21 de setembro de 2009

De que se ri, senhor ministro?

. . Se soubessem as voltas que este poema deu até chegar aqui...! Depois eu conto... . .
http://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/

.
Numa perfeita foto do jornal senhor ministro do impossível
vi enlevado e eufórico e perdido de riso o seu rosto simples
serei curioso senhor ministro de que se ri? de que se ri?
da sua janela vê-se a praia mas ignoram-se os bairros de lata
têm seus filhos olhos de mando mas outros têm o olhar triste
aqui na rua acontecem coisas que nem sequer se podem dizer
os estudantes e os trabalhadores põem os pontos nos ís
por isso digo senhor ministro de que se ri? de que se ri?
O senhor conhece melhor que ninguém a lei amarga de estes países
os senhores são duros com a nossa gente por quê com os outros são todo servis
porque alienam o património enquanto o gringo nos cobra o triplo
porque atraiçoam os senhores e os outros os bajuladores e os senis
por isso digo senhor ministro de que se ri? de que se ri?
aqui na rua os seus guardas matam e aqueles que morrem são gente humilde
e os que ficam chorando de raiva por certo pensam na desforra
algures na prisão os seus homens fazem sofrer o homem e isso não serve
além do mais o senhor é o mastro principal de um barco que vai a pique
serei curioso senhor ministro de que se ri? de que se ri?
.
«««o»»»
Mário Benedetti
De qué se ríe? (seré curioso?)
En una exacta foto del diario señor ministro del imposible
vi en pleno gozo y en plena euforia y en plena risa su rostro simple
seré curioso señor ministro de qué se ríe de qué se ríe

de su ventana se ve la playa pero se ignoran los cantegriles
tienen sus hijos ojos de mando pero otros tienen mirada triste
aquí en la calle suceden cosas que ni siquiera pueden decirse
los estudiantes y los obreros ponen los puntos sobre las íes
por eso digo señor ministro de qué se ríe de qué se ríe
usté conoce mejor que nadie la ley amarga de estos países
ustedes duros con nuestra gente por qué con otros son tan serviles
cómo traicionan el patrimonio mientras el gringo nos cobra el triple
cómo traicionan usté y los otros los adulones y los seniles
por eso digo señor ministro de qué se ríe de qué se ríe
. aquí en la calle
sus guardas matan y los que mueren son gente humilde
y los que quedan llorando rabia seguro piensan en el desquite
allá en la celda
sus hombres hacen sufrir al hombre y eso no sirve
después de todo
usté es el palo mayor de un barco que se va a pique
seré curioso señor ministro de qué se ríe de qué se ríe.
. .
Agradeço a tradução ao Cid Simões, do blog
AS PALAVRAS SÃO ARMAS
«««««o»»»»»
Mário Benedetti, 1920-2009 Escritor uruguaio (Paso de los Toros, Tacuarembó, 14.9.1920 – Montevidéu, 17.5.2009).
A sua obra, reconhecida internacionalmente sobretudo a partir do romance La tregua (1960), depois passado ao cinema por Sergio Renán, reparte-se pela poesia, o conto, o teatro, o romance e o ensaio. Director do Departamento de Literatura Hispano-americana da Faculdade de Humanidades e Ciências da Universidade da República, as vicissitudes da política no seu país forçam-no ao exílio, a partir de 1973, na Argentina, Perú, Cuba e Espanha, regressando ao Uruguai em 1983, onde integrou a redacção de uma nova revista literária, Brecha, iniciando o que ele próprio designou como «desexílio».
Em 1987, recebeu, em Bruxelas, o prémio da Amnistia Internacional pelo romance Primavera con una esquina rota (1982), e, em 1989, foi distinguido com a Medalla Haydeé Santamaría, concedida pelo Estado cubano, onde criara e dirigira (1968-1971) o Centro de Pesquisas Literárias da Casa de las Américas. Em 1999, foi-lhe concedido o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana e, em 2000, o Prémio Iberoamericano José Martí. A Universidade Internacional Menéndez Pelayo distinguiu-o, em 2005, com o Prémio Internacional Menéndez Pelayo.
Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. A sua obra foi traduzida para mais de 20 idiomas e é considerado um autor de primeiro plano da literatura latino-americana contemporânea.
.
.
Poema de Mário Benedetti De que se ri? (serei curioso?)

