4 de dezembro de 2009

A Implosão da Mentira

.
.


Fragmento 1.
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
 
 
Fragmento 2.
                                                             Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente.Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre.Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

Affonso Romano de Sant'Anna


30 comentários:

Luís Neves disse...

Nem sei sequer se mentem ou se são eles próprios a mentira, já que a mentira nem sequer sabe que mente!
Estão sempre a defender a honra e são perversos, estão sempre ao serviço do país a troco de tanto nada, estão sempre ao serviço da democracia indignados com indignados com a crítica, estão sempre a encher-me a cabeça! Porra! Já não posso com eles! Afasta-os Satanás! Afasta-a Belzebu! A Mentira em que se tornou este país!
Um abraço em dia não

Ana Tapadas disse...

Costumo dizer: ANTES DE TUDO A VERDADE.
Digo-o sempre, porque é um lema desde a leitura adolescente de Antero de Quental. Mas este poema põe bem a nu a realidade em que nos afogamos diariamente.
Excelente.
Beijo

Maria João disse...

Meg

Mentir tornou-se usual. Falar verdade é expor-se demasiado é dar mais do que o merecido, é ser-se nu e cru, desprotegido.
Mentir, tornou-se a norma, aquilo que é normal.
A verdade só faz sentido, para quem é realmente, inteiro, tal e qual. Mas isso é coisa rara, hoje em dia. Coisa de gente que vive com Moral.

Gostei imenso do poema
Um beijinho

José Augusto Nozes Pires disse...

Grande poema!

padeirinha disse...

Verdade.Dura, justiçeira, mas incómoda...

PS: tenho tido dificuldade em postar aqui e tb num sr.chamado Valente.

Maria disse...

Lembraste-me um certo 'poema da mente' que tem viajado por aí no mail...

:)))

Beijo, deste lado, sempre

Sonia Schmorantz disse...

Uma mesma mentira contada cem vezes acaba virando verdade, e é aí que mora o perigo...
beijos, lindo final de semana

Meg disse...

Luís Neves,

Bem vindo a este espaço, onde espero se sinta bem.

No seu comentário há qualquer coisa que me é familiar... estarei enganada?
O seu blog não está acessível...

Quanto aos mentirosos, não são uma mentira, é bem verdadeira a sua existência... e crescem como cogumelos.

Um abraço curioso

Meg disse...

Ana,
A Verdade, minha amiga!
Onde anda ela?
Vivemos de tanta mentira que ser verdadeiro é quase uma ofensa.
É triste, mas esta sim, é a verdade.

Bom fim de semana

Beijinho

Meg disse...

Maria João,

Disseste e bem que falar verdade nos deixa desprotegidos nestes tempos que vivemos.
A mentira, a farsa está instalada, muitas vezes ao nosso lado, sem o sabermos.

Bom fim de semana.

Beijo

Meg disse...

Zé,

É um poema grande e um Grande Poema, tens razão.

Bom fim de semana para ti.

Beijo

Meg disse...

Padeirinha,

Hoje a verdade é coisa rara, minha amiga.
Nua e crua, como deve ser, pode ser um entrave para se sobreviver neste mundo cão.

Obrigada pela chamada de atenção... penso já ter resolvido o problema que várias pessoas me fizeram chegar.
Dei uma volta no blog, incluindo o tamanho da pôr do sol e parece que resultou.

Bom fim de semana.

Um abraço

Meg disse...

Maria,

Esse de que falas ainda não me chegou... este é um grande das letras brasileiras. E lá como cá, as coisas são tão parecidas!

Um bom fim de semana.

Daqui, um beijinho

Meg disse...

Sonia,

O perigo já está connosco, já nos rodeia... infelizmente.
A mentira tornou-se um modo de vida, minha amiga.

Um bom fim de semana.

Beijinho

Bipede Implume disse...

Querida Meg
Ainda sobre o que escreveu o Eça de Queiroz... passados 142 anos continua tudo igual.
Quer dizer que o mal já vem de longe. Ou estamos condenados ao que o poeta Carlos Queiroz escrevia:

"Português e vivo
É diminutivo
Só fazemos bem
Torres de Belém."

Por isso, mihna amiga já me desapaixonei pela política.
Já nem os consigo ouvir tal o desfile de mediocridades.
Um bom e merecido fim de semana com muita paz.
Beijinhos
Isabel

Mariazita disse...

