18 de junho de 2008

Dr...Dói-me o peito

Ansiedade, de Edward Munch




Dr.

dói-me o peito

do cigarro

do bagaço

do catarro

do cansaço

dói-me o peito

do caminho

de ida e volta

do meu quarto

à oficina

sem parar

sempre a andar

sempre a dar

dói-me o peito

destes anos

tantos anos

de trabalho

e combustão

dói-me o luxo

dói-me os fatos

dói-me os filhos

dói-me o carro

de quem pode

e eu a pé

sempre a pé

dói-me a esperança

dói-me a espera

pelo aumento

pela reforma

pelo transporte

pela vida e pela morte.


Dr.

já estou farto

de não ser

mais que um braço

para alugar

foi-se a força

e o meu corpo

é como o mosto pisado

como um pássaro insultado

por não poder mais voar.


Dr.

eu não sei ler

os caminhos

por dentro

dos hospitais

mas alguém há-de aprender

entre as rugas do meu rosto

o que não vem nos jornais

e não há nada no mundo

nem discurso

nem cartaz

capaz de gritar mais alto

que as palmas das minhas mãos

que o meu sorriso sem jeito,


Dr.

Dói-me o peito…


José Fanha,

Eu sou Português aqui, ed. Ulmeiro

«««««<>»»»»»


José Fanha (1951)Nasceu em Lisboa em 19/02/51.
Arquitecto não praticante. Professor do Ensino Secundário.Poeta, declamador, autor de letras para canções e de histórias para crianças, autor de textos para televisão, para rádio e para teatro. Pintor nas horas vagas.Entre muitas outras aventuras, integrou em 69/70 o grupo de teatro da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, foi fundador em 73 e animador do grupo de teatro “Lídia a mulher tatuada e os seus actores amestrados”, participou em 77 no concurso de televisão “ A visita da Cornélia”, colaborou nos programas de rádio “Pão com manteiga” e “Uma vez por semana”, tem colaborado periódicamente desde 79 com João Lourenço e Vera SanPayo Lemos na adaptação de inúmeros textos teatrais desde “Baal” até à “Ópera dos três vinténs”, ambos de Bertolt Brecht.

In: Eu sou português aqui - Obras de José FanhaUlmeiro - 1995

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45 comentários:

Luisa disse...

Quem não conhece o José Fanha? Mas estes versos dele não conhecia. São extraordinários de beleza e realismo!

lupussignatus disse...

neste

grito

ouve-se

um país



Obrigado.

Amaral disse...

Meg
Palavras para quê? É um poema belíssimo, uma lição de vida.
Abraço

Agulheta disse...

Meg. Conheço bem este poema de josé Fanha,por vezes bem a calhar,e alguns assim são,pequena lição.
Beijinho Lisa

meg disse...

Luisa,

Não foi escrito agora, mas podia ter sido, Luisa.
É que a dor aumenta...
beijos

meg disse...

Lupussignatus.
O pior é que estes gritos continuam a não ser ouvidos.
um abraço

meg disse...

Amigo Amaral,

É belo, mas muito triste e revelador também.
Até quando?
Um abraço

meg disse...

Lisa,

Mas são apenas lembretes, nada mais. Quem os ouve?
Mas ainda assim vale a pena lembrar.
Um abraço

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

entrei no seu espaço por um blog de um amigo. Adoreiiii. Seu poema é intenço, profundo.parabéns. marthacorreaonline.blogspot.com

Maria disse...

Bastou-me ler o título para saber que falavas de Fanha.....
Conheces o blog dele? "Queridas bibliotecas", na minha barra lateral.

Munch... é Munch...

Um abraço, Meg

Porca da Vila disse...

Cada vez com mais razão. Infelizmente para este Povo a quem o Poder esmaga e sufoca numa espiral interminável...

Xi Grande

romério rômulo disse...

meg:gostei do poema.é de natureza forte.e estava atrás deste quadro do munch,para um trabalho.só o consegui em preto e branco,no argan.tem o carácter d' "o grito".
um beijo.
romério

mardapalha disse...