16 comentários:

Maria disse...

Não sei das voltas que este poema deu para chegar aqui. Mas reconheço que foi muito bem trazido do blog do Cid...

Beijo, deste lado nosso

Amaral disse...

Meg
Tenha dado as voltas que deu em boa hora o publicou.
Abraço

Luís Neves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mar Arável disse...

Muito pertinente

no ponto

a poesia também é transpiração

Meg disse...

Maria,

Aqui todos são chamados a deixar o seu testemunho, desta vez é o Mário Benedetti...
e o Cid deu uma ajuda...porque nestes dias todas as palavras são poucas para fazer reflectir.

Um beijo do lado de cá...

Meg disse...

Amaral,

Não foi uma publicação inocente... e é para ficar aqui até às eleições.

Um abraço amigo

Meg disse...

Luís Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "De que se ri, senhor ministro?"

Pois, do Uruguai conheço (cemos?? pouco. Conheci este mês um tal cantor, poeta, e lutador André Stagnaro.
Eles riem, eles riem sempre, enchem as tulhas, bebem vinho novo, dançam a ronda no pinhal do rei...
Se, por hora, não os conseguimos vencer, ao menos que tenhamos a conciência que eles se riem quando nós choramos e que eles só chorarão no dia em que nos virem sorrir por nos libertarmos deles!
E eles quem são!?- São eles!
Um abraço e a eles que se faz tarde
.

Lamento e não entendo a razão que o levou a apagar o seu comentário.

NÃO GOSTEI.

E menos ainda de, depois de ter visitado o seu blog, o ter encontrado agora PRIVADO.

Respeito mas não entendo.

Meg disse...

Mar Arável,

Infelizmente... é pertinente!
Tem toda a razão, meu amigo!

Um abraço

Peter disse...

Ri-se porque já tem as eleições no papo. Ri-se porque o PSD. ou, melhor dizendo a MFL, fartou-se de dar tiros nos pés. Ri-se porque os portugueses que tantas críticas lhe fizeram, correm a votar nele.

Eu irei rir-me, daqui a 2 anos, quando o PS correr com ele de vez.

P.S. - Julguei que tinhas ido de férias.

CS disse...

Obrigado pela visita e pelas boas palavras. Cid

padeirinha disse...

Ri-se; riem-se da miséria, da angustia, da ansiedade dos outros. Riem-se... até um dia...

Savonarola disse...

Cara Meg,
Belo poema, tão actual e certeiro.
Um abraço anarquista

duarte disse...

ri-se ... para mostrar os dentes.
e eu até acho piada porque nada é eterno...
abraço do vale

eduricardo disse...

Risos de hienas.
De Mario Benedeti recomendo, em especial, «PRIMAVERA CON UNA ESQUINA ROTA»
Trata-se dum testemunho, multifacetado e profundamente humano, da experiência de exílio sofrida pelo autor, nos doze anos que se seguiram ao golpe militar de 1973.
Recordemos Honduras em 2009...
Através de diversos registos, o sofrimento provocado pela ditadura é exposto sob os diferentes pontos de vista dos exilados, dos presos, dos seus pais e dos seus filhos, crianças condenadas também ao exílio e à privação do convívio com os pais, presos por razões que mal compreendem.

http://cadernosemcapa.blogspot.com/2009/09/primavera-com-una-esquina-rota.html

bettips disse...

Sim? de que se riem eles, os tiranetes? Em todo o lado ...

BAR DO BARDO disse...

O riso pode ser obra do choro...