6 de junho de 2009

Novos tempos.... ainda as crianças

. . A Bola O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse "Legal!". Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando não gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa. - Como e que liga? - perguntou. - Como, como é que liga? Não se liga. O garoto procurou dentro do papel de embrulho. - Não tem manual de instrução? O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros. - Não precisa manual de instrução. - O que é que ela faz?- Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela. - O quê?- Controla, chuta... - Ah, então é uma bola. - Claro que é uma bola. - Uma bola, bola. Uma bola mesmo. - Você pensou que fosse o quê? - Nada, não.O garoto agradeceu, disse "Legal" de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina. O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto. - Filho, olha. O garoto disse "Legal" mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa idéia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar. Fernando Veríssimo . . .

18 comentários:

Janaina Amado disse...

Este texto do Veríssimo é uma delícia! Com muita graça trata de um assunto sério.

Agulheta disse...

Meg. No texto que li nos transmite muita coisa dos meninos actuais?Quem liga a coisas simples se agora lhes é metido à força as máquinas de guerra (jogos) pelos olhos dentro, um dia se calhar bem perto,vão querer uma bola de trapo e não a terão,tal é a propoção que as coisas estão a tomar.
Beijinho terno de amizade,na proxima semana eu escrevo no blog,estes dias estou em descanço do espaço.

Lisa

Maria disse...

Não conhecia este texto, Meg.
Mas sem dúvida que deveria ser um exercício de reflexão para todos os pais e professores... afinal as crianças são apenas o produto do que fazemos delas...

Um beijo

commonsense disse...

Acho que esta história é triste

Carminda Pinho disse...

Novos tempos, novas formas de diversão. Até aqui, nada de grave.
O grave, é os pais demitirem-se da sua qualidade de educadores.

Bom domingo, Meg.
Beijos

mdsol disse...

Que texto interessante, Meg

:))

Sonia Schmorantz disse...

"Conte a sua história ao vento,
Cante aos mares para os muitos marujos;
cujos olhos são faróis sujos e sem brilho.
Escreva no asfalto com sangue,
Grite bem alto a sua história antes que ela seja varrida na manhã seguinte pelos garis.
Abra seu peito em direção dos canhões,
Suba nos tanques de Pequim,
Derrube os muros de Berlim,
Destrua as catedrais de Paris.
Defenda a sua palavra,
A vida não vale nada se você não
viver uma boa história pra contar."
(Pedro Bial)

Na impossibilidade de entrar em detalhes, como eu gostaria imensamente como todos amigos que tenho, venho trazer um pouco de poesia e desejar que seu domingo, sua nova semana seja de mil cores, que tenhas muitas alegrias!

Um abraço

Sônia

Meg disse...

Janaína,

É realmente um assunto sério... mais do que parece.
Alguém escreveu que caminhamos para uma sociedade de isolamento, será esta?

Um beijo, Janaína.

Meg disse...

Lisa,

Tenho netos e sei, por experiência própria o dano que determinados jogos podem ter, e como foi necessário implementar uma disciplina e uma mudança radical na utilização do computador. Com sucesso, felizmente.
Quanto ao teu , aproveita-o bem... eu não posso dizer o mesmo, Lisa...

nos próximos três meses os meus dias começam às 10 da manhã, e com alguns intervalos, prolongam-se até à meia noite. É a época alta do turismo.
Por isso aproveito para, mais uma vez, deixar aqui o meu apelo à compreensão para a ausência nos vossos blogs.
Tentarei visitar-vos pelo menos uma vez por semana
.

Para ti, Lisa, tabém uma boa semana.

Beijo

Meg disse...

Maria,

É um texto que nos faz pensar e adaptar aos novos tempos...
E aos pais e educadores é pedida muita atenção... que nem tudo se perca.

Um beijo, Maria

Meg disse...

Commonsense,

É realmente um texto que nos traz alguma tristeza... e saudade dum tempo que já não volta.

Um abraço

Meg disse...

Carminda,

Aí é que está... é que não pode ser nem tanto ao mar nem tanto à terra... é preciso que o tempo de infância não se resuma a um teclado de computador.

Um bom Domingo para ti.

Beijo

Meg disse...

Mdsol,

É um texto que levanta dúvidas... será isto o que desejamos para as nossas crianças?

Um bom Domingo para ti.

Um beijo

Meg disse...

Sonia,

Muito obrigada pela poesia que trouxeste... ela é fundamental.
E para ti, uma boa semana igualmente feliz.

Um beijo

Mariazita disse...

Tens uma lembrancinha na Casa da Mariquinhas.
Queres ir buscar?

Feliz Domingo

Beijinhos
Mariazita

De Amor e de Terra disse...

Sinais do tempo, minha querida!

Bj

Maria Mamede

padeirinha disse...

Texto que dói: o vazio.

Eduardo Leal disse...

Apesar de tudo, as consolas, a net, a verdade e que a magia das coisas mais simples continua a ser o mais importante... As saudades que eu tenho dos toques na bola que nunca cheguei a dar com o meu Pai...