10 de agosto de 2009

"Então é assim..."

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Velho, de Ema Berta
Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.
Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios, onde às escurass
e vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o cafés
em cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental. Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proibem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto, assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação «save»
e assim alcançarem a eternidade. (in Poesia Reunida, 1990-2000)
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Fernando Pinto do Amaral nasceu em Lisboa em 1960. Frequentou a Faculdade de Medicina, mas abandonou o curso, vindo a licenciar-se em Línguas e Literaturas Modernas, concluindo o Mestrado e o Doutoramento em Literatura Portuguesa.
É Professor do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras de Lisboa. Publicou, desde 1990, cinco livros de poesia, dois volumes de ensaio e traduziu poemas de Baudelaire, Verlaine, Jorge Luis Borges e Gabriela Mistral. Prefaciou edições de poesia de Camões, Bocage, Antero de Quental, Cesário Verde, Ruy Cinatti, Tomaz Kim e Luís Miguel Nava, entre outros.
Alguns dos seus poemas estão traduzidos e publicados em espanhol, francês, neerlandês, alemão, checo, inglês, búlgaro e turco.
Em 1990 publicou o seu primeiro livro de poesia, "Acédia", a que se seguiram "A Escada de Jacob" (1993), "Às Cegas" (1997) e "Poesia Reunida 1990-2000".
De entre os seus ensaios destaque-se "O Mosaico Fluido - Modernidade e Pós-modernidade na Poesia Portuguesa mais Recente" (1991).
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26 comentários:

Vieira Calado disse...

Obrigado pela partilha.

Cumprimentos meus

Agulheta disse...

Querida amiga. Já aqui vim da parte da tarde,como vou sair pela manhã. Venho deixar tudo de bom e gostei da partilha,fica bem.
Beijinho

Peter disse...

"o amor sem amor, para conservarem
o equilíbrio físico e mental"

Um autor que não conhecia e que nos retrata a vida que levamos.

É o interesse daquilo a que chamam "partilha". Sem querer atingir ninguém, considero-a uma designação infeliz e até com carácter depreciativo.

Moacy Cirne disse...

Oi, Meg,
o seu blogue continua tinindo.
E a história dp Padre - na verdade, já a conhecia - foi parar no Balaio de hoje. Os padrers seridoenses, no séc. XIX e primrira mdetade dos anos XX, também eram bastante mulherengos. Mas sem a fúria do tal prior de Trancoso.

Um cheiro.

Menina do Rio disse...

Então é assim...

Deixo-te um beijo, Meg

vbm disse...

É muito bem ridicularizado, esse tique contemporâneo da linguagem. Já tinha lido esse livrinho poesia & prosa do Fernando Pinto Amaral, comprado numa tabacaria por € 1.00 ou € 0.50, não lembro! Era uma distribuição anexa a uma revista qualquer, mas vendável em separado, também! :)

utopia das palabras disse...

É sempre uma mais-valia passar por aqui - então é assim, sabes que desconhecia Fernando Pinto do Amaral? Gostei imenso deste texto e parece-me bem aprofundar o conhecimento da sua obra!

Obrigada, Meg!

Beijinho do sul profundo

São disse...

Como agradecer-te?

Beijinhos.

Meg disse...

Amigo Vieira Calado,

Obrigada pela visita.
Tem um bom fim de semana.

Um abraço

Meg disse...

Lisa,

Obrigada também a ti pela visita e... boas férias.
Bom fim de semana.

Beijinho

zef disse...

Demorei tempo a "aderir" a este tipo de escrita...Fui-me "convertendo": agora gosto. Esta ironia sobre certos quotidianos construídos às custas de "química"...
Um abraço, Meg, dum preguiçoso...

Meg disse...

Peter,

E neste viver nos revemos... não todos evidentemente. Felizmente também.
E o autor... bom, vale a pena conhecer a sua obra.

Um abraço

Meg disse...

Moacy,

Meu amigo, meu blog até anda tinindo muito pouco, mas você sempre me acarinhando com seus mimos... e o Recalcitrante no Balaio foi uma honra, além de um mimo, uma grande honra.
Em breve o trabalho abranda e voltarei com mais tempo, Moacy!

Um cheiro p'rocê

Meg disse...

Menina do Rio,

Obrigada, Verónica, "é mesmo assim"!
Bom fim de semana.

Um beijo

Meg disse...

vbm

Querido Vasco,

É de tiques estamos bem fornecidos, meu caro.
Não foi a esses livrinhos que fui buscar este poema, mas tenho-os todos - os que a Visão nos "dá" de vez em quando.

Um abraço

Meg disse...

Utopia das palabras

Obrigada pelas tuas palavras... e tens razão quanto ao autor, não deixes de o conhecer.
E do Algarve mais litoral te deixo
um beijo

Meg disse...

São,

Não tens que agradecer-me nada, minha querida amiga... a tua presença aqui nesta altura de tanto trabalho é que é para mim um grande carinho.
Volto em breve, duas semanitas mais.

Beijo

Meg disse...

Querido Zef,

Só tu sabes o quanto gosto de te ver nesta "minha casa"... e principalmente das tuas palavras.
E preguiçoso ou não a casa é tua sempre e quando te apetecer.

Um beijo

lupussignatus disse...

a tinta

na

ferida


[poesia
viva e
mordaz]


*abraço*

Papoila disse...

Querida Meg:
Voltei de férias e visito os amigos.
Formidável poema que aqui nos dás a ler... "Então é assim..." que vamos vivendo... "Parece que está morta a metafísica e que a verdade adormeceu, sonâmbula,nos corredores vazios,"
Beijos

Filoxera disse...

A combinação, belíssima, do texto com a música, travou o meu sono e convidou-me a ficar.
Obrigada.

O Guardião disse...

Uma visita para viajar com as palavras que são sempre bem escolhidas por aqui.
Cumps

Meg disse...

Lupussignatus,

Sempre oportunas as palavras de um também poeta!

Um abraço

Meg disse...

Querida Papoila,

Tu voltaste e eu ainda não vejo sinal delas, das férias. Está Agosto quase a acabar, mas são cada vez mais longos estes dias.
Saudades.
Um beijo

Meg disse...

Filoxera,

Fica bem, então, minha amiga, vale-me a vossa companhia, mesmo quando estou tanto tempo ausente dos vossos blogues.

Um beijo

Meg disse...

Guardião,

As palavras andam escassas por aqui, que o Verão não permite mais.
Mas quando os Poetas falam como este empresa torna-se mais fácil.

Um abraço amigo