. Um largo sorriso no rosto, um expresso cansaço nos olhos, para que de mim se apiedem e se esmerem no respeito, e aquele costumeiro morro de fome. Então à mesa, religiosamente comemos os quatro o jantar de três (que o poeta inconsta na ficha do agregado). Fingidamente satisfeito ensaio um largo bocejo
e do homem me dispo. Chamo pela Olga para que o pendure, junto ao resto da roupa, com aquele jeito que só ela tem de o encabidar sem o amarrotar. O poeta, visto depois e é com ele que amo, escrevo versos e faço filhos. [...] . Eduardo White . . . «««o»»»
Eduardo Costley White, escritor moçambicano, nasceu em Quelimane , a 21 de Novembro de 1963.
O poeta integrou um grupo literário que fundou, em 1984, a Revista Charrua. Junto a outros poetas, colaborou também com a Gazeta de Letras e Artes da Revista Tempo, publicação cuja importância, assim como Charrua, foi indiscutível para o desenvolvimento da literatura moçambicana.
Por intermédio desses periódicos, afirmou-se um fazer poético intimista, caracterizado pela preocupação existencial e universalizante.
Numa preocupação com as origens, Eduardo White tenta na sua poesia reflectir sobre a sua história e sobre Moçambique, numa tentativa de apagar as marcas da guerra e de dignificar a vida humana.
Para isso, escreve através de um amor diversificado que pode ser pela amada, pela terra ou mesmo pela própria poesia, sempre num tom de ternura, de onirismo, de musicalidade e, por vezes, de erotismo.
É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Publicou os seguintes livros: “Amar sobre o Índico” (1984); “Homoíne” (1987); “País de Mim” (1990; Prémio Gazeta revista Tempo); “Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1992; Prémio Nacional de Poesia); “Os Materiais de Amor Seguido de O Desafio à Tristeza” (1996); “Janela para Oriente” (1999); “Dormir com Deus e um Navio na Língua” (2001; bilingue português/inglês; Prémio Consagração Rui de Noronha); “As Falas do Escorpião (novela; 2002); “O Homem a Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004).
A poesia de Eduardo Costley White está exposta no museu Val-du-Marne em Paris desde 1989. Em 2001 foi considerado em Moçambique a figura literária do ano.
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"Podem dizer-me ou insultar-me a cor que visto e, no entanto, eu amo-a, desde a origem mistura com que me pensou e talhou até a estas inacabadas sempre cores múltiplas com as quais vou estando aqui.
Sou um arco íris por vocação e não me cinjo nem à ardósia e nem ao giz, e são minhas as geografias dos lugares que desconheço mas que pelas veias respiro."
(na Carta a alguns menos esclarecidos sobre o meu pardo mestiço Eduardo White)
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«««««o»»»»»
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38 comentários:

Moacy Cirne disse...

A poesia de origem africana me surpreende a cada novo dia. Devo reconhecer: preciso conhecê-la mais e mais. E mais. Beijos, queijos & cheiros.

Maria disse...

Mais um exelente poeta que me dás a conhecer.
Obrigada, Meg!

Beijos

Filoxera disse...

Adorei. Comecei, embalada, a ler e devorei. Até me aborreci quando, ao terminar a leitura, sorrindo de satisfação, vi esta ser interrompida pelo chamamento do meu filho...
Original, lindo.
Não conheço o autor, mas estarei atenta.

(Desde que mudáste o cursor para o coração, tenho tido dificuldade ema aceder aos comentários).

Beijos.

Peter disse...

E assim nos vais dando notícias de terras por onde muitos de nós andámos.

P.S. - Obrigado pelas fotos. Luanda está um "espanto"!

Maria Faia disse...

Querida Amiga,

Esta é mais uma maravilha da criação que nos dás a conhecer.
Não conhecia o poeta moçambicano Eduardo Withe mas tu, com a tua incessante generosidade, permitiste-me esse prazer. Obrigado Amiga.

Aproveito para te dizer que adorei também a música. Simplesmente deliciosa...

Beijo amigo,
Maria Faia

C Valente disse...

e que poesia
Saudações amigas

Zé Povinho disse...

Mais um patrício de quem só conhecia o nome, de alguma leitura de jornal ou revista. Nunca comparo estilos, mas registo que os autores moçambicanos "constroem vocabulários próprios", um pouco como já se tinha visto com o Mia Couto.
Abraço do Zé

A paginadora disse...

E vai mais um MEG. Mais um poeta de cuja existência eu nada sabia. O poema é lindo assim como a imagem de Noel Langa. É linda também a imagem poética de como o homem se pode despir da sua condição humana e da sua vida rotineira e banal e transformar-se num poeta que ama, escreve versos e faz filhos. Definitivamente Eduardo White é um nome a reter!
Um grande beijinho

Meg disse...

Caro Moacy,
Sua presença me deixa sempre muito honrada, meu caro.
Eu apenas mostro aquilo que mais me está presente e que a maioria das pessoas desconhece. E faço-o porque acho que estes poetas merecem ser mais divulgados e acarinhados.
E retribuo com humor os beijos queijos & cheiros.
Que maravilha!

Meg disse...

Maria,
Este poeta é daqueles que irias gostar mesmo de conhecer... é dos que chama os bois pelos nomes, minha amiga.
Tanto em verso como em prosa. Adiante verás.

Beijos

Meg disse...

Filoxera,
É um poeta que não pode ser avaliado só por este poema... é rebelde, é ousado, é subversivo...
Mas isto é só uma apresentação para aguçar o apetite.

Beijos

Meg disse...