Pois o Zé Fanha tem destas coisas... Não sabemos muito bem explicar porque o que ele escreve está tudo direitinho e certinho...
Gostei deste embalo Dr.

Papoila disse...

Querida Meg:
Chegar a tua casa e ler hoje aqui este grito de José Fanha!
(Não me fales em trabalho e pressa...)
Beijos

O Guardião disse...

Cada vez me dói mais o peito, isto digo eu agora, porque o J. Fanha já o tinha dito bem antes.
Boa escolha para esta ocasião.
Cumps

Bipede Implume disse...

Este poema do Fanha faz-me lembrar outro de António Gedeão - Calçada de Carriche.

"Luisa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luisa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saíu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
..."
O mesmo drama de uma vida sem horizontes.
Como sempre um óptimo trabalho da Meg.
Grande abraço, amiga.

samuel disse...

Grande texto de um querido companheiro de sessões de poesia e cantigas.
Por cada vez que estou ali sentado, no palco, de viola repousada e calada no colo, ouvindo o Fanha dizendo os seus versos, ganho um ano mais de vida.
Tenho que arranjar mais actuações com ele... :)))

Abreijo

Zé Povinho disse...

Desta vez alguém bem conhecido, embora eu não tenha lido nunca este poema a não ser hoje.
Abraço do retornado Zé

Carminda Pinho disse...

Este poema do Zé Fanha demonstra o desalento com que alguns de nós nos defrontamos.
Porquê ainda, Meg? neste Portugal de ontem, mas também no de hoje e, sabe-se lá até quando...

Beijos

meg disse...

Martha,

É um prazer recebê-la, mas fico sempre curiosa sobre através de quem chedou ao Recalcitrantemor.
Vai-me dizer?
É realmente intenso o poema, intenso e pungente, dada a situação que o país atravessa.

Espero vê-la mais vezes e logo que possível, far-lhe-ei uma visita.

Um abraço

meg disse...

Maria,
Conheço o blog dele, sim, e agora que sem querer deitei abaixo os links todos, vou colocá-lo cá também, que os meus Favoritos estão a rebentar pelas costuras, parece a lista telefónica.
Obrigada pela tua visita apesar da minha ausência...forçada
Beijos cansadíssimos.

meg disse...

Querida Porca,

Será interminável mesmo? Olha que já já muita gente que já saltou fora... com fome, potr isso me dói tanto!

Um xi pa ti

meg disse...

Romério,
É um poema que sem ser dos dias de hoje, se aplica aos dias de hoje.
A dor está a alastrar a uma velocidade alucinante, meu Amigo!

Vou mandar-te 2 ansiedades do munch em tons diferentes.
Beijo da Meg

meg disse...

Mardapalha,

Muito obrigada pela sua visita, só tenho um reparo a fazer e perdoe-me por isso. Sinto um certo desconforto com os comentários anónimos. Geram desconfiança, embora esteja certa de que não terá sido essa a sua intenção.
Terei muito gosto em recebê-lo mas... se não for anónimo, claro que o prazer será maior.
Cumps.

meg disse...

Querida Papoila,

Sempre a correr, como te compreendo. Só mesmo por amiizade.
Obrigada pela visita.
Beijinhos apressados

meg disse...

Amigo Guerdião
Como me sinto feliz com as tuas visitas agora que estou práticamente impossibilitada de vos visitar.
Ainda por cima deitei, por burrice, os links todos abaixo.
Voltar a pô-los lá é tarefa que leva tempo mas que tem de ser feita.

E como diz o Fanha, dói-me tudo!

Um abraço

meg disse...

Bípede,
Foi com emoção que li o poema que me deixaste... ainda estou a ouvi-lo cantado.São as nossas memórias, que julgávamos não ter de lembrar em 2008!

Beijos

meg disse...

Samuel
É verdade, quem diria que em 2008 teríamos de ir para a rua cantar... ai se o Zeca fosse vivo!!!
Obrigada pela visita, agora que sabes o motivo da minha ausência


Um abraço

meg disse...

