25 de outubro de 2008

Balada do Roer dos Ossos

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Eyes, de Lawrence
Balada do Roer dos Ossos
Roer um osso — humano, se possível,
é um sonho português de sobrevida,
após anos e anos de despirem
com os olhos as mulheres que no Rossio
por diante deles passam e das mãos
movendo-se contínuas pelo bolso
das calças mais viris da cristandade.
Roer um osso — humano, se possível,
de mãe, de pai, de irmã, de tio ou prima,
de amantes ou de esposas, filhos, netos,
ou de inimigos ou de amigos mesmo,
ou do vizinho em frente, ou dum retrato
só visto no jornal, ou criatura
desconhecida inteiramente — um osso.
Roer um osso — humano, se possível,
mas pode ser de vaca ou de carneiro,
ou porco ou gato ou cão ou papagaio,
ou à sexta-feira bacalhau ou peixe
em espinhas esburgadas que recordam
o rosto doce ou monstruoso odiado
na vénia às Excelências brilhantinas.
Roer um osso — humano, se possível,
seja fingido mesmo, de borracha
para durar mais tempo que não passa,
ou de cimento pra quebrar-se os dentes
no gozo de moê-lo cuspinhado
(e o pensamento em furibunda mão
que excita ansiosa as impotentes raivas).
Roer um osso — humano, se possível,
é o sonho português de sobrevida.
[Jorge de Sena]
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«««««o»»»»»
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44 comentários:

Maria disse...

Ai este Jorge de Sena....
Bom fim-de-semana, Meg.

Beijo

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Uma balada... poderia ser banal mas nao é. Muito se desprende dela numa leitura que se quer calma, profunda e de muitas releituras... nao fosse Jorge de Sena! Obrigado pelo poste.
Bjs

Meg disse...

Maria,

Jorge de Sena já não te surpreende,
não é verdade?
Bom fim de semana
Um abraço

Meg disse...

Caro Namibiano,
Tem razão... esta não é uma balada qualquer. Exige uma leitura atenta e pensada e repetida.

Um abraço

O Guardião disse...

Um retrato cru, próprio de Jorge de Sena. Ao domingo (estamos perto) costumo ser mais benevolente.
Bom domingo
Cumps

C Valente disse...

Bom domingo com saudações amigas

Peter disse...

Nem sempre posso estar de acordo. Não gostei do Jorge de Sena nem do quadro.

Bom Domingo sem o Jorge...

Anónimo disse...

É mesmo sobrevida. Retrato agreste, mas verdadeiro.

Anónimo disse...

Acrescento: mas a música é tão suave, apazigua.

Anónimo disse...

O anónimo anterior sou eu,padeira de aljubarrota!

Luisa disse...

O Jorge de Sena é um grande poeta mas deixa-me sempre mal disposta....

Meg disse...

Amigo Guardião,

De Jorge de Sena espera-se uma visão sempre um pouco cruel da vida. Mesmo na ironia deixa essa marca. Ainda bem que já é Domingo!

Um abraço

Meg disse...

Caro Valente,
Obrigada pela visita. Um bom Domingo e uma boa semana para si também.

Um abraço

Meg disse...

Peter,
Pois estás no teu pleno direito e digo-te mais... tomo a tua frontalidade como uma prova de amizade. É assim que deve ser.

Um abraço

Meg disse...

Anónimo,

Agreste é uma palavra que combina com Jorge de Sena, sem dúvida, como agreste é tantas vezes a própria vida.

Um abraço

Meg disse...

Anónimo,
Ainda bem que gostou da musica, pelo menos ameniza o impacto do poema. Obrigada,

Um abraço

Meg disse...

Padeirinha,

Já estou habituada a uma visita anónima, mas estou a ver que afinal a anónima é bem minha conhecida. Problemas com o Blogger?
Hoje tive conhecimento de problemas com os comentários. Mas não faço a mínima ideia do que se passa.E não se preocupe.

Um bom Domingo e um abraço

Meg disse...

Luisa,

Jorge de Sena realmente não é nem muito fácil nem muito animador.
Deixa-nos um sabor amargo da vida.Não conhecêssemos Jorge de Sena!

Um abraço

tulipa disse...

MEG

vim visitar-te e ler um pouco para trás para colmatar a minha ausência, não podia passar em branco a poesia de Mia Couto sobre um dos belos locais da minha terra, deixei lá umas palavrinhas.

Beijinhos.

romério rômulo disse...

meg:
grande poema.um beijo.
romério

Pata Negra disse...

