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13 de outubro de 2008

Se eu pudesse...

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"Yo y Carmen", de Ema Berta
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Se eu pudesse inventar uma rosácea Profetizar as cores que renasçam do amor E os antepassados cantarem seus saberes Se eu pudesse com a razão serena E o coração vibrando como uma guitarra Consertar a luz que gera a eloquência Se eu pudesse com minhas mãos rudes Aliviar o mar as estrelas e todos os seres Exilando as arrogâncias e os fanatismos Se eu pudesse enterrar fundo o desassossego Se eu pudesse emendar as distâncias Com ternura acariciar os cabelos do mundo Anular a forquilha do poder que viola tudo Se eu pudesse desfazer o cuspo da cupidez E libertar os uivos e os gemidos reprimidos Se eu pudesse;
Mas não sozinha...
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Ema Berta (n. Sintra, 13 de Fevereiro de 1944), é uma das mais importantes pintoras portuguesas contemporâneas. Exilada e esquecida em Paris, com uma obra largamente ignorada e desdenhada pela crítica e pelo establishment, em Portugal.
Uma obra que exala angústias e sofrimentos como nenhuma outra no nosso país.[...] Licenciou-se em Artes Plásticas e Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e fez parte da direcção da Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa.
Na Fundação Ricardo do Espírito Santo foi professora de desenho.
Ema Berta, vive actualmente em Paris.
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9 de outubro de 2008

Súplica



José de Pádua

SÚPLICA
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Tirem-nos tudo,
Mas deixem-nos a música!
Tirem-nos a terra em que nascemos,
Onde crescemos
E onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez...
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tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do shingombela
nas noites mulatas da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
– mas não nos tirem a música!
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Podem desterrar-nos,
Levar-nos
Para longes terras,
Vender-nos como mercadoria,
Acorrentar-nos
À terra, do sol à lua e da lua ao sol,
– mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
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Que onde estiver nossa canção,
Mesmo escravos, senhores seremos;
E mesmo mortos viveremos.
E no nosso lamento escravo
Estará a terra onde nascemos,
A luz do nosso sol,
A lua dos shingombelas,
O calor do lume,
A palhota onde vivemos,
A machamba que nos dá o pão!
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E tudo será novamente nosso,
Ainda que de cadeia nos pés
E azorrague no dorso...
E o nosso queixume
Será uma libertação
Derramada em nosso canto!
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– por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
tirem-nos tudo...
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a musica!
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. [Noémia de Sousa]
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. Lourenço Marques, 4/1/1949
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4 de outubro de 2008

Isto de ser poeta

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Paul Gauguin, Soyez Mysterieuse

Isto de ser poeta
(posso dizer que depois de a ler
não posso abrir “ o quarteto
a solo” incomoda como andar
ao Sol num dia de verão
sem ter um banco de jardim
onde pousar as letras)
hoje em dia um poeta
vale menos do que um cão
isto de deixar fugir os versos
pela internet dentro
causa-me uma grande aflição
e se amanhã eles não estiverem lá
que posso eu fazer
é muito perigoso escrever livros
hoje em dia hoje
vêm os vírus e apagam tudo
afectam as paredes do pc
não fica mesmo nada
é como se fosse tudo cego
o écran esconde as letras todas
ai senhor doutor ai senhor
doutor tenho uma dor de versos
tenho muito medo
preciso que me valha
sofro com isto tudo
é como se o meu sangue
fugisse todo pelo écran dentro
acordar de manhã ir ao sítio certo
e não ver lá nada
isto de ser poeta é uma grande aflição
ai senhor doutor ai senhor
doutor se calhar o melhor é ficar quieta
não escrever nada ficar muito quieta
ficar tudo na cabeça não usar shampoo
porque os versos podem apagar-se
fugir todos como no écran
ai senhor doutor o remédio é ficar quieta
escrever coisas sem importância
pode alguém espreitar e apagar tudo
que é pior do que roubar alguém
pois não fica nada
e amanhã senhor doutor os poetas
escreverão poemas
só com uma simples troca de olhares
e os versos voltarão a ver-se
ai senhor doutor ai senhor doutor
isto de ser poeta
é uma grande aflição
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Maria Azenha
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28 de setembro de 2008

