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17 de dezembro de 2009

Eça... nunca é demais!



"E assim se passa, defronte de um público enojado e indiferente, esta grande farsa que se chama a intriga constitucional. Os lustres estão acesos. Mas o espectador, o País nada tem de comum com o que se representa no palco; não se interessa pelos personagens e a todos acha impuros e nulos; não se interessa pelas cenas e a todas acha inúteis e imorais. Só às vezes, no meio do seu tédio, se lembra que para poder ver, teve que pagar no bilheteiro.


Pagou – já dissemos que é a única coisa que faz além de rezar. Paga e reza. Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam, soldados que o não defendem, padres que rezam contra ele. Paga àqueles que o espoliam, e àqueles que são seus parasitas. Pagam os que o assassinam, e paga os que o atraiçoam. Paga os seus reis e os seus carcereiros. Paga tudo, paga para tudo.

Em recompensa, dão-lhe uma farsa.

No entanto, cuidado! Aquele pano de fundo não está imóvel: agita-se como impelido por uma respiração invisível. Alguém decerto está do outro lado. Enquanto a farsa se desenrola na cena, alguém, por trás do fundo, espera, agita-se, prepara-se, arma-se talvez...
- Quem é esse alguém? As vossas consciências que vos respondam./.../"

Eça de Queiroz
1867

Aos AMIGOS...

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Aos Amigos,

Venho deixar hoje uma palavra de agradecimento pela preocupação e carinho demonstrados, não só nos comentários, como nos inúmeros émails que recebi nos últimos  dias.
Porque quem me acompanha há quase três anos, sabe que não é meu hábito trazer para aqui os momentos menos bons como este,  foram de uma enorme sensibilidade as palavras que recebi. 
Quero dizer-lhes que a troca de émails  foi muito gratificante e me têm ajudado a superar esta fase.
Este agradecimento é também extensível aos Amigos do Verso & Prosa ... onde muitos dos amigos foram encontar o meu endereço.
As palavras de conforto que me chegaram de quase todos vós, têm sido muito importantes.
Mesmo aos mais recentes amigos, devo uma palavra também, porque não me conhecendo assim tanto, me manifestaram a sua amizade, o que de certo modo me surpreendeu.
A net tem destas coisas.
Não sei se me repeti, mas estou a escrever o que sinto, e faço-o do coração.
O MEU CARINHO POR TODOS VÒS, É IMENSO!
Logo que me sinta com "estaleca" estarei convosco... no fim de semana ou antes ainda...
Entretanto não quis deixar de demonstrar aqui os "bastidores" destes dias, agradecer mais uma vez a vossa preocupação e as vossas palavras de estímulo.
BEM HAJAM!

meg
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13 de dezembro de 2009

Hoje estou triste...

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hoje estou triste

falta-me o ânimo e a alegria
uma súbita tristeza tomou conta de mim
não sei o que sinto, mas sinto-me assim...

apesar de ser natal... ou talvez por isso
hoje estou triste... e em silêncio
preciso de tempo, meus amigos...
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... de Maria Azenha

                                        

 Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.
[...]

Rainer Maria Rilke,

in Das Buch der Bilder - O Livro das Imagens,
Tradução de Maria João Costa Pereira
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8 de dezembro de 2009

O HÁBITO, de Oriana Fallaci

PARA REFLECTIR E COMENTAR...um convite...

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O HÁBITO é a mais infame das doenças
porque nos faz aceitar qualquer infelicidade, qualquer dor, qualquer morte.

Por hábito, vivemos com pessoas odiosas,
aprendemos a andar acorrentados,
a suportar injustiças, a sofrer,
a resignarmo-nos
à dor, à solidão, a tudo.
O hábito é o mais impiedoso dos venenos
porque entra em nós lentamente,
silenciosamente,
cresce a pouco e pouco,
alimentando-se da nossa inconsciência e,
quando descobrimos que a temos sobre nós,
já todas as nossas fibras de adaptaram a ela,
já todas as nossas atitudes foram por ela condicionadas,
não existe já remédio que possa curar-nos.
Oriana Fallaci
[Um Homem, pág.120].