Olá Meg, boa noite
Acabei de receber o recado que mandaste pela nossa amiga Maria João.
Não sei o que possa dizer-te, amiga. Até agora ninguém se queixou que não conseguia aceder ao meu blog. Mas...não te aconteceu já outra vez?
Eu não creio que tenha lá nada de muito pesado... inclusivamente, há relativamente pouco tempo reduzi o número de posts a apresentar na página principal...

Falemos agora deste extraordinário poema de Affonso Romano de Sant'Anna. Recordo-me que já aqui publicaste outro poema dele, de que gostei imenso.
"Mentem, sobretudo, impune/mente."
Aqui reside o maior problema.
O facto de se saberem impunes é que os torna tão atrevidos. Mas... " mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas".
Eu tenho esperança que, um dia, qualquer dia, não consigam mais esconder a verdade. E os que, apesar de tudo, ainda conseguem acreditar em tantas patranhas, vão ficar de queixo caído.
Conservemos essa esperança...

Desejo-te uma noite feliz e um domingo luminoso.

Um beijo
Mariazita

São disse...

...e mentem com "a consciência tranquila" sempre!

Gostei muito.

Um bom domingo para ti, companheira.

Maria João disse...

Querida Meg

Venho agradecer-te o convite, que já aceitei, como sabes.
Faltou-me ainda o tempo para me dedicar à coisa, como ela merece. Estou certa que nos encontraremos lá...

Beijinhos

Mariazita disse...

Meg!!!!!!
Que bom foi ver-te lá na minha "Casa". Eu já estava a ficar sugestionada, pensando que as dobradiças da porta estavam ferrugentas... :)))
Mas lá conseguiste empurrá-la...rs

Uma semana luminosa.

Beijinhos
Mariazita

Meg disse...

Isabel,

Aquilo a que assistimos já não é só a mediocridades, mas sim a um desfilar de atropelos a todos os valores, os mais elementares.
A um espectáculo da mais baixa indignidade.
Aqui chegámos, minha amiga.

Um beijo para ti

Meg disse...

Mariazita,

E impune/mente vão continuando, não sei até quando.

Pois a esta hora já consegui entrar no teu blog, mas com dificuldade.
Está a acontecer o mesmo aqui...não faço ideia do que possa ser.
Estou a "despir" o blog, mas ainda não está bem.Só falta tirar a música, mas não queria.
Vamos ver.

Beijinho para ti

Meg disse...

São,

Eles continuam a mentir, continuam tranquilos, nunca vi tanta gente a proclamar-se de consciência tranquila!
Será que a consciência deles não é como a nossa?
Não deve ser, minha amiga

Tem uma boa semana

Um beijinho para ti

Meg disse...

Maria João,

Obrigada por teres aceite... agora espero que participes no concurso.
É só uma frase... aliás. três.
Vamo lá!
Daqui a pouco vou para lá.

Beijinho

Meg disse...

Mariazita,

Consegui, mas foi difícil. E andar lá dentro também não é fácil, mas vou tentando sempre.
O resto já te disse na resposta ao teu comentário anterior.

Uma boa semana para ti

Beijinho

MPS disse...

Cara Meg

Este poema é um manifesto, um grito de raiva. Quem grita é porque sente que não há mais nada que possa fazer, porque já fez tudo quanto a decência e a lei permitem que se faça para nos impedir de cairmos no abismo.

Belo poema - grito lancinante que todos entendemos, mas que só ecoa em alguns.

Um grande abraço

JPD disse...

Belíssimo poema.
Extraordinária lição.

Nao conhecia este autor.

Parabéns pela excelente escolha.

Saudações

Meg disse...

Cara MPS,

Quem grita é porque sente que não há mais nada que possa fazer, porque já fez tudo quanto a decência e a lei permitem que se faça para nos impedir de cairmos no abismo.

Nada mais certo, minha amiga!

E temos de dar continuidade a este grito.

Um abraço

Meg disse...

Caro JPD,

Vale a pena conhecer este autor.
Acredite.

Um abraço

Nydia Bonetti disse...

Meg

Eu que considero a mentira o maior dos defeitos, imagine como me sinto diante desta "mentirada" toda que nos assola diariamente.

Que belo texto.

Beijo!

Meg disse...

Nydia,

É, e a mentira se tornou universal.
Triste exemplo para as novas gerações...

Beijo para ti