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Amadeo Souza-Cardoso O emprego do eufemismo caracteriza certas camadas sociais. A um homem da plebe que comete um furto, as gazetas não hesitam em exprobar ao ladrão, ao gatuno, o roubo que praticou ; mas se um homem de alta sociedade cometeu o mesmo, o mesmo crime, então os redatores adoçam servilmente a frase e escrevem: desvio de fundos, fraude, alcance, etc...
O povo observou perfeitamente esta injustiça e fez sobre ela um provérbio admirável: "Quem as gazetas não hesitam em exprobar ao ladrão, ao gatuno, o roubo que praticou ; mas se um homem rouba um pão, é ladrão; quem rouba um milhão, é barão". Um homem do povo não se embriaga; isso é próprio da gente fina; o plebeu embebeda-se, e, empregando termos da gíria popular, toma a carraspana, o pifão, o pileque, fica grosso, colhe a trompa (gíria galega), etc. Se num salão aristocrático se ouvissem estes nomes, as senhoras corariam de indignação; se numa viela de Alfama, em Lisboa, alguém pronunciasse o vocábulo embriagar, era apupado e escarnecido – caso verdadeiramente o entendessem. O conselheiro Acácio, a famosa caricatura de Eça de Queirós, conhecia bem o valor do eufemismo e empregava-o constantemente. Diz dele o escritor: "Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir". Até os ladrões entre si usam o eufemismo, como aquele ratoneiro duma novela de Castelao, que suavizou o termo roubar em apanhar: "Certa noite de caminho propuxo Barrote que fossem apanhar uas galinhas". – Os dous de sempre, 1ª edição, p. 60. Pode portanto dizer-se que há na linguagem uma dissimulação, uma espécie de hipocrisia – o reflexo de todas as atenuações, transigências e desigualdades que a vida social, como está constituída, nos impõe. M.Rodrigues Lapa, in Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1982. (excerto)
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filólogo, ensaísta e crítico literário português nasceu em 1897, oriundo de Anadia, e faleceu em 1989.
Licenciado pela Faculdade de Letras de Lisboa, doutorou-se com uma tese que ficou na história literária portuguesa como um dos estudos fundamentais sobre a lírica trovadoresca:
Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade Média.
Tendo sido um opositor ao regime salazarista, em 1933 foi banido da faculdade onde leccionava e perseguido politicamente juntamente com outros intelectuais independentes.
Dirige, então, o jornal O Diabo e inicia a direcção da colecção Textos Literários, da Seara Nova, um importante contributo pedagógico, bem como inicia a colaboração nos Clássicos Sá da Costa.
Mais tarde foi obrigado a exilar-se em Paris, aquando o seu apoio a Norton de Matos, cidade onde continuará a sua actividade de investigador e professor até ao 25 de Abril, data que marca o seu regresso definitivo a Portugal.
. De salientar ainda na sua produção Lições de Literatura Portuguesa , Estilística da Língua Portuguesa e um livro de memórias, As Minhas Razões (Memórias de Um Idealista Que Quis Endireitar o Mundo) .
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