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16 de abril de 2009

O sexo dos anjos

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E para desanuviar das tristezas da política...
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O SEXO DOS ANJOS

Foi em Bizâncio, antes da queda.
Discutiam o sexo dos anjos, e a discussão ficou interrompida
quando os turcos cortaram o fio à meada,
se é que não cortaram mesmo o sexo aos anjos.
Bizâncio, então, podia ter caído uns dias mais tarde:
talvez, durante esses dias, se pudesse chegar a uma conclusão
sobre qual era, afinal, o sexo dos anjos;
e o assunto interessa-me porque os únicos anjos que conheço são em estátua,
e não é possível espreitar o sexo de uma estátua!
A queda de um império, é verdade, dá-nos estas coisas imprevisíveis:
dá-nos um voo de argumentos teológicos sobre o sexo;
e traz-me, de súbito, o teu rosto,
inquietante na sua fixidez de enigma grego
– esse rosto de perfil, e também gosto dos perfis,
mesmo quando não são de anjos
ou não têm a linha pura dos ícones gregos.
Basta-me, então, saber que é o teu rosto;
ouvir ainda as tuas últimas palavras de despedida,
que me soaram demasiado secas
 

(mas que outro tom se pode usar
numa despedida para não ser patético,
como esses que ainda discutiam o sexo
dos anjos num conflito cercado pelos turcos?)

– e dizer-te, agora, que não há voltas a dar ao amor
quando o céu muda a cada instante,
e é preciso, apesar de tudo,
que alguma coisa permaneça intacta em tempos de mudança.
Que outros impérios terão de cair para isso?
Em que novo concílio ouvirei discutir o sexo dos anjos?
Ouve, então, de novo:
em Bizâncio, uma tarde, foram todos degolados à beira da conclusão.


Nuno Júdice 


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