22 de maio de 2008

As Mulheres de Meu Pai




"Nunca senti a necessidade absoluta de escrever – como de comer, ou de fazer amor. Escrever é quase sempre um prazer enorme, mas não uma urgência, ou uma angústia como imagino que seja um cigarro para um fumador."
José Eduardo Agualusa
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Faustino Manso, famoso compositor angolano, deixou ao morrer sete viúvas e dezoito filhos.
Em As Mulheres do Meu Pai, realidade e ficção correm lado a lado, a primeira alimentando a segunda.
Nos territórios que José Eduardo Agualusa atravessa, porém, a ficção participa da realidade.



[...]
"Recua quando lhe toco. Insisto.
Toco-lhe ao de leve no cabelo enquanto dorme. O meu amor tem uma cabeleira forte e lisa.
Afundo devagar os dedos nela, até à raíz, e aí é suave e densa. Cheiro-lhe o cabelo, cheiro-lhe a nuca, e ela suspira.
Fala, enquanto dorme, numa língua que não compreendo. Fico acordado a vê-la dormir.
Tem sido assim nestas últimas noites. Adormeço exausto, quando a primeira luz se acende nos lençóis.
Acordei suspensa numa luz oblíqua.
Virei a cabeça e dei com o rosto de Mandume. Dormia.
A dormir, Mandume volta a ser um menino. Quando o vejo assim sinto vontade de o abraçar. Queria amá-lo como no princípio de tudo. Sou um tipo que se apaixona com facilidade. Também desanimo, verdade seja dita, com idêntica facilidade.
Volúvel, acusa a minha mãe. Talvez.
O que me atrai numa mulher é o que não sei sobre ela. Algumas mulheres usam o silêncio como quem veste uma burqa.
Um homem fica a imaginar o que existe por detrás daquele silêncio pesado e escuro e sem frestas, que mal deixa adivinhar a forma do pensamento.
Imaginar já é amar.
Há, depois, as mulheres que falam, mas com uma voz de tal forma sedutora, levemente rouca e ao mesmo tempo luminosa, que é como se não falassem, pois nós, os homens, apenas conseguimos reparar na voz, e não naquilo que elas dizem.
"Como podes apaixonar-te por alguém que não conheces?", aborrece-se a minha mãe.
Precisamente, digo-lhe, ninguém se apaixona por um conhecido. O que eu acho, aliás, é que a paixão termina no momento em que se conhece o outro. Creio que era Nelson Rodrigues que dizia que se todos conhecessem a intimidade uns dos outros ninguém cumprimentaria ninguém.
Evidentemente, existem depois aquelas mulheres que nos seduzem pelo brilho do pensamento. Ainda neste caso chega o momento em que viramos a última página.Reler um clássico pode ser um exercício agradável, sem dúvida, mas descobrir um jovem autor suscita outra emoção.
As mulheres que pensam são as mais perigosas (espero que este meu diário não caia nunca nas mãos de uma mulher).
Gosto daqueles lugares onde não se passa nada. Evidentemente, gosto deles enquanto passo, passo a passo, num passeio lento, ou sobre rodas, num rápido deslizar.
Gosto do silêncio estático, da luz parada, nos vários tons da ferrugem - uma velha fotografia manchada de lágrimas.
Um soluço sacudiu-lhe o frágil corpo. Levantei-me, dei dois passos e ajoelhei-me junto dela. Afundei o rosto no seu colo. Senti as mãos de Alima a deslizarem, leves borboletas, sobre o meu cabelo. O colo da minha mãe cheirava a incenso e a maresia.
Chorámos as duas. Um cansaço veio descendo sobre mim, uma vontade de esquecimento, de não haver tempo nem universo, nem a sombra de um Deus sobre tudo isso.
Entretanto envelheci. Compreendi o óbvio.
A verdadeira beleza não se pode aprisionar, não se repete, e não se prevê. Um arco-íris será belo enquanto permanecer indomável."[...]
José Eduardo Agualusa
As Mulheres de Meu Pai
(excerto)
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As Mulheres de Meu Pai é um livro de José Eduardo Agualusa, que relata uma série de histórias fantásticas, vividas por este pai, em países da África, aonde ele se relacionou com diversas mulheres.
A filha mais nova, Laurentina, realizadora de cinema tenta reconstruir a atribulada vida do falecido músico.
As quatro personagens do romance que o autor escreve, enquanto viaja, vão com ele de Luanda, capital de Angola, até Benguela e Namibe.
Cruzam as areias da Namíbia e as suas povoações-fantasma, alcançando finalmente Cape Town, na África do Sul.Continuam depois, rumo a Maputo, e de Maputo a Quelimane, junto ao rio dos Bons Sinais, e dali até à ilha de Moçambique...
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48 comentários:

jasmimdomeuquintal disse...

está na minha lista...
bjocas e bom feriado!

