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15 de novembro de 2010

Em Abril Dilacerado

A papoila, óleo de Maria Azenha


em abril dilacerado
era uma vez uma voz
que habitava uma casa
e dentro desta casa
habitava uma menina sem voz
e dentro da menina
uma cidade sem janelas
e dentro da cidade
uma guitarra enorme

era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz

e tudo o que nos mata
a palavra cobre
e tudo o que nos move
a palavra ata

e todos os jardins
foram arrancados
por causa da memória
deste país tão pobre

era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz

e as lágrimas da menina
engoliram a cidade
em abril dilacerado
com arames em volta

Maria Azenha
[2003]

27 de julho de 2010

Alta-Costura


   Chagal, Le Poéte




ninguém suspeita que
um poeta não precisa de versos
com duas colheres e uma faca
abre o poema a meio
mete lá dentro o Alegre
o Napoleão e a santa Teresinha
um alfinete e uma pomba também fazem falta
para suplentes a florista edite
que vende rosas com música à Estrela
e na igreja de santa Isabel ao Rato

eu julgava que um poeta
precisava de versos nos livros
não é verdade. um poeta
sem prémios nas maminhas
passa o dia inteiro com uma faca.
se for bipolar ainda melhor
uns dias corta a preto
outros escreve para daltónicos
em são bento ?
sabias?
com a pá do lixo junta os papelotes
dos restos de poemas escabrosos
e num quadrado ao lado em Braille escreve
ao Saramago

o Sócrates é a favor de tudo
de perguntas de respostas
de ruas de democracias
de pessoas quase em cuecas
dos marcianos na Europa
porque isto é mesmo assim
ou se come Ou se é comido

o que me preocupa é o meu colar de pérolas
o grosseirão do Afonsinho
bateu na mãe com um milagre
e é por isso que hoje somos o que somos
e o que sobretudo não somos
ora, ora,
as crianças e os pomares
trazem já cabeças de navegadores
como na Alta costura!

maria azenha



 








12 de abril de 2010

Isto de ser poeta...

Maria Azenha... "sonhando"

(posso dizer que depois de a ler
não posso abrir “ o quarteto
a solo” incomoda como andar
ao Sol num dia de verão
sem ter um banco de jardim
onde pousar as letras)


hoje em dia um poeta
vale menos do que um cão
isto de deixar fugir os versos
pela internet dentro
causa-me uma grande aflição
e se amanhã eles não estiverem lá
que posso eu fazer
é muito perigoso escrever livros
hoje em dia hoje
vêm os vírus e apagam tudo
afectam as paredes do pc
não fica mesmo nada
é como se fosse tudo cego
o écran esconde as letras todas
ai senhor doutor ai senhor
doutor tenho uma dor de versos
tenho muito medo
preciso que me valha
sofro com isto tudo
é como se o meu sangue
fugisse todo pelo écran dentro
acordar de manhã ir ao sítio certo
e não ver lá nada
isto de ser poeta é uma grande aflição
ai senhor doutor ai senhor
doutor se calhar o melhor é ficar quieta
não escrever nada ficar muito quieta
ficar tudo na cabeça
não usar shampoo
porque os versos podem apagar-se
fugir todos como no écran
ai senhor doutor o remédio é ficar quieta
escrever coisas sem importância
pode alguém espreitar e apagar tudo
que é pior do que roubar alguém
pois não fica nada
e amanhã senhor doutor os poetas
escreverão poemas
só com uma simples troca de olhares
e os versos voltarão a ver-se


ai senhor doutor ai senhor doutor
isto de ser poeta


é uma grande aflição

Maria Azenha
.
.

23 de março de 2010

O prazo de validade da escola

Alexander Klevan



o prazo de validade da Escola
está fora do Um
entrego-me nas horas a polir as unhas ao Todo

o buraco da fechadura do mundo
está sujo

as empregadas
fecham as portas e marcam faltas
no supermercado onde vivo

escrevo no quadro está calada vânia
sem a metafísica do sujeito além do mais
o teorema de pitágoras foi de certeza roubado
da internet para testar a professora do armazém

deviam todos vestir a mesma bata para não se distinguir
a bélgica da alemanha da espanha e por aí fora
e também o país às terças feiras
quando toda a gente vai fazer compras
ao armazém de george orwell

as refeições continuam a ser repressivas
ninguém sabe o que come "está bem"
mas ficámos uns com os outros por causa da noção do todo

Maria Azenha