Um osso duro de roer, não era preciso tanto verso, davam-me o osso e pronto, eu ficava entretido!
Não no Rossio que não é sítio que um porco pise mas num sítio onde houvesse muitos cães que me ajudassem.
Isto é só para dizer Olá Recall Critish

Meg disse...

Tulipa,
Obrigada pela visita e pelas tuas palavras sempre simpáticas.
Já lá passei...
Um abraço

Meg disse...

Querido Romério,

De Jorge de Sena só podia vir um grande poema, por vezes um pouco ásperos de ironia, como este, mas este é a marca do poeta.
Um beijo

Meg disse...

Caro Pata Negra,
Tens assim tanta certeza que não há porcos no Rossio? Olha que talvez não, e cães há concerteza.
Cuidado com a BT...ahahahahah...!!!

Um abraço

Amaral disse...

Meg
Que belo poema, nesta fase de mudança da hora.
Boa semana
Abraço

São disse...

Jorge de SEna num excelente poema!
Fica bem.

Carminda Pinho disse...

O poeta diz o que lhe vai na alma...quer se goste, ou não.

Não conhecia este poea, Meg.

Beijos

meus instantes e momentos disse...

muito bom voltar ao teu blog, gosto daqui.
Tenha uma bela semana.
maurizio

Meg disse...

Caro Amaral,
É Jorge de Sena, só podia ser um belo poema...
Um abraço

Meg disse...

São,
É verdade... não fosse da auroria de Jorge de Sena, um grande poeta.

Um abraço

Meg disse...

Carminda,

E Jorge de Sena nem sempre diz coisas muito bonitas! Mas são verdades.

Um abraço

Meg disse...

Meus instantes e Momentos,

Obrigada pela visita e pelas palavras.

Um abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
Vou ser sincera e confessar a verdade: tenho livros do Jorge de Sena mas não consigo gostar dele e deste quadro ainda menos.
Reconheço que é um grande poeta mas as mensagens que passa bulem comigo.
Abraço

Agulheta disse...

Meg. Obrigada pelas palavras. Jorge de Sena se calhar até fala algumas verdades,neste poema que não conhecia,e pela partilha.
beijinho

Mariazita disse...

A poesia de Jorge de Sena não é flor que se cheire...
Tem que ser lida com muita atenção, para se apanhar o verdadeiro sentido.
Não é nada fácil, como se pode ver pela amostra...
Uma noite feliz.
Beijos
Mariazita

Decio Bettencourt Mateus disse...

Gostei muito dos "Eyes de Lawrence". Passei a conhecer o Jorge Sena e pela "Balada do Roer dos Ossos" (que nome poético!)percebi tratar-se duma poesia refinada.

Meg disse...

Lídia,
Como já disse antes, estás no teu pleno direito de não gostar e eu até compreendo. Jorge de Sena é assim mesmo, ou se gosta ou se detesta. O quadro foi escolhido para este poema, propositadamente.
E acima de tudo agradeço a tua frontalidade de amiga. É assim que gosto.
Um abraço

Meg disse...

Lisa,
Jorge de Sena tinha uma maneira muito irónica, como neste poema, de dizer algumas verdades.
Um abraço

Meg disse...

Mariazita,
É realmente isso... este poema tem de ser lido com muita atenção, pois não é fácil, como vês.

Um abraço

Meg disse...

Caro Décio,
Muito obrigada pela sua visita e pelas palavras. Como vê, de Jorge de Sena ou se gosta ou não, não há meio termo. Assim como da tela. Ainda bem que gostou.

Um abraço

bettips disse...

Venho de cima para baixo. Detenho-me aqui com as palavras esburacadas de cinismo acre, verdadeiras, de Jorge de Sena!
Permanentemente pertinente, o nosso génio escorraçado!
Bjinho

Vieira Calado disse...

Olá, Meg!

Andei a dar uma volta pelo blog.
As suas escolhas são óptimas, criteriosas.

Tanto nos poemas, como nas imagens.

Desejo-lhe um excelente fim de semana.

Meg disse...

Querida Bettips,
Pena que nem todos pensem assim, porque o nosso poeta escorraçado é genuíno e por isso muitas vezes de leitura quase, como direi, desagradável. As verdades são duras e as palavras são como pedras... magoam alguns.

Um abraço

Meg disse...

Caro Vieira Calado,
Muito obrigada pelas suas palavras... é sempre bom receber um incentivo, e vindo de si, principalmente.

Um abraço