Filoxera,
Não é do cursor o problema de que falas, deve ser de outras coisas em que me meto e o pc não aguenta. Mas é só de vez em quando.
Beijos

Meg disse...

Peter,
É quase impossível fugir àquilo que me está mais próximo e com que mais me identifico.
Fiquei louca com as saudades de L.

Um abraço

Meg disse...

Maria Faia,
Minha amiga, este é um dos muitos poetas desconhecidos do grande público. Mas voltarei a ele em breve, que vale bem a pena conhecê-lo melhor.

Um abraço

Meg disse...

Amigo Valente,
Se não for a poesia para nos dar algum prazer, mesmo quando nos faz pensar em coisas sérias!
Obrigada pela visita
Um abraço

Meg disse...

Caro amigo Zé,
E Eduardo White é como Mia, também nos faz pensar em coisas sérias...
tanto em verso como em prosa.

Um abraço

Meg disse...

Minha amiga Paginadora,
É um nome a reter, sim. Porque é um poeta rebelde e que não poupa os do costume, tanto em verso como em prosa.
Mas vais encontrá-lo aqui mais vezes.

Um abraço

Carminda Pinho disse...

Meg,
teimei comigo própria, e acabei por fazer uma visita hoje, agora, aqui. E em boa hora o fiz.
Um poema lindo de um autor que não imaginava sequer que existia.
Bem hajas!
Beijos

MPS disse...

Cara Meg

De alguns poemas que li de E. White ficou-me a impressão, que agora confirmo, de ser um poeta da liberdade. E que poeta!

Já do pintor Noel Langa nada sabia, até a Meg fazer o favor de mo apresentar. Procurei um bocadinho, para saber mais, e lá encontrei África - Moçambique - às vezes em traços africanos, outras vezes inscrevendo-se nas tendências internacionais. Francamente, gostei da "mestiçagem".

Um abraço

tulipa disse...

OLÁ MEG

CONVIDO-TE para veres o post que fiz à minha cidade, dia 20 deste mês.

Muito obrigado por trazeres aqui um escritor moçambicano, da minha terra. Gostei imenso.

O dia amanheceu bem mais bonito, o dia esteve bem mais ensolarado.
Oh! Querido netinho eu acredito,
Que és um anjo de Deus que foi me dado. Eu sinto-me por Deus abençoada,
O coração da Avó está contente.
Seus bracinhos num abraço comovente,
Seu sorriso é a pureza,
Sendo o teu aniversário,
Mas fui eu que te ganhei de presente!

Bom fim de semana.
Muitos beijinhos.

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Meg, obrigado pelas suas visitas e comentarios nos meus blogs. E obrigado tambem por dar a conhecer este poeta.
Grande abraco
Namibiano

instantes e momentos disse...

muito bom, muito bom o post e o blog. Foi muito bom conhecer. Vou voltar sempre.
Maurizio

Maria disse...

tão poetico e tão real do dia a dia das pessoas :(

romério rômulo disse...

muito bom o white,meg.reafirmo o moacy cirne.e os poetas brasileiros se tornam,cada vez mais,leitores deste espaço recalcitrante.
um grande abraço aos amigos daqui.
um beijo pra você.
romério
ps.a patrícia "voz de madrugada"
já me deu notícias de lisboa.

Moacy Cirne disse...

Oi, minha cara, a partir de seu Recalcitrante editei um poema de Romério Rômulo no Balaio. Um cheiro.

samuel disse...

Bela descoberta...

"O poeta, visto depois
e é com ele que amo,
escrevo versos
e faço filhos."

É muito bonito!

Abreijos

São disse...

Obrigada por me apresentares alguém com tanto interesse.
Boa semana.

Meg disse...

Carminda,
Pois é um autor que vale a pena conhecer, como vês.
Um abraço

Meg disse...

Querida MPS,

São as minhas memórias, e na minha humilde opinião, são autores cujo trabalho merece ser divulgado.
E são tantos que espero não vos cansar.
Um abraço

Meg disse...

Tulipa,
Estive ausente uns dias, mas claro que vou passar por lá tão depressa ponha o expediente em dia.
Um abraço

Meg disse...

Caro Namibiano,
O que faço, quando faço, é com o maior empenho e carinho. Se consigo ou não, são os amigos que mo demonstram.

Um grande abraço

Meg disse...

Instantes e Momentos,
Maurízio,
Agradeço a visita e as palavras.
Um abraço

Meg disse...

Querida Maria,

Mesmo na poesia não podemos esquecer o que nos rodeia.
Um grande abraço

Meg disse...

Romério,

Sua visita me enche sempre de prazer.
Pelas suas palavras de carinho e pelas palavras que deixa aos nossos (seus) amigos.
Destaco esta resposta para que todos eles leiam a sua mensagem.

Um beijo para você também

Meg disse...

Caro Moacy,
Você já sabe, daqui é só pegar e levar... seja quem for. Mas tratando-se do meu Poeta é uma honra maior estar no Balaio Porreta.
Um cheiro para você também.

Meg disse...

Samuel,

Esta é a imagem poética do homem na sua verdadeira essência.
Abreijos

Meg disse...

São,
São as minhas escolhas para os amigos. Se gostam fico muito feliz.
Um abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
A poesia africana tem uma magia especial que parece crescer quando trazida pela tua mão.
Aqui sobressaem as raízes, o amor das coisas simples,o inconformismo perante a imensidão dum mundo onde as coisas autênticas se abafam com futilidades.
Eduardo White sai do seu papel representado, repisado e monótono para ser poeta e amar simplesmente.
Excelente.

Abraço