16 de setembro de 2009

Quem diria... Camilo!!!

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Tourada, de Ema Berta . .
"Sr. Presidente! Que me não queiram persuadir de que estou em casa de orates! Que é isto? Que bailar de ébrios é este em volta de Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um enviado do povo exclama: Não tireis à Nação o que ela não vos pode dar , governos! Não espremais o úbere da vaca faminta, que ordenhareis sangue! Não queirais converter o clamor do povo em cantorias de teatro! Não vades pedir ao lavrador, quebrado de trabalho, os ratinhos cobres de suas economias para regalos da capital, enquanto ele se priva do apresigo de uma sardinha, porque não tem uma pojeia com que comprá-la." . Camilo Castelo Branco, in "A Queda de Um Anjo"
1866 . .
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20 comentários:

Amaral disse...

Meg
Não é só esta passagem que nos dá a conhecer a realidade sempre actual da tristeza que governa o país.
Abraço

Pata Negra disse...

Pois, são esta coisas que fazem, deste e de outros Camilos, homens que vivem para além da morte.
Agora sei onde é que aquele preidente americano foi buscar a ideia para a frase da sua vida: não pergunteis ao governo o que ele pode fazer por vós mas perguntai-vos sobre o que podeis fazer para acabar com o governo!
- Era assim? Não, gaita, o homem não era anarquista!
Um abraço e obrigado na ajuda contra o Manel Anónimo

duarte disse...

ó meg
tanto tempo passa e pouco muda a triste face...
combien de temps ?
abraço do vale

MPS disse...

Cara Meg

Quem assim fala é Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado de Agra de Freima, quiçá, a personagem mais hilariante criada por Camilo. É ele o Anjo Caído cuja primeira experiência política foi aceitar ser Presidente da Câmara de Miranda do Douro. Como os vereadores não admitiram que restaurasse a vigência do foral de D. Afonso Henriques foi-se embora para casa onde sou rei e governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.

É, ainda, na versão de "anjo" que, enquanto deputado às Cortes, profere o discurso que a Meg nos ofereceu. É o discurso de um puro, um sem maldade, um não corrompido pelos vícios da modernidade nem pelo esterco que era a vida política. Mas este anjo irá cair e perder-se nos meandros da boémia de Lisboa. Tornar-se-á um estróina e um catita como os seus pares, deputados às Cortes.

É uma obra admirável de Camilo, mordaz e hilariante do princípio ao fim. Mas quando me ponho a fazer paralelos com o nosso tempo, concluo que só não é possível fazer um: não temos, nos nossos dias, ninguém que caiba na pele do "anjo", do ingénuo genuíno. Temos, isso sim, "santos de pau carunchoso" que, por serem tão fingidos e tão hipócritas, jamais poderiam servir de inspiração para personagem, nem de romance, nem de novela, nem de nada. Porque não valem nada! Pior: Porque pensam que os ingénuos, os papalvos somos nós!

Um abraço e vá-me desculpando a peroração.

Agulheta disse...

Meg. Texto actual e tão acutilante como o são de Camilo! mas que fica bem actualmente,lá isso é verdade,os candidados a governantes,são poucos os que se aproveitam?
Beijinhos

Lisa

São disse...

1866?!

Ai, que tristeza!!

Abraço-te, zogia.

Filoxera disse...

Estamos mesmo recalcitrantes, amiga...
Um beijo.

Zé Povinho disse...

Há sempre quem diga o que lhe vai na alma e quem tenha coragem e arte para se expressar contra o poder.
Abraço do Zé

Rabisco disse...

Olá Meg!
A verdade é que existem realmente pessoas intemporais, tal como Camilo, Eça de Queirós e todos os outros grandes.
O que escreveram torna-se intemporal, tal como eles e nunca a verdade foi tão verdadeira!
=)

utopia das palavras disse...

A hipocrisia dos poderosos!
Desde Camilo...pouco mudou até hoje!

A tela é magnífica!

Beijo, Meg

Meg disse...

Amigo Amaral,

Atrasada mas sempre presente, só hoje arranjei tempo para vir responder aos amigos(mas descansem que estou quase a entrar de férias).

Quanto ao Camilo... se ele soubesse como cada dia que passa a tristeza vai aumentando...!

Um abraço

Meg disse...

Querido Pata Negra,

Como sempre as tuas palavras deixam-me com um sorriso nos lábios.
Obrigada Amigo, e manda os Manéis anónimos para onde achares mais conveniente.

Um abraço

Meg disse...

Duarte,

Combiens de temps?
Até quando TODOS quisermos, o que não acontece na hora H.
Bom regresso.

Um abraço

Meg disse...

Querida MPS,

Pois as perorações da minha querida amiga são sempre muito bem recebidas cá por casa. É ao lê-la que vamos mais longe, no saber e aprender.
Sei que não gosta de que eu diga isto, mas a sua presença no Recalcitrante, é uma honra para mim. Sempre.
E espero que o Outono que hoje começa, lhe seja tão "leve" quanto possível.

Um abraço com ternura

Meg disse...

Lisa,

Mas estás tão optimista, que consegues ainda encontrar uns poucos governantes.Eu não vejo nenhum que me convença, francamente. Mas como sou recalcitrante, deve ser por isso.

Um beijo, minha amiga

Meg disse...

São,

Dizes bem... 1886???
è que parece que nada mudou... ou antes, mudou para pior.
Esperemos para ver.

Um beijo

Meg disse...

Filoxera,

Mesmo sem tempo, vou continuar a recalcitrar... já a seguir, no próximo post.
É o que me resta, minha amiga.

Beijo

Meg disse...

Zé,

É isso que vou tentando fazer... trazê-los aqui, sempre que possível.
Em vésperas de férias, ainda com pouco tempo, não deixarei de o fazer.

Um abraço, Zé!

Meg disse...

Rabisco,

Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário que agradeço - não me esqueço que estou em falta contigo.
Mas em breve passarei pelo teu blog.

Um abraço

Meg disse...

Utopia das Palavras

Ausenda,

É triste mas é verdade. Ah... se Camilo soubesse o que se passa hoje!
A tela é de uma amiga, pintora portuguesa a viver em Paris, e de quem tenho publicado várias obras.
Vais encontrar a página dela daqui a pouco na minha lista de blogs que recomento.

Beijo