6 de junho de 2010

Regressando... aos poucos...

Com o poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar,

o mais recente Prémio Camões.



Coisas da terra

Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.


Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.


São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes de trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.


Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.


[Ferreira Gullar]

19 comentários:

Luisa disse...

Hoje consegui dar uma pequena volta pelos blogs que visitava quase diariamente. Muitos deles estão parados, outros calados desde Abril. Finalmente encontro o teu, actualizado hoje mesmo com um lindíssimo poema que não conhecia.

Endim Mawess disse...

poesia nunca é demais e seu blog é recheado delas de fernando pessoa que amo e a foto dum mar infinito.

Endim Mawess disse...

``mesmo a poesia as ilumina com dificuldade´´... foi a frase que masi me marcou

Decio Bettencourt Mateus disse...

Uma presença agradável e mais do justa, a de Ferreira Gullar, o prémio Camões 2010.

O Guardião disse...

Um autor que não conhecia até há poucos dias, quando ganhou o prémio.
Gostei. Um regresso em boa forma.
Cumps

Mar Arável disse...

Um merecido prémio Camões

Sylvia Araujo disse...

Ah, Gullar, Gullar... Me enche os olhos e o coração.
Passeando por aqui, conhecendo teu canto e adorando.

Beijoca

Maria João disse...

Um extraordinário poema que sem ser um grito é uma voz serenada pelas mais belas verdades.

... e o teu regresso, aos poucos...

que bom que é ver-te por aqui!

Um beijinho enorme

Ana Tapadas disse...

Acertámos nas postagens...
Que bom que voltaste!
espero que estejas bem.
Beijinhos

Nydia Bonetti disse...

Salve o poeta! Boa semana, Meg! Grande beijo.

utopia das palavras disse...

Tem tanto de divino, como tem de terra, de entranha, de soluços, tão tão realista e tão poético! Adoro Gullar!

Beijo para ti

Pata Negra disse...

Mas é nelas que te regressando, recalcitrando e regressando aos poucos

Zélia Guardiano disse...

Meg
Que beleza de poema, que beleza de poeta!
Um abraço

Bipede Implume disse...

Querida Meg
Voltando aos poucos e voltando muito bem.
Já é um bom sinal.
Beijinhos
Isabel

O Guardião disse...

Uma passagem para deixar os meus cumprimentos.
José Lopes

JPD disse...

Não conheço a obra.
Tive conhecimento da atribuição do galardão.

Gostei do poema.

Bjs

São disse...

Graças por me dares a conhecer um bonito poema.

Bem hajas!

lânternamágica disse...

ja sigo. abraços.

bettips disse...

Tu que me ensinas
e me retens na memória como eu a ti,
a ti eu digo:
Morreu um HOMEM - como Vasco Gonçalves, como Álvaro Cunhal
como muitos
não como todos.
Gente que não encaixa em perfis.
Choro a integridade:
e o contentamento de tantos
mexe-me
com o desgosto de muitos.
Bjs