7 de fevereiro de 2010

Quem diria!!!





Saber viver é vender a alma ao diabo



Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.


Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.


Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»


(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)


Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...


Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?


Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!


Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.


Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!


E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...


Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
morrer?


Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!


Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...


Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!


Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...



Alexandre O´Neill
.
.
.

27 comentários:

JPD disse...

O O'Neill é dos poetas que mais aprecio.

Iria comigo na short list se tivesse de abandonar o meu reduto.

Belissima escolha

Saudações

Agulheta disse...

Meg. Grande poema e grande poeta que muito gosto,não conhecia este poema dele.
Beijinho e b semana Lisa

Mar Arável disse...

Sempre boas memórias

no teu espaço

fertilíssimo

Bjs

Meg disse...

Caro JPD

Eu faria exactamente a mesma coisa.
Muito obrigada.

Uma boa semana.
Um abraço

Meg disse...

Lisa,

Quanto mais olho para o que se passa à minha volta, mais me lembro do O'Neil.
Boa semana para ti também.

Beijo

Meg disse...

Mar Arável,

Essas palavras vindas de ti, são um estímulo.

Um grande abraço

José Augusto Nozes Pires disse...

Grande escolha, ó Meg!

Anónimo disse...

nem mais!
nem deus nem diabo... só "humanos"!
abraço do vale

Meg disse...

Obrigada, Zé!

Meg disse...

Duarte!

Agora anónimo?
Gosto de te saber de volta, fazes falta, Duarte!

Um abraço

São disse...

Acreditas que acabei de editar Alexandre para o próximo post?!

Foi telepatia, rrsss

Um grande abraço, zogia.

Bipede Implume disse...

Querida Meg
O O'Neill é genial. Retrata muito bem a alma lusitana ou de algumas almas lusitanas.
Boa semana, amiga.
Beijinhos.
Isabel

Meg disse...

São,

Claro que acredito...
O'Neil tem de ser lembrado mais do que nunca, para chamar os bois pelos nomes.

Lá irei vê-lo.

Beijinho para ti

Meg disse...

Isabel,

Partilhamos o mesmo sentimento por O'Neil.
Ele é fantástico!

Um beijo para ti

O Guardião disse...

Não conhecia este poema mas expressa de maneira maravilhosa o que eu penso sobre o tema: há quem abdique de muito apenas para estar bem na vida.
Cumps

Ana Tapadas disse...

Incomparável O'Neill! É assim mesmo!
Fazes sempre escolhas óptimas e adequadas ao momento.
beijinhos

Maria João disse...

Revejo neste poema, como em tantos de O'Neill, esta revolta crescente que se agiganta dia a dia.

"Todavia o manguito será por muito tempo o mais económico dos gestos!"

O quanto isto é verdade...

Um beijinho Meg, e... obrigada pelas tuas palavras!!

Meg disse...

Guardião,

E não é, de certa forma, o retrato daquilo a que estamos a assistir neste momento em Portugal?
Pois é, meu amigo!

Um abraço

Meg disse...

Ana,

A poesia e a voz dos poetas também podem ser uma arma. Então usemo-la, enquanto pudermos.

Beijo para ti, Ana!

Meg disse...

Maria João,

É de revolta mesmo que se trata.
Em crescendo. Mas também impotência e desânimo.
Quem melhor que O'Neil para dizer o que sinto?

Beijinho para ti, Maria João.

António Gallobar disse...

Um maravilhoso poema, sublime O´neill

Muitos parabens pela escolha

Beijinho

Zé Povinho disse...

Por um prato de lentilhas há quem venda a alma em troca de poder e/ou benefícios económicos.
O'Neil era um poeta atento à natureza dos homens.
Abraço do Zé

Meg disse...

António Gallobar,

Bem vindo a este espaço e muito obrigada pelas suas palavras.
Esta é uma casa de amigos...espero que se sinta bem aqui.

Cumps

Meg disse...

Meu caro Zé,

Lentilhas, robalos, eles não são esquisitos, meu amigo!
Vendem a alma por qualquer coisa.

Um abraço

utopia das palavras disse...

A eloquência e a mordacidade deste homem, elevam-no ao patamar de um poeta...Maior!
Poema/espelho da nossa sociedadezinha!

Beijo, de tão perto, Meg

padeirinha disse...

Fantástico!

BAR DO BARDO disse...

Simplesmente ótimo. Gostaria de escrever assim.