Meu Amigo Zé,
Que saudades! Ainda bem que já voltaste. Agradeço-te também a presença amiga aqui, nestas circunstâncias - a minha falta de tampo.
E julgo que do Fanha há ainda muito a dizer nesta situação que o País atravessa.

Um grande abraço amigo para ti, da MEg

meg disse...

Carminda,
Porquê, perguntas tu, e como hoje estou de má catadura, digo-te que estamos a pagar a factura do deslumbramento dos dinheiros que entraram para onde não era suposto entrarem.
E dói-me porque vejo muita gente ser atirada borda fora da esperança. E não te digo o que me tê dito alguns... sem luz ao fundo de nada... qual túnel, qual carapuça? Ceu aberto e noite escura de breu.
Pessimismo isto? Não. realidade brutal!
Um abraço

Carla disse...

sempre que aqui venho descubro sempre algo novo, por isso adoro passar por aqui...não tenho esquecido o teu convite, mas o tempo!!!!!
bom fim de semana amiga
beijos

meg disse...

Carla,
Andamos todas atarefadíssimas, mas estás sempre a tempo, não te preocupes, quando decidires, já dabes o caminho.
E obrigada pela visita
Um abraço

Paradoxos disse...

poema de grande ritmo e intensidade, sem dúvida!

beijão, voltarei...

meg disse...

Paradoxos,
É realmente a intensidade dos momentos que vivemos.
Outro paradoxo.
Aqui virás sempre que entenderes e te der prazer, espero!
Um abraço

Savonarola disse...

Querida Meg,

Uma escolha única!
Um conselho de amigo: não te esfalfes demasiado...

Um abraço anarquista

meg disse...

Savonarola,
Meu querido Jorge,
Que pena o Zé Fanha ter tanta razão!
Fazes-me sempre falta, porque sei que és isso mesmo, um amigo. Acabas de o demonstrar...
Estão a começar a ser muito complicados estes meses em termos de tempo disponível.
Mas farei sempre os possíveis... sem me esfalfar.
Um beijo para ti

Maria Faia disse...

Querida Amiga Meg,

Já tinha saudades de te ler e ouvir...
Esta sábia e sempre actual poesia do José Fanha éra-me desconhecida até agora. Obrigado Amiga pela tua linda partilha.

Deixo-te um grande beijo amigo, com votos de um excelente e produtivo verão (mas sem exageros...). Cuida-te bem Amiga.

Maria Faia

a casa da mariquinhas disse...

Sem tempo para comentários, venho apenas deixar um beijinho de despedida, já que vou amanhã de férias, por 2 semanas.
Amanhã publicarei um post, o último desta fase.
Se quiser e puder...vá lá ver.
Quando regressar farei uma visita
Tudo de bom.
Beijinhos
Mariazita

Pata Negra disse...

O José Fanha é da minha camioneta!
Frequenta os "palcos" de proximidade! A gente sai de casa porque não vê TV e ali, numa livraria de província, encontra o Fanha a declamar, sem cachet, simplesmente poeta. É também daqui que o conheço, único!
Um abraço, estou com pressa, tenho de ir comprar cigarros!

meg disse...

Maria Faia,
A tua visita é sempre um mimo para mim, principalmente agora que estou como vês.
Cheia de trabalho... e sem tempo, e descansar é preciso também.
Não sei se não vou ter de alterar os planos. ´Mas enquanto conseguir responder aqui...já não é nada mau!
Um abraço e bom domingo

meg disse...

Mariazita,
Pois desejo-te umas óptimas férias e cá te espero de novo.
Um abraço

meg disse...

Pata Negra,

Os teus comentários são uma brisa.
O teu humor leve e solto... não há mais um lugar nessa camioneta?
É que tem de haver sempre lugar para mais um...
Um bom domingo e um abraço

zef disse...

Este péssimo visitadeiro vem dizer, hoje, bom dia! E também bom trabalho!

meg disse...

Querido Zef,

Venha quando vier é sempre em boa hora, e sempre com muita alegria que o vejo entrar pela porta dentro.
Uma boa semana e um grande abraço da Meg

minucha disse...

Sou fã de José Fanha

e gostei de reler.

beijinho