Papoila disse...

Querida Meg:
Foi o meu primeiro contacto com Agualusa e fiquei apaixonada pelo romance e pela viagem que percorre o corno de África. O livro onde até os carros têm nome.
Beijos

Zé Povinho disse...

Conheço o autor e pelo itenerário do livro, fica deste já na minha lista.
Abraço do Zé

Carminda Pinho disse...

Meg,
comprei esse livro do Agualusa, assim que saiu.
Ainda não o li :(.
Mas vou colocá-lo já, na mesa de cabeceira.:)

Beijos

Bipede Implume disse...

Confesso que conheço muito mal este escritor. Tenho tido outras prioridades. Mas passando por aqui aprende-se sempre.
Bom fim de semana, amiga.
Grande abraço.

Maria disse...

Ao menos este autor é conhecido por cá....
Bom fim de semana, Meg

Beijos, deste lado

minucha disse...

Olá Meg

este tenho de comprar e já

mais uma vez obrigado. Que lindo pedaço tu escolheste.

Beijo

meg disse...

Jasmim,
É uma boa aquisição, podes crer.
Um abraço e bom fim de semana

meg disse...

Papoila,
É apaixonante, minha amiga.
E essa dos carros é muito curiosa.
Um bom fim de semana e
um abraço

meg disse...

Ainda bem Zé, obrigada.
Recordar aquelas terras, para nós é muito importante.
Um bom fim de semana
e um abraço

meg disse...

Carminda,

Mas isso é um "crime"!!

E antes de abalar... até logo!

Um abraço

meg disse...

Bípede, não deixes de o comprar e conhecer o Agualusa.
É imperdível.
Um bom fim de semana e
um abraço

meg disse...

Oh... Maria!

Mas os de cá toda a gente os conhece e há tanta gente que escreve tão bem e que não tem um espacinho para publicar!Por isso tento trazer aqueles de quem gosto para partilhar convosco.
É que somos todos do mesmo lado, ainda por cima.
Bom fim de semana
Um abraço

meg disse...

Minucha,
ainda bem que gostaste e espero que confirmes por ti... sei que vais adorar.

Hoje não posso responder a mais ninguém, vou ausentar-me, mas amanhã lá irei fazer-te uma visita
Um bom fim de semana
Um abraço

O Guardião disse...

Que grande viagem! Tenho de ver se desço à cidade para comprar esse livro.
Cumps

João Videira Santos disse...

Interessante o texto sobre "as mulheres de meu pai". Gostei. Vou voltar.

Filoxera disse...

Eis um dos livros que uma amiga está para me emprestar, assim que ela terminar de ler.
Se puderes, passa no Escrito a Quente. O mais recente post é um apelo pessoal.
Beijos.

MPS disse...

Cara Meg

"De quantas verdades se faz uma mentira?" Não é assim, mais ou menos, que começa?

É uma viagem lindíssima, contada de quantas maneiras? entrevista, narração, diário... eu sei lá! Mas sempre obrigando-nos a concluir que a ficção é mais pobre do que a realidade.

Agualusa é alguém que leio com enorme prazer e fez-me bem relembrá-lo.

Um abraço

Agulheta disse...

Meg.Realmente para quem gosta de ler,dás a partilhar este escritor,a qual vou tentar ver onde encontro o livro de Agualusa,me despertas-te para esta leitura,de verdade.
Beijinho e BFS LISA

padeirinha disse...

Maravilhoso. A escrita e sensibilidade.

Amaral disse...

Meg
Quanto a este livro já estive com ele várias vezes na mão, mas nunca o comprei.
Que bela ilustração encima este post.
Bom fim-de-semana.
Bjo

meg disse...

Guardião, meu amigo, não deixe de ler.
Obrigada pela visita
Um bom fim de semana e um abraço

meg disse...

João Videira dos Santos

João, fico grata pela visita e curiosa depois de ter dado uma rápida vista de olhos ao seu blogue de que gostei muito.
E será com verdadeiro prazer que o receberei neste espaço.

Cumps

lupussignatus disse...

escrita

de

água



evapora

ternuras

meg disse...

Filoxera,

Não deixes de ler.
Quanto ao teu pedido já lá fui e fiquei mais uma vez com o coração apertado. Mas tinha acabado de chegar de viagem. Vou lá voltar esta tarde. Espera por mim.
Um bom fim de semana e um abraço

meg disse...

Cara MPS,

Não sei se é o que as pessoas esperam, mas realmente o que me dá prazer é partilhar com os amigos os autores de quem gosto, sem olhar ao nome - porque este não precisa de divulgação.
Gosto e pronto. Por isso na próxima segunda feira vou ter aqui
o Romério Rómulo. Porque eu, que não percebo nada de poesia, gosto da forma como ele utiliza as palavras... como pedras, intensas!

