A Fome, de José Pádua
Em plena mudança de casa - mais uma vez...
entre livros e outras "coisitas" que me vão acompanhando ao longo da vida...
encontrei umas serigrafias de José Pádua, um pintor moçambicano que conheci nos anos 70 na Beira... em Moçambique, claro!
Não sendo muito divulgado, resolvi deixar-vos aqui (mais uma vez) um brevíssimo, mas caloroso, testemunho da sua obra.
....E este olhar de MIA COUTO sobre a obra de José Pádua
"A pincelada breve, magra, sugerindo apenas a forma e indicando a cor.
Isso eu busco nos quadros de Pádua.
Como procuro na poesia que vive apenas de essência, depurada de excesso, sacudida de artifícios.
Eu leio a pintura de Pádua como quem olha palavras e as vê voláteis, escapando do território da página.

E me pergunto que arte é essa que não será o preencher de formas o vazio, mas o exacto oposto.
Como se houvesse um desenho inicial, uma tela cheia de formas e traços e ele, em lugar de pintar, raspasse, em vez de acrescentar, apagasse, ao invés de rendilhar, simplificasse.
Até a forma ficar assim, leve e fugaz, e
pedisse ao papel não o suporte de
fixação mas um movimento, um impulso de asa.

Nas linhas do pintor moram lugares da minha infância, os subúrbios dessa meninice, a Munhava, os meninos brincando com arcos, os pescadores esguios, as mulheres carregando água como se elas e o cântaro fossem um único desenho.
E um rio que poderia ter o nome de Púngè.
Mas que se chama tempo e vai escrevendo em nós uma caligrafia que é a saudade do tempo em que a vida não doía.
Como se a vida fosse uma tela onde a mão divina do pintor salvasse do branco esse inacabado desenho que nós somos."
Mia Couto
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Foi eleito Artista Plástico do Ano em 1966 pelo Jornal A Tribuna, de Moçambique, pelo seu trabalho enquanto pintor, decorador, ilustrador e gravador.
Entre 1974 e 1978 trabalhou exclusivamente para a Galeria de Arte R. Rennie, Harare, Zimbabwe.
De 1979 a 1981 foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, frequentando cursos de gravura em metal e de litografia.
Em 1980 e 1981 foi distinguido com os 2º e 1º prémios, respectivamente, em exposições sobre temas de Lisboa. Em 2002 publicou o livro O Fascínio de Moçambique.
Tem também trabalhos nos domínios daescultura e azulejaria, bem como murais em cimento.Entre 1962 e 2003 realizou mais de trinta exposições individuais em Moçambique, Portugal, Zimbabwe, África do Sul e Suécia.
Além de ter participado em inúmeras exposições colectivas faz parte do grupo A Tertúlia de Artistas de Moçambique que expõe todos os anos, desde 1984, em vários países do mundo.
Está representado em inúmeras colecções particulares em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente na África do Sul, Zimbabwe, Malawi, Moçambique, Angola, Espanha, Suécia, Áustria, Brasil, Venezuela, EUA, Canadá, Israel, Japão e Austrália.
[F.Ferreira Mendes]


