27 de julho de 2010

Alta-Costura


   Chagal, Le Poéte




ninguém suspeita que
um poeta não precisa de versos
com duas colheres e uma faca
abre o poema a meio
mete lá dentro o Alegre
o Napoleão e a santa Teresinha
um alfinete e uma pomba também fazem falta
para suplentes a florista edite
que vende rosas com música à Estrela
e na igreja de santa Isabel ao Rato

eu julgava que um poeta
precisava de versos nos livros
não é verdade. um poeta
sem prémios nas maminhas
passa o dia inteiro com uma faca.
se for bipolar ainda melhor
uns dias corta a preto
outros escreve para daltónicos
em são bento ?
sabias?
com a pá do lixo junta os papelotes
dos restos de poemas escabrosos
e num quadrado ao lado em Braille escreve
ao Saramago

o Sócrates é a favor de tudo
de perguntas de respostas
de ruas de democracias
de pessoas quase em cuecas
dos marcianos na Europa
porque isto é mesmo assim
ou se come Ou se é comido

o que me preocupa é o meu colar de pérolas
o grosseirão do Afonsinho
bateu na mãe com um milagre
e é por isso que hoje somos o que somos
e o que sobretudo não somos
ora, ora,
as crianças e os pomares
trazem já cabeças de navegadores
como na Alta costura!

maria azenha



 








16 comentários:

O Guardião disse...

Um poema com crítica social bem apropriado ao momento que vivemos. Chagal bem ao seu estilo.
Cumps

Mar Arável disse...

Bom texto

Boa malha

romério rômulo disse...

ótimo o poema da maria azenha, meg.
um beijo.
romério

Maria João disse...

Na verdade que assim se escreve, ouvem-se em eco os gritos de tantos que hoje, tal como outrora, mas hoje de forma diferente, se calam porque amordaçados.

Beijinho Meg
Saudades... espero que estejas bem!

São disse...

E não há quem corte de vez estes exemplares de alta costura?!

Um abraço grande.

Ana Tapadas disse...

Esta Maria Azenha é uma poetisa e tanto!
Beijo

mdsol disse...

Muito bem, Meg

:)))

Pata Negra disse...

nem poeta combina com versos
nem fogo com lenha
nem sócrates com rimas
nem maria com azenha
nem eu...
ah! um beijo combinado

Zé Povinho disse...

Um poema em que o Afonsinho bate na mãe, só me podia chamar a atenção.
Abraço do Zé

Filoxera disse...

Ironia poetizada.
Lindo.
Um beijo.

Vieira Calado disse...

Bem interessante esse seu poema!

Saudações poéticas.

Anónimo disse...

Uma passagem para cumprimentar.
Cums

Pedra do Sertão disse...

Para os dias de hoje, cai muito bem!

Zé Povinho disse...

Saudades de a ver por aqui.
Abraço do Zé

Maria João disse...

Meg

Venho deixar um abraço de saudades...

Que estejas bem...

São disse...

Finalmente, entrei!

Espero que voltes depressa.

Um abraço com saudades.