Quanto ao Agualusa é o prazer se são as memórias.

Muito obrigada pelo seu comentário, minha amiga.

Um bom fim de semana, num abraço





PS: E o farnel foi mesmo...!

meg disse...

Agulheta

Lisa, fazes muito bem e não te vais arrepender.
Um bom fim de semana para ti também e um abraço

meg disse...

Padeirinha,

Este foi o último livro do Agualusa, publicado em 2007.
Recomendo vivamente, minha amiga.

Um bom fim de semana
E um abraço

meg disse...

Caro amigo Amaral

Mas olhe que vale realmente a pena ler, nem a imafina a viagem que nos proporciona, principalmente as memórias que nos traz.
Quanto à tela, um dia destas tambem haverá novidades.
Um bom fim de semana
E aquele abraço do costume

meg disse...

Caro Lupussignatus,

Será?

Umas vezes sim, outras não?

Bom fim de semana
Um abraço

EDUARDO disse...

EHEHEH :-)

Agualusa é bem meu conhecido :-)
bem de perto!

adorei este post amiga, gostei mesmo, pois é um dos meus eleitos assim como Mia Couto entre outros...

beijão grande


PARADOXOS

meg disse...

Paradoxos

Pois és um felizardo, Eduardo. E se no grupo está o Mia, que dizer.
Obrigada pela tua visita.
Um bom fim de semana
Um abraço

Sei que existes disse...

Não sei onde vais buscar tanta informação, mas ainda bem que a trazes para aqui!...
Beijo grande

Mar Arável disse...

Agualusa

sempre

meg disse...

Sei que existes

É só partilha, minha amiga, e se gostares, tant mais feliz eu fico.
Um abraço e bom fim de semana

meg disse...

Mar Arável,

É verdade, Agualusa ao menos dá-nos momentos inesqueciveis nas suas viagens.
Ja estive a ver o teu post, muito
bom... amanhã estou lá a comentar.
Um bom fim de semana
E UM ABRAÇO

Izelda Maia disse...

Meg,
parabéns pelo blog!
Está muito bonito e interessante.

Izelda Maia disse...

Então, segunda tem Romério!?
Então, temos festa na casa de Meg...

grande abraço e feliz fim de semana.

anamarta disse...

Meg
Conheço e gosto muito do Agualusa, este livro ainda não li, mas vou comprar rápidmente, pois despertaste-me o interesse com este pedaço que aqui publicas.
Um abraço e bom domingo

meg disse...

Izelda.
Que bom ver-te por cá.
Como vês tenho muito mais espaço...
mas ainda não está pronto que eu ando um bocadito preguiçosa.
Obrigada pela tua visita, Izelda!
Um bom fim de semana para ti num abraço intercontinental...

meg disse...

Izelda, sim, é verdade. assim espero.
A minha ousadia deve-se qo fa(c)to de gostar muito do que o ROmério escreve.
Às vezes é preciso desbravar as palavras, os poemas, não sei se consigo, mas como sou teimosa, não desisto. Ouso.
E claro, a presença dele e a sua palavra é também o que os meus amigos querem.

Um grande abraço

meg disse...

Anamarta, este foi o último livro que ele publicou, em 2007.
É um livro cheio de magia.
Verás!
E amanhã... surprise!

Um bom domingo num abraço

samuel disse...

Lá terá que se arranjar um tempinho e "justificar" a despesa nos próximos óculos...

Abreijos

meg disse...

Amigo Samuel Quedas(?)

Mas olha que vale a pena ler o Agualusa.
E amanhã... surprise na Recalcitrante.
Não faltes (olha o descaramento, parece que ando a angariar comentários ahahah!)
Abreijos

Pata Negra disse...

Agualusa? Já tinha tocado umas leituras numas revistas daquelas que saem de dentro dos jornais! Gostei da prosa! Obrigado! Se alguém me oferecer um livro de Agualusa irei lê-lo de rompante, senão... amanhã tenho que pôr 30 euros de gasoil!
Pensando melhor!... Esta semana vou andar a pé para poder ler o livro!
Obrigado Meg

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
José Eduardo Agualusa é um escritor de referência e que me apaixona.
Este livro deve ser fascinante e eu vou adquiri-lo.
O teu espaço é um templo onde vimos beber sabedoria. Uma sabedoria que ajuda a viver e nos torna mais reais.
Abraço

Porca da Vila disse...

Pareceu-me bem interessante e hei-de lê-lo um dia. Assim darei uma volta por África, onde nunca estive. [Tenho prometido ler tanta coisa nos últimos meses que não sei se haverá férias que cheguem. Veremos.]

Xi Grande

Filoxera disse...

Comecei a lê-lo ontem à noite.
Beijos.