27 de julho de 2010

Alta-Costura


   Chagal, Le Poéte




ninguém suspeita que
um poeta não precisa de versos
com duas colheres e uma faca
abre o poema a meio
mete lá dentro o Alegre
o Napoleão e a santa Teresinha
um alfinete e uma pomba também fazem falta
para suplentes a florista edite
que vende rosas com música à Estrela
e na igreja de santa Isabel ao Rato

eu julgava que um poeta
precisava de versos nos livros
não é verdade. um poeta
sem prémios nas maminhas
passa o dia inteiro com uma faca.
se for bipolar ainda melhor
uns dias corta a preto
outros escreve para daltónicos
em são bento ?
sabias?
com a pá do lixo junta os papelotes
dos restos de poemas escabrosos
e num quadrado ao lado em Braille escreve
ao Saramago

o Sócrates é a favor de tudo
de perguntas de respostas
de ruas de democracias
de pessoas quase em cuecas
dos marcianos na Europa
porque isto é mesmo assim
ou se come Ou se é comido

o que me preocupa é o meu colar de pérolas
o grosseirão do Afonsinho
bateu na mãe com um milagre
e é por isso que hoje somos o que somos
e o que sobretudo não somos
ora, ora,
as crianças e os pomares
trazem já cabeças de navegadores
como na Alta costura!

maria azenha



 








11 de julho de 2010

Pedaço de sonho...Xico Santos

"Meg:
Mas este pedaço de sonho eu vou mesmo roubar de você... fiquei sem ar, poh!!!
Foi sonho mesmo???? Maravilha!
Adoro sua escrita... suas reticências...
Beijo
meg
Xico: 
Meg, tome uma lasca das grandes...
pode levar... foi sonho, Meg!...
 mas, assim, em plena realidade... entende?
Foi um mergulho de fôlego só... manja?...
então, também faltou o ar por aqui...
Ah, Meg!..."


... "Agora queria muito te beijar e ter seu colo pra pousar.... ficaria ali quietinha, só fazendo cafuné... até adormecer...”


  "Então... fui dormir tarde, muito tarde... li e reli seu texto acima... e é muito louco isso... a loucura de te "procurar" naquela tarde, naquela noite...
lembro-me da tua boca... evitava fixar os teus olhos... e havia também minha timidez, sempre presente!, o tempo todo a dizer "não! "... não, cara, ela nem te viu!"...
e "aquela coisa" a incomodar... ali, pulsando... e a noite, indiferente, digerindo a tarde engolida!, indo embora, se lixando pra mim... pro meu tormento... e era doloroso, e eu, quieto revendo uma foto, outra foto...
e eu não sabia mais se era eu mesmo quem estava ali, ou se aquilo era, na verdade, um trecho de um filme do Linch (aquele fiodaputa!), estagnado na memória: "vc bebendo água numa fonte... aonde mesmo? Roma?... Milão?... Veneza?...
Ah, sei lá! no mundo... num mundo sem mim... e eu aqui, baratinado... feito um rebento no serrado, na caatinga... esperançoso... de quê, mesmo?
Sei!: a esperança é um sentimento medíocre!, (será?!) e como "coisa" que é – a gritar na minha cara que, amanhã pela manhã, quando eu acordar, você estará enroscada em minhas pernas, que eu vou olhar e não vou saber quais são as minhas... e a tua respiração, de tão próxima, vai embaçar as lentes da minha miopia estacionada... e eu vou ficar paralisado, com os olhos afogados em tanta beleza que emana tua boca, que beijei (Será?!), feito um náufrago noite passada... e, claro!, sentirei aquele medo eterno de que pode ter sido apenas um sonho... e vou ficar imóvel, pra que ele não quebre meu corpo extasiado... pra que aquele momento se eternize, e que possa fazê-la viva em mim."


Xico Santos



Xico:
Eu te avisei! Por isso não reclama, não!
Pois aqui partilho com os amigos, o teu "pedaço de sonho", um texto muito belo, escrito como só tu sabes!

Beijo, hômi!
meg

21 de junho de 2010

O SILÊNCIO DAS GENTES

José Pádua
.
.
Um silêncio e passos d’homens importantes
Ecoam chão de mosaicos
Poc, poc, poc…ecos
E fatos enfatados
E engravatados
D’homens importantes que as gentes!


Um microfone num discurso sábio
Regado de palavras sábias
O silêncio cúmplice dos dias
No silêncio do silêncio
Das gentes cansadas das oratórias
E discursos de hipocrisias!


Uma torrente de palavras rechonchudas
Um desfile de sapiência
Em gravatas abastadas
As minhas gentes caminham mudas
E desesperam paciência
Na dor do alvorecer de madrugadas!


Quem compra os espinhos das gentes
No suor da caminhada?
Passos d’homens arrogantes
Ecoam mosaico d’estrelas
Eu rezo as velas
Das gentes perfiladas nas estradas!


As minhas gentes suam injustiça dos dias
E dor das noites silenciadas
Magricelas
No palácio das estrelas
Gravatas abastadas
Festejam hipocrisia de palavras sábias!


A minha noite adormece entristecida
Na cobardia da gente emudecida!


Décio Bettencourt Mateus
In "Xé Candongueiro".


(Obrigada, querido amigo Décio!)
http://mulembeira.blogspot.com/



6 de junho de 2010

Regressando... aos poucos...

Com o poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar,

o mais recente Prémio Camões.



Coisas da terra

Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.


Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.


São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes de trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.


Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.


[Ferreira Gullar]