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Oriana Fallaci (Florença, 29 de junho de 1929 — Florença, 15 de setembro de 2006) foi uma escritora e jornalista italiana.
De uma esquerdista nos anos sessenta, tornou-se na principal crítica do Islão na actualidade da Itália [1].
Seu pai, Edoardo, foi um activo antifascista e já aos 10 anos, Oriana estava envolvida com a Resistência Italiana, participando do movimento clandestino "Giustizia e Libertà".
Durante a ocupação de Florença pelos nazistas, o pai foi capturado e torturado na "Villa Triste", onde funcionava uma secção da polícia politica alemã, também utilizada como cárcere e lugar de torturas até a Libertação de Florença, em Setembro de 1944.
Pela sua participação na Resistência, Oriana foi condecorada, aos 14 anos, pelo Exército Italiano.
Oriana iniciou sua carreira de jornalista aos 16 anos.
Inicialmente trabalhou como colaboradora de jornais locais e posteriormente como enviada especial da revista semanal L'Europeo, fundada em 1945.

Em 1967 trabalhou como correspondente de guerra para L'Europeo no Vietnam.
Retornará ao país por 12 vezes em 7 anos, para narrar a guerra, sem fazer concessões nem aos comunistas, nem tampouco aos americanos e aos sul-vietnamitas.
As experiências da guerra são reunidas no livro "Niente e così sia" publicado em 1969.
Ao longo de sua carreira, realizou importantes entrevistas com algumas das mais importantes personalidades do século XX, dentre as quais se destacam Henry Kissinger, o Ayatollah Khomeini, Lech Walesa, Willy Brandt, Zulfikar Ali Bhutto, Walter Cronkite, Muammar al-Gaddafi, Federico Fellini, Sammy Davis, Jr., Deng Xiaoping, Nguyen Cao Ky, Yasir Arafat, Indira Gandhi, Alexandros Panagoulis, Wernher von Braun, o Arcebispo Makarios, Golda Meir, Nguyen Van Thieu, Haile Selassie e Sean Connery.


"A Força da Razão" é uma rigorosíssima análise daquilo a que Fallaci chama Incêndio de Tróia, isto é, de uma Europa que, na sua opinião, já não é Europa - mas sim "Eurábia", colónia do Islão.
E fá-lo numa perspectiva histórica, filosófica, moral e política, enfrentando como sempre temas sobre os quais ninguém se atreve a falar e usando uma lógica irrefutável.
A Força da Razão é um hino ao raciocínio e à verdade, onde o leitor encontrará uma extraordinária maturidade de pensamento, coragem e a nobreza de ânimo
 "Livro clarificador e com sérias pretensões a originar mais uma fatwa à autora. Oriana Fallaci não deve estar preocupada, a sua convicção na força maior da opinião e na liberdade de expressão leva-a a continuar a pensar o mundo em que vivemos de uma forma despudorada e sem acenos diplomáticos à esquerda ou à direita, leia-se ao Ocidente bem comportado ou ao Oriente de vertente fundamentalista."Tiago Salazar, Magazine Artes, Janeiro de 2005
«Suscitado pelos ataques de 11 de Setembro de 2001 às Twin Towers, A Raiva e o Orgulho é, de facto, um violento libelo, cheio de raiva e de emoção. Em termos vivos, denuncia aquilo que considera ser uma vontade de conquista e de hegemonia dos radicais islâmicos e, mesmo, do mundo muçulmano em geral. E critica os ocidentais de cegueira perante essa ameaça e o confronto que já estará em curso: um confronto que, se ainda não é militar, é “cultural, intelectual e religioso”. Excessiva, sem dúvida por vezes injusta, Oriana Fallaci tem, no entanto, o mérito de ousar provocar um oportuno debate civilizacional.[Expresso]

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[Republicação]
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4 de dezembro de 2009

A Implosão da Mentira

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Fragmento 1.
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
 
 
Fragmento 2.
                                                             Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente.Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre.Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

Affonso Romano de Sant'Anna