17 de agosto de 2008

Dialogando com as Estrelas


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"Naturalizado e residente em Luanda, nasci em Menongue
provincia do Kuando-Kubango, sul de Angola.
Desde muito cedo me habituei a ouvir vozes silenciosas no meu interior.
Desde muito cedo compreendi que tinha de colocar estas vozes no papel!"
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[Décio Bettencourt Mateus]
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Vincent van Gogh (1853-1890)La nuit étoilée Às estrelas Vou falar das moças belas Algures com um filho nos braços No rosto os traços De uma promessa não cumprida Depois do corpo usado Às estrelas Vou falar dos mutilados Não terão sido enganados? E a angústia daquelas Que debalde esperam pelos maridos Numa mata qualquer desaparecidos e esquecidos Às estrelas Vou falar das crianças famintas E gritar quantas De entre elas Morrem de fome Antes mesmo de terem um nome Às estrelas Vou falar da guerra Aqui na minha terra E perguntar se no mundo delas Também é assim Com matanças sem fim Às estrelas Vou falar das celas Em que aprisionaram a liberdade E encarceraram a felicidade Numa noite qualquer Para esquecer Às estrelas Vou pedir um passaporte Com visto para marte Em venturosas escalas Rumo ao infinito universo Deixando para trás este mundo perverso Às estrelas Vou falar com elas... Décio Bettencourt Mateus in "A Fúria do Mar" . . .

30 comentários:

Filoxera disse...

Lindo!
E maravilhosamente ilustrado, com a noite estrelada do Van Gogh, de que tanto gosto.
Beijos.

Savonarola disse...

Querida Meg,

Como sempre, quando te visito, recebo a frescura da poesia na cara.

Um abraço anarca

Carminda Pinho disse...

Meg,
tenho passado por aqui e tenho gostado tanto das partilhas que fazes connosco. Ainda passo só de fugida, porque logo há que levantar cedo.
Beijos e até já...

Zé Povinho disse...

Um retrato de uma época marcante num canto às estrelas, que nem sempre nos sorriem.
Boa semana
Abraço do Zé

Amaral disse...

Meg
Lindíssimo este poema, como tantos outros que tem publicado.
Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
Um poema impressionante. Não vou dizer mais impressionante que outros que encontro aqui mas duma profundidade que dói porque fala do mundo dorido onde a fome não apaga o sonho.
Boa ilustração com a noite estrelada de Van Gogh.
Lindo mesmo.

Abraço

Carminda Pinho disse...

Meg,
as estrelas disseram-me que passasse por aqui novamente.
E valeu a pena, este poema é de uma beleza lúcida e verdadeira. Faz doer a alma, mas não sei sei porquê, sinto nele a esperança dos dias que hão-de vir...
A pintura de Van Gogh, completa perfeitamente a poesia de Décio B. Mateus.
Um beijo

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Lindo sem duvida e verdadeiro! O Decio merece esta homenagem...

padeirinha disse...

Lindo. O pema, o quadro, a música divinal. Ainda bem que passei por aqui no meio da azáfama. Respirei fundo.

Meg disse...

Filoxera,
Obrigada por mais esta visita, e pelas palavras simpáticas que sempre deixas, bem merecidas mas pelo poeta.
Um abraço

Meg disse...

Meu amigo Savonarola

E eu fico muito feliz quando me visitas... e a poesia é dada com muito carinho.
Um abraço pró-An.

Meg disse...

Carminda,
Com pressa ou não, é sempre bom ver-te por aqui.
Até já... então!
Um abraço

Meg disse...

Meu querido Zé,
É verdade que as estrelas nem sempre nos sorriem, mas continuam lá, como as nossas memórias e as nossas preocupações.
Um abraço amigo

Meg disse...

Meu amigo Amaral

O Décio Bettencourt Mateus é convidado especial neste cantinho, um poeta não tão divulgado como merece.
Um abraço

Meg disse...

Querida Lídia,

Infelizmente, a fome será uma preocupação constante nos amigos que aqui trago, para partilhar convosco. E o Décio é um desses poetas amigos.

Um abraço

Meg disse...

Querida Carminda,

É, a fome, um mal dos nossos dias - é incrível, não é? - tem sido e vai continuar a ser um dos temas focados na poesia dos meus poetas.
Resta-nos uma pontinha de esperança, claro, senão não valia a pena...
Um abraço

Meg disse...

Caro Namibiano

Décio é um grande poeta, já um amigo, que, como outros, terão sempre aqui um lugar à disposição para os seus poemas.
Outros também, meu caro amigo...

Um abraço

Meg disse...

Querida Padeirinha,

Um grande e ignorado poeta, sim, mas não aqui.
Gostei que tivesse reparado na música...
Um abraço.

Peter disse...

Às estrelas sim, talvez elas te oiçam, porque o v/Governo esqueceu completamente o Povo.
Poema muito belo, que fala comigo, a mim que tenho 2 filhos nascidos em Luanda.

Pata Negra disse...

E as estrelas aqui tão perto, os poetas semeando palavras de dor à espera que da sementeira nasça a alegria mas depois vem outra cheia e o rio leva as palavras e eu rio:
- Ah! Ah! Ah! Não vale a pena semear versos! Ah! Ah! Não nasce nada! Plantem bungavílias!
Ah! Ah! Ah! Cuidem das videiras, das palavras não! São muito traiçoeiras! Ah! Ah! Ah!
Pronto! Não palavreio mais nada! Recalcitro um abraço e vou-me embora!

Marco Ferreira disse...

Passei apenas para "picar o ponto" e deixar um grande abraço.

marinheiroaguadoce a navegar

Decio Bettencourt Mateus disse...

Meg : em seu blog a amizade, diversidade, qualidade e bom gosto, fazem moradia, indubitavelmente. Por isso, ver seleccionados poemas de minha autoria é motivo de regozijo. Obrigado.

Um kandandu (abraço)

Décio Bettencourt Mateus

O Guardião disse...

Porque as estrelas continuam a brilhar, apesar das misérias que vamos conhecendo, a esperança também não "morre".
Cumps

Moacy Cirne disse...

Dialogar com as estrelas, dialogar com a poesia, dialogar com Van Gogh... Dialogar com vozes silenciosas.

Meg disse...

Amigo Peter,
É verdade... esqueceu mesmo.
Os nossos filhos.
Mas ainda há quem esteja atento.
Um abraço

Meg disse...

Querido Pata Negra,
É sempre um prazer ter-te aqui a recalcitrar. Estás no sítio certo.
E com poetas.
Um grande abraço

Meg disse...

Amigo Marco

A tua passagem por aqui é um sinal de amizade que agradeço sempre.
Agosto está a acabar, meu amigo.
Um grande abraço

Meg disse...

Amigo Décio,
Os seus poemas têm lugar cativo neste espaço, sempre que se proporcione. E com muita amizade e cumplicidade.
Um kandantu da meg

Meg disse...

Amigo Guardião,

Enquanto dialogamos com as estrelas, a esperança não morre, mas infelizmente a miséria, desta vez na justiça, não pára.
Um abraço

Meg disse...

Meu caro Moacy,

Mesmo com as estrelas o diálogo é de apreensão. Mas insistimos, não desistimos.
Um cheiro para si
e um abraço