Venenos de Deus, Remédios do Diabo

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Venenos de Deus, Remédios do Diabo
é o mais recente romance de
Mia Couto,
escritor moçambicano nascido em 1955
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[…]O médico estranha a sua própria ansiedade. Naquele lugar sem outra evasão, o relato dos sonhos de Bartolomeu era uma espécie de matinée de cinema. O doente desenrola a voz numa poalha luminosa e o português vai-se lembrando da sua cidade, dos rumores confusos provenientes das ruas atafulhadas de carros e gentes. E recorda Deolinda, o encontro fugaz e fabuloso, sob o fundo de luz branca de Lisboa. Quando Sidónio volta a dar conta do tempo, já Bartolomeu desnovela: «…chovia aquela noite…». - Chovia no sonho? - Oh, Doutor, o senhor sofre mesmo de poesias: então chove nos sonhos? - Eu, poesias? - Não é de agora. O senhor já anda poetando há muito tempo. Por exemplo, quando o senhor me aconselha para eu cortar nas bebidas… - Acha que isso é poesia? - Então não é? Corta-se na bebida? A gente pode cortar nas árvores, cortar na roupa, cortar sei lá onde, mas diga lá, Doutor, que faca corta um líquido? Só a faca da poesia. - Você é que anda muito inspirado nestes dias, meu caro Bartolomeu. - Ah, é verdade! Há ainda mais outra: o senhor diz que beber me faz gota. Sabendo os litros que bebo, Doutor, é preciso muita poesia para falar em gota… Que também ele, Bartolomeu Sozinho, fora dado a poesias. E pela centésima vez reabre a gaveta para reler num bloco de notas algo que escrevera sobre tempos e pensamentos. Avança para o centro do aposento e faz de conta que vai lendo um invisível manuscrito: «Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.» A mão tomba-lhe num inesperado abatimento e Bartolomeu sacode a cabeça como surpreso pela sua própria criação. - Munda diz que isto não é da minha autoria. Mas eu escrevi isto a bordo do Infante D. Henrique. Eu lá também sofri de poesia. O português contempla o velho com comiseração. A inexistente folha de papel que lhe pende do braço pesa mais do que ele pode suportar. E ele mesmo, Sidónio Rosa, se sente subitamente envelhecido. A idade é uma repentina doença: surge quando menos se espera, uma simples desilusão, um desacato com a esperança. Somos donos do Tempo apenas quando o Tempo se esquece de nós[…] in “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” – Mia Couto
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[...] Mia Couto sabe contar uma história, doseia a informação com mestria, revela os factos no momento certo, fá-lo quando já estamos desconfiados da sua existência e sem chamar a atenção para si. O leitor só sabe aquilo que a personagem principal sabe, embora haja algumas excepções, e toma conhecimento dos factos ao mesmo tempo que Sidónio. Isto permite que cada revelação seja, no contexto da narrativa, verosímil e permite também uma maior envolvência da parte do leitor[...] Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo é fácil gostarmos das personagens pelo carisma e pela quase total ausência de maldade. Não são heróis, são pessoas que, como todos nós, cometem erros, mentem, falam verdade, têm medos, fantasmas e acreditam em algo que não se vê e que não é terreno. Nessa galeria de personagens destaca-se Bartolomeu Sozinho, um velho reformado que andou toda a vida, quando Moçambique era uma colónia portuguesa, embarcado no transatlântico Infante D. Henrique. Passa os dias fechado no seu quarto, apenas com a companhia da televisão que, como é dito, sonha por ele. Mal visto em Cacimba, por causa da sua ligação ao regime colonial que é empolada por uma daquelas lendas heróicas que alguns contam – neste caso o administrador Suacelência – para se vangloriar e conseguir um lugar de destaque junto da comunidade[...] . por Emanuel Amorim, in Orgia Literária . .
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23 de setembro de 2008

Saber Viver é Vender a Alma ao Diabo

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Kandinsky
Saber viver é vender a alma ao diabo Gosto dos que não sabem viver, dos que se esquecem de comer a sopa (Allez-vous bientôt manger votre soupe, s... b... de marchand de nuages?») e embarcam na primeira nuvem para um reino sem pressa e sem dever. Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe, transborda e escorre, já rio no chão, e gosto de quem lhes segue o sonho e lhes margina o rio com árvores de papel. Gosto de Ofélia ao sabor da corrente. Contigo é que me entendo, piquena que te matas por amor a cada novo e infeliz amor e um dia morres mesmo em «grande parva, que ele há tanto homem!» (Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..) Gosto do Napoleão-dos-Manicómios, da Julieta-das-Trapeiras, do Tenório-dos-Bairros que passa fomeca mas não perde proa e parlapié... Passarinheiros, também gosto de vocês! Será isso viver, vender canários que mais parecem sabonetes de limão, vender fuliginosos passarocos implumes? Não é viver. É arte, lazeira, briol, poesia pura! Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo; não me bandeio (que eu já vi esse filme...) com gerações perdidas. Mas senta aqui, mendigo: vamos fazer um esparguete dos teus atacadores e comê-lo como as pessoas educadas, que não levantam o esparguete acima da cabeça nem o chupam como você, seu irrecuperável! E tu, derradeira geração perdida, confia-me os teus sonhos de pureza e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia... Por que não põem cifrões em vez de cruzes nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer? Gosto deles assim, tão sem futuro, enquanto se anunciam boas perspectivas para o franco frrrrançaise os politichiens si habiles, si rusés, evitam mesmo a tempo a cornada fatal! Les portugueux...não pensam noutra coisa senão no arame, nos carcanhóis, na estilha, nos pintores, nas aflitas, no tojé, na grana, no tempero, nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e... sont toujours gueux, mas gosto deles só porque não querem apanhar as nozes... Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho. Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo o mais económico dos gestos! Saber viver é vender a alma ao diabo, a um diabo humanal, sem qualquer transcendência, a um diabo que não espreita a alma, mas o furo, a um satanazim que se dá por contente de te levar a ti, de escarnecer de mim... . Alexandre O´Neill . «««««o